Começou a Era da distância?

Eram 07.43. A persiana automática abriu-se na hora e na medida certa para que o sol daquela manhã de primavera batesse na cara e o despertasse. Não custou a levantar, o cheiro do café acabado de fazer vinha do balcão da cozinha. Tinha chegado o dia, pensou. Ao mesmo tempo perguntou à assistente pessoal – uma coluna de som carregada de inteligência artificial com a voz da atriz Scarlett Johansson quando era nova – para confirmar a agenda para esse dia. Interrompeu-a quando esta começou a debitar as principais notícias do dia. Não quis saber, naquele dia não.

Enquanto tomava o café e uma torrada preparadas pelo robô da cozinha, pensava onde iria naquele dia de folga. Se ver o mar, se olhar para o verde das árvores ou se simplesmente iria sentar-se num banco de uma praça pelo tempo que as autoridades o permitiam: não mais de dez minutos Tomou um duche tão rápido quanto o programado pela gestão de condomínio. Usar água para tomar banho era um luxo que poucos conseguiam ter naqueles dias.

Aprontou-se para sair, luvas de látex, máscara personalizada, comprada online, fato antibacteriano, que se vestia como os surfistas faziam quando ainda podiam apanhar ondas no mar. Olhou para a data no grande ecrã do relógio de pulso: 20 de abril de 2050. O número redondo fez-lhe lembrar a pandemia, a primeira, de covid-19, de 2020. Recorda-se pouco, tinha 7 anos e os dois meses passados em casa com os pais e o irmão pareceram-lhe divertidos. Ninguém podia esperar o que sucederia quatro anos depois. Uma nova a mais mortífera pandemia tinha matado 50 milhões de pessoas em todo o mundo. E depois, quando ressurgiu novamente e mais forte dez anos depois, em 2034.

O planeta mudou para sempre e começara a era da distância. Passaram 16 anos e todo o planeta, ou quase, vivia agora à distância, pela tecnologia, isolados em casa sozinhos ou em família, em teletrabalho, tele-exercício, teleamor. Uma vez, de 15 em 15 dias, tinha autorização para sair de casa. Hoje era esse dia. E decidiu ir ver o mar para se recordar do último verão que teve junto de outros, há muitos, muitos anos.