A hospitalidade das gentes do Porto

Chegámos já tarde ao Porto, eu e a minha primeira filha ainda do lado de dentro da minha mulher. Vínhamos do casamento do Rui Barros, o rato atómico que jogou com sucesso na Juventus. Pernoitámos na cidade e escolhemos o melhor hotel da Boavista. Cansados e já preparados para dormir, o drama: “Apetece-me um bolo, um bolo com creme.”

Estas ocasiões não acontecem por acaso, são criadas para não sermos ignorados nos serões dedicados ao conta-me como foi. Liguei imediatamente para o room service e percebi que o melhor hotel da Boavista tinha a mesma utilidade, no que diz respeito a bolos, que uma tenda de campismo por debaixo da Ponte da Arrábida.

Ao longo da minha vida, vivi ocasionalmente no Porto, por vezes, longos meses. É, das grandes cidades, a mais hospitaleira do país. Foram algumas as casas em que habitei. O pai do meu amigo João Vantacich, o senhor César, era uma das vítimas. Trocava a sua hospitalidade por discussões sem fim, ele comunista convicto, eu anticomunista em formação, alinhávamos em passeios pela Arca d’Água, acompanhados pelo Pedro, o seu cão, mais o jornal Diário debaixo do braço, nunca percebi se para me provocar.

Ao longo dos anos, fiz amizades que ficaram para a vida e foi a uma dessas que recorri, ex-jogador referência do FC Porto, em cuja casa, nos arredores do Porto, também costumava ficar, mas que naquela altura estava a jogar num clube fora da cidade. Passado um bocado a resposta: “Vais à Petúlia, bates à porta que estão à tua espera.” O café portuense, depois de fechar, reunia ali amigos que ficavam em tertúlia até amanhecer. Passados alguns minutos bati à porta e fui recebido como se fosse da família, enchi uma caixa com variados bolos com creme e regressei, resistindo aos convites para ficar só um bocadinho. O sangue falou mais alto e rapidamente estava no quarto do melhor hotel da Boavista.

A minha mulher dormia, acordei-a de mansinho, de euforia contida, senti-me mesmo um orgulhoso guerreiro mouro quando lhe disse: “Tenho aqui o duchesse“, a resposta veio num rosnar manso: “Acordaste-me!” Insisti e nada, simplesmente um: “Agora já não me apetece”, rodando o corpo, com a minha filha lá dentro, para o outro lado, ignorando-me até à manhã seguinte. Ferido no orgulho, hesitei entre regressar ao café para tertuliar ou ligar a televisão, escolhi a segunda e em silêncio papei dois filmes, mais o conteúdo da caixa.