Santiago de Litém:a melhor festa de verão de sempre

Era manhã cedo, extraordinariamente cedo para músicos mais rotinados com a noite do que com o sol quente de uma manhã de agosto. Umas horas antes a pergunta; Vamos amanhã tocar a Santiago de Litém, queres vir? O querer ir significava entrar a bordo do autocarro do Projecto Bug. O bugbus já tinha passado por dois séculos e percorrido meia Europa; primeiro a transportar crianças na Alemanha, depois ao serviço de uma equipa de futebol francesa e finalmente como sala de aulas em movimento, por terras minhotas, para futuros condutores de pesados, até chegar a Mafra e se entregar ao Senhor que é como quem diz: daqui para a frente o destino é o que Deus quiser.

As menções religiosas de quem não professa nenhum tipo de fé a não ser no Benfica, e algumas referências aos filmes do Kusturica ganharam sentido quando já sentado com a minha companheira num autocarro a dever anos à sucata, reparámos que o ar condicionado era uma ventoinha apontada para um bidon cheio de gelo no qual os músicos iam mergulhando as mãos não só para as refrescar mas para retirar minis na difícil missão de manter os ocupantes do autocarro fresquinhos, tanto do lado fora como hidratados no lado de dentro, começando pelo harpista, também treinador de rugby nas horas livres e camionista profissional nas outras horas e como tal único encartado da banda para conduzir o autocarro pelas sinuosas estradas do interior do país.

O problema do harpista era o de ter de conduzir o Serta de origem alemã, como conduzia a sua vida profissional: horas certinhas de descanso, nada de álcool nem outro tipo de materiais relaxantes, quer nas horas de conduzir os TIR, quer na hora dos treinos de rugby. Para mim foi fácil, optei por não contar as vezes que ele punha a mão no bidon e quando tal acontecia eu desviava o olhar para a paisagem, como tal nunca o vi tocar noutra coisa que não fosse no volante. Se fumava tabaco de enrolar ou se o tabaco de enrolar era somente tabaco foi coisa que não fui lá cheirar, porque me ensinaram desde pequeno a não meter o nariz aonde não sou chamado. Portanto não confirmo nem desminto seja o que for e nem que me arranquem as unhas, não digo mais nada sobre o assunto.

Ainda o autocarro não tinha partido já o bidon era reabastecido, não de gelo, mas de minis de diversas cores, talvez as verdes fossem daquelas sem álcool e talvez o verde fosse a cor preferida do exímio tocador de harpa e os cigarros de enrolar que ele fumava de vez em quando, fossem mais verdes do que castanhos, mas como escrevi mais atrás, nem que me arranquem as unhas confirmo ou desminto seja o que for.

Tive oportunidades de estar num after hourscom o Bruce Springsteen, num backstage com o Marlyn Mason ou a jantar com o vocalista dos Megadeth

Se já me sentia uma personagem a habitar num filme do Kusturica o que veio a seguir leva-me a dizer que ainda estávamos no trailer. Chegados a Santiago de Litém, esperava-nos a elite da terra que constituía o comité oficial de receção à banda. Fui apresentado como membro efetivo do Projecto Bug e tive direito a lugar na mesa da banda da mesma forma em que nos anos em que fotografei concertos um pouco por todo o mundo, tive oportunidades de estar num after hours com o Bruce Springsteen, num backstage com o Marlyn Mason ou a jantar com o vocalista dos Megadeth, entre muitas histórias insignificantes, se comparadas com esta.

