A Oeste tudo de novo

Basta observar o programa da temporada americana para se perceber que os contorcionismos no universo da ficção não se comparam, nem de perto, nem de longe, com as surpresas da realidade. Seria como tentar comparar maçãs, laranjas e, neste caso também, bananas.

Imaginemos um domingo pacato. Em qualquer desses domingos pacatos um americano da classe média, com posses de lar e família para além dos fundos mutualistas garantidos pela catedral de Wall Street, arrisca-se a acordar numa manhã de um dia em que o presidente do país declara oficialmente que os refugiados deveriam ser deportados sem que seja passada ordem judicial ou assinado documento de expulsão.

Quando alguém no estrangeiro me pergunta, a situação é assim: nota-se uma grande tensão. Nem sempre há paz e sossego num país em que a maioria dos cidadãos acredita que o sistema caiu nas mãos de um candidato da Manchúria pronto a fazer o jogo da superpotência inimiga. Até mesmo a senhora do Chase Bank no qual adquiri empréstimo (antes do colapso financeiro de 2006) confirmou que a economia precisa de outra correção.

Geralmente não sigo informação dada por agente bancária. Esta, de nome na placa alfinetada ao peito, garantiu-me que pertencia à família do mestre Kahlil Gibran. É isso mesmo que deveria ser ensinado nas escolas. O país é feito da sabedoria de muitos géneros de gente que decidiu viver aqui – mais a sabedoria dos nativos que já cá estavam e foram defraudados, quando não dizimados, e a dos escravos negros que desembarcaram acorrentados.

«Quando alguém no estrangeiro me pergunta, a situação é assim: nota-se uma grande tensão.»

Vinha isto a propósito da tensão no ar. Nos meios políticos passou a ser visto como pecado ter no currículo algo que prove colaboração com a presidência. A resistência anti-regime vinga até na capital federal. Há dias, Sarah Sanders, porta-voz da administração Trump, viu-lhe negado serviço urgente de refeição num recinto de acesso público. Poucos dias antes, a ministra que dirige o departamento de Homeland Security fora vaiada num estabelecimento especializado em delícias mexicanas.

Consta que, sobretudo nas redes sociais mas possivelmente até nos bastidores mais sombrios, quem trabalha para esta administração continua a sentir dificuldade em arranjar namoro permanente ou apenas companhia passageira numa sexta vulgar.

Kevin Costner, um rebelde conservador mas avançado que se mantém versado no país antigo e na mudança dos tempos à mão dos invasores – ele que reside nas montanhas do Colorado e sente que a aproximação à cidade proporciona encontros que lembram os meses em que lá no rancho fica aberta a época da caça – dizia-me há dias aquilo que parece inegável neste novo choque de civilizações: o americano dominante atual vem de famílias europeias que, chegadas ao novo mundo depois de terem sobrevivido à depravação das elites na terra natal, avançaram pelo novo território adentro e fizeram a sua lei quando ninguém estava a olhar.

E acrescentou: «há matérias que um homem tem de enfrentar e resolver com as suas próprias mãos». A paisagem continua a ser moldada por forças de grande fricção e calor como se a composição procurasse ninho na geografia. A lava vulcânica do Havai. Os
furacões do golfo. Os tornados no centro das pradarias. Os maremotos e terramotos no Pacífico. O país ganha forma diante dos nossos olhos, inteiramente feito com as mãos e não somente atirado ao destino.