A cabeça vazia, como se tivesse apanhado um vírus

Ai, rapaz, com essa cabeça vazia, que vai ser de ti?!”. Às vezes preferia levar a chinelada da praxe que chegava primeiro em forma de ameaça, raramente concretizada, do que a sentença da “cabeça vazia”. Conseguia imaginar a dor da chinelada e a ameaça era suficiente para me acalmar, já a cabeça vazia era algo, para mim, incompreensível. Logo eu, de cabeça tão cheia de ideias e de sonhos sempre a magicar coisas para encher o vazio dos dias e torrar a paciência dos meus pais ou a de quem tivesse a espinhosa missão de cuidar aqui do rapaz.

Um dia construí um camião no quintal, mesmo em frente da porta da cozinha. A minha mãe a convidar-me “anda almoçar” e eu prontamente a estacionar o camião no parado que estava desde a sua construção feita com caixas de madeira da fruta que pedia ao senhor António da mercearia, tinha até um retrovisor feito com um espelho surripiado da caixa de costura da minha mãe, mais umas rodas do carrinho de bebé de uma das minhas irmãs. “Não ouviste?! Anda almoçar!”, já tinha ouvido sim, mas agora o convite chegava na forma de ordem, eu ainda a acabar de fumar o cigarro de chocolate e a estacionar o camião em onomatopeias que me pareciam perfeitas. E que não se pense que era fácil para um garoto ainda na escola primária, estacionar camiões com uma mãe a pressionar, por debaixo da corda da roupa, com as camisas do meu pai, as fraldas de pano das minha irmãs e nunca uma peça de roupa interior.

Noutros dias percorria, com a tampa de um tacho a fazer de volante, o enredo do jardim, fazendo curvas a velocidades loucas, normalmente aos fins-de-semana, acho eu, que nesse tempo os camiões só trabalhavam aos dias de semana e só sei que conduzia um descapotável igual a um que tinha visto num filme do James Bond. Naquele tempo os chefes de família iam almoçar a casa e eu do alto da cabine improvisada com ripas de madeira, uns panos velhos e até um manipulo com que fingia abrir e fechar o vidro, esse sim totalmente imaginário, sentia-me um verdadeiro chefe de família, mesmo que nunca tenha visto o meu pai a estacionar nenhum camião e muito menos de cigarro na boca, fosse de chocolate ou de outra coisa qualquer. Tivemos, isso sim, um descapotável quase sempre de capota posta que por vezes conduzia sentado ao colo do meu pai, ignorando o constante; “Olha para a frente”, fascinado com tudo o que se passava no interior da máquina que eu imaginava manobrar para além do volante.

O que não esperava mesmo era assistir ao esvaziamento da cabeça da minha mãe. Primeiro coisas simples como as chaves ou o tacho ao lume, depois uma data, um rosto, mais datas, datas importantes, o dia de casamento, aniversários dos filhos mais o número de netos a diminuir na memória e nas ausências. Um dia não reconhece uma das filhas, noutro pergunta “Onde estou?” ao sair da casa de banho na casa onde esteve quase sempre nos últimos cinquenta anos, umas vezes recupera a memória como se apanhasse uma coisa qualquer caída no chão, noutras usa uma muleta que aprendeu com um politico; “Façam vocês as contas”.

Nunca se apurou onde é que apanhou a demência e afirmo que apanhou, como se apanha um vírus, primeiro porque a minha mãe sempre foi muito ajuizada e depois não há na história da família outro caso de loucura. Insisto com o psiquiatra que ainda por cima é investigador; “A família é grande, irmãos, primos, quase tudo teimosamente vivo, excepto o pai e as tias e tios que morreram mas quase todos pertinho dos cem anos, mas muito lúcidos”, a tentar convence-lo do engano no diagnóstico. Tinham mau feitio é certo mas nenhum deles ficou assim como a minha mãezinha. A uma das tia-avós faltou-lhe mesmo um mês para o centenário e morreu porque assim resolveu ;“Adoro conversar com as pessoas, mas já não vejo quase nada, mal oiço. Já não ando aqui a fazer nada” e assim foi, uns dias depois morreu. Ela que, já me sabendo jornalista: “sempre é melhor do que essas coisas dos pontapés na bola“, teimosamente insistia em dar-me aulas de português, fazendo história com as histórias do acordo ortográfico de mil nove e troca o passo com uma memória e lucidez invejáveis. Outra tia-avó deu-lhe para publicar livros de poesia já a caminho dos oitenta anos, o meu avô, dobrados os noventa a que somou mais uns trocos, continuava a devorar livros e jornais e espontaneamente a declamar poesia mesmo quando desdentado não se lhe percebia metade do que dizia. Avô que por volta dos quarenta anos teve um AVC por conta da vida boémia que levava, mas que nos cinquenta anos seguintes mesmo a arrastar uma perna, única sequela visível, fazia doze quilómetros diários a pé, mais os exercícios matinais que me obrigava acompanhar se por acaso estava lá em casa sempre com a desculpa “és muito magrinho para o futebol, tens de ganhar corpo”, isto às seis da madrugada, desconfio que com a intenção de me fazer desistir.

