A comida do futuro

A conversa começou à mesa com o filho mais velho. E foi sobre comida, claro. Já li algures que os portugueses são dos poucos povos que falam sobre comida quando comem. Talvez seja um exagero, mas que temos uma relação com a comida diferente de muitos povos europeus, isso é um facto.

Ora a conversa decorreu em torno de sabores e pratos que ele, no auge da sua pré-adolescência, não gosta, ou nas suas palavras “detesta”. E afirmava a pés juntos que nunca iria comer os exemplos que vieram à tona da conversa.

Calmamente e sem dar muita importância, desmenti. E dei uma série de exemplos que se passaram na primeira pessoa e que, graças à genética, o mais provável era acontecer-lhe o mesmo daqui a uns anos.

Às tantas a conversa vai dar ao que já se adivinhava: “Um dia vou ser vegetariano”, disse. Não dei importância. Quer dizer, dei, mas disfarcei. E fiquei a pensar no assunto.

Uns dias mais tarde, a surfar por alguns documentários da Netflix, deparei-me com The Game Changers. Nem sei porque o comecei a ver. Pressionei no botão do comando e vi tudo de rajada.

A história é simples: James Wilks, um lutador da modalidade UFC (Ultimate Fighting Championship), começa a pesquisar histórias de outros atletas de alta-competição que são vegetarianos e vegans e que aumentaram a performance e a resistência na sua carreira desportiva. Vai buscar exemplos menos conseguidos, aos gladiadores romanos, e outros melhores a atletas e cientistas da atualidade.

Mas há um fator que salta à vista: não há contraditório. Ninguém ouve o lado que defende a dieta que inclui produtos de origem animal. Como jornalista não consigo deixar de reparar nesse importante “detalhe”.

Mas o documentário é bem feito e faz-nos pensar em abandonar a carne e produtos de origem animal. Ou pelo menos reduzir o seu consumo. Será que o pré-adolescente lá de casa afinal tem razão e o futuro da alimentação passa por sermos vegetarianos (e não vegans). Será que ele estava a indicar-me o futuro?

Quem sabe se daqui a uns largos anos não será a sua vez de, à mesa com os filhos, falar das suas memórias gastronómicas onde a carne já não tem lugar?