 

Durante o almoço oferecido na comissão organizadora uma senhora muito entusiasmada com a presença do muito comunicativo grupo de musicos. Na realidade, eu era a excepção e acabei por passar pelo excêntrico da banda, exatamente porque era o único que não tinha vestes coloridas com cores ainda por catalogar, óculos de fazer inveja ao Elton John, chapéus para todos os gostos e roupas tão fashion que hesito na sua classificação; vanguardismo, vintage ou mesmo uma cena do Regresso ao Futuro. Durante o almoço pude testemunhar a mudança de humor da senhora da comissão, não por algum transtorno de personalidade, mas quando se apercebeu que aquele cheiro que começava a tresandar na mesa não era de tabaco de má qualidade, aliás não podia ser de tabaco de nenhuma qualidade, começou a fazer contas à sua reputação e a questionar-se sobre o estar ali a confraternizar com aquele grupo de gente muito divertido mas demasiado exótico para quem tente criar reputação.

A seguir ao almoço entramos completamente num filme Kusturica. Estava combinada uma arruada com passagem pelos cafés, snacks e tascas da freguesia pois todos contribuíam para a festa. Por isso, com o nosso harpista dispensado da condução e também da Harpa, armou-se de Bombo e juntou-se ao soprador de Bombardino, ao Sacabuchas e tudo o mais o que o tetradecagneteto do Projecto Bug usam para tocar. Embarcamos assim a bordo da grande aquisição da junta de freguesia; um comboio turístico elétrico. A última grande novidade em Santiago de Litém depois da descoberta, em 1988, de uma ossada de um Allosaurus fragilis que se julgava só existir na América do Norte, a juntar à descoberta do primeiro dinossauro Terópodo intercontinental.

 

Se o harpista podia deixar algumas dúvidas mas tinha uma condução irrepreensível, já o entusiasmado motorista do comboio elétrico ao fim das primeiras curvas, tomado pelo espírito do Ayrton de Senna, obrigou-nos a um repto: ou se acalma, ou pára aqui e vamos todos a pé. A banda, que devo dizer é composta por excelentes músicos, só tinha feita uma exigência: a de haver cerveja fresca para todo o staff artístico em cada paragem e foram muitas. Deixei de contar ao fim de meia dúzia de paragens, porque o harpista, camionista TIR e treinador de rugby nas horas livres, em marcação homem a homem, informou-me de uma forma bastante firme: ou bebes para seres cá da malta ou isto não te vai correr bem. Disse-me isto de pé em cima de uma mesa a tocar bombo aos meus ouvidos.

 

A arruada durou toda a tarde e dei por mim já noite dentro a passear pelas barracas das Festas de Verão de Santiago de Litém, enquanto a banda se preparava para apresentar o seu espectáculo em cima do palco. Tudo gente muito boa e interessada no bem-estar dos visitantes, e ninguém arredou pé mesmo com uma média de idades muito próxima da Serta alemã. Mas o entusiasmo parava a cerca de 20 metros do palco e dali ninguém passou. Cá por mim acho que foi por causa dos aparelhos de audição, pace makers e outras próteses quwe interferiam com a acústica. A minha fiel companheira de viagem afiançava que estavam assustados pela quantidade de elementos da banda que andavam, quer em cima, quer fora do palco, do qual desciam para pedir lume ou para reclamar as grades de cerveja que chegavam às paletes, como se se tratasse de combustível musical, tudo enquanto tocavam. Quanto aos espectadores nem uma versão do Maria Albertina os arrancou da imobilidade própria de quem estava à espera de um bem comportado Rancho Folclórico.

Por fim, a Ana Clara, minha companheira de viagem, a constituir o derradeiro desafio. No caminho para Santiago de Litém ia mais ou menos calma. O problema foi convencê-la a regressar, sobretudo quando viu o harpista a dormir dentro do bugbus enquanto o pessoal arrumava os instrumentos e bebia as últimas minis. Ninguém a convencia que o harpista não estava perdido de bêbado e que dormia exactamente para estar em condições de nos conduzir a casa em total segurança. Não! Desculpa mas nesse autocarro não entro! repetia sem parar.

A ela estou convencido que nem seria preciso arrancar-lhe as unhas para contar tudo, mas na realidade ela e o harpista foram os únicos que fizeram a viagem de regresso completamente acordados. Para mim foi a melhor Festa de Verão de sempre.