Que raio de filho seria eu se pensasse que a minha mãe tinha enlouquecido assim do pé para a mão. Não, foi uma coisa que ela apanhou, sabe-se lá onde; talvez na mercearia do senhor Zacarias, ou na frutaria da D. Artemícia, numa repartição de finanças, talvez numa viagem que fez com o meu pai à Tunisia. Sei lá eu onde, mas que apanhou aquilo, apanhou. Os médicos, que percebem eles destas coisas, teimam que não; “A sua mãe teve múltiplos avc’s e afectou-lhe a zona da memória pelo que diagnóstico é demência vascular”, eu bem insisto; “doutor, olhe que tenho duas primas psiquiatras…” digo ameaçador, mas com indisfarçado orgulho nas primas e também para dar ar de que sou intimo destas coisas das cabeças vazias, a meio caminho da argumentação ainda acrescento numa esperança pateticamente desesperada “…tenho lá em casa o DSM-5” que é a bíblia dos psiquiatras, caríssima, quase cem euros ; ”…e também aquele calhamaço de Psiquiatria da Fundação Gulbenkian”, claro que não disse calhamaço, mas tenho-os mesmo, folheio-os de vez em quando quando quero dar credibilidade às personagens das histórias que invento com pessoas verdadeiras e por vezes para perceber as pessoas que teimam em ser aquilo que fingem ser, sem jeito algum para actores mas com quem me cruzo frequentemente nesta invenção permanente que é viver uns com os outros.

Às vezes fico com alguma esperança, não que a cabeça se encha de novo como se fosse uma bola de futebol rota de tantos pontapés, mas a surpresa da demência não ter evoluído e de continuar mais ou menos na mesma em que estava quando lhe foi feito o diagnóstico, faz-me ficar esperançado, isso sim faz sentido, a minha mãe a recusar-se ficar mais demente do que ficou quando foi apanhada de surpresa pelo virus da demência, deve ter sido quando contava as moedas para dar o troco certo, ou para apanhar uma cebola que tenha caído do cesto de vime que nem eu usava plásticos no meu camião imaginário, nem a minha mãe ia às compras com sacos de plástico.

A minha mãe que tem ainda irmãos vivos e lúcidos mais velhos que ela que faz oitenta e cinco anos não tarda. A memória estacionou nos setenta e seis, mas reconhece sempre a minha voz ao telefone, mesmo a ficar bruta como era o pai dela; “Estou Sim?! Ah, és tu!? O que é que queres?!. Foi-se-lhe a doçura, foi-se-me a mãe. E é sabido que as mães fazem sempre falta, sobretudo quando são fortes e independentes como a minha; “Outro homem?! Estão parvos?! Só conheci o vosso pai e não preciso de homem para coisa nenhuma” . Fica-se a mulher viva, mas a mãe morta, como se habitasse numa moldura animada, ao contrário do meu pai que habita imóvel, sem falar há quase dez anos, em molduras, mas não estranho, já era assim em vivo. Às vezes pergunta por ele e eu que nunca quis tomar-lhe o lugar à cabeceira da mesa, por vezes respondo; ”Mãe, o pai hoje não vem almoçar”.

A memória não brinca, vai-se despedindo lentamente e eu ainda com tanta coisa para lhe perguntar, ficando-me pelo contentamento de me reconhecer sempre a minha voz quando lhe telefono, nunca dizendo quem sou, quando o que queria mesmo era que a minha mãe me convidasse; ”Anda almoçar, hoje fiz pataniscas com arroz de tomate”, e que eu saltasse à pressa do camião estacionado à porta da cozinha, sem sequer fechar o vidro imaginário, sem travar o camião com aquelas onomatopeias horríveis, talvez tropeçasse e esfolasse um joelho que ela depois arranjava com aquele jeitinho de quem quis ser médica, eu a querer ir urgentemente almoçar, sem precisar que ela repetisse “Anda já almoçar!”, até era capaz de deixar definitivamente de fumar aqueles cigarros de chocolate para ir a correr para ela; “mãezinha, abraça-me, abraça-me, antes que a tua memória se despeça de vez de mim, sem avisar”.