A bolonhesa à pai

Não consigo pensar em comida sem primeiro pensar em fome. Era a desculpa preferida quando os meus filhos tentavam antecipar o fim da refeição: “Já não quero mais”, sobretudo os que, com mais olhos do que barriga, enchiam o prato de gula e quando tentavam arrepender-se levavam com o pai tirano deste filme. A resposta vinha pronta: “Há países em que famílias inteiras gostariam de ter esse resto de comida para repartir entre eles.”

Foram eles as cobaias dos meus devaneios gastronómicos, quando resolvi aprender a cozinhar, último capítulo do livro “como ser independente” que as mães da minha geração achavam desnecessário ensinar, como se houvesse uma fábrica inesgotável de donas de casa à espera para servir filhos mimados de outras mães. As primeiras experiências foram as sopas, imagine-se três crianças que para além do kit de origem “sopa não” ainda tinham de gramar um pai a perguntar “E esta, está boa?”, vale que tenho bons filhos, daqueles que detestam contrariar um pai com mau feitio, mas naquelas idades as expressões não enganam ninguém, sobretudo no dia em que um amigo nigeriano me trouxe da terra dele uns piripirisdaqueles à séria e me disse que a mãe o usava sobretudo na sopa. A grande ideia passou a uma quase revolta na primeira colherada, hoje acho que deveria ter sido menos intransigente da defesa da sopa picante que nem a história sobre as coitadinhas das crianças nigerianas os convenceu.

Quando atinei com as sopas, lancei mão aos segundos pratos, mantendo o hábito de fazer interpretações pessoais de pratos que outros inventaram, obsessivamente determinado em dar-lhes uma alimentação saudável e equilibrada. A fastfood onde incluía o frango assado, sem batatas de pacote, entrava na ementa uma vez por semana, normalmente ao domingo, que começava com o pequeno-almoço que nós quisermos, até comerem sopa ao pequeno-almoço e a vergonha que devem ter passado quando o pai (tirano) foi nomeado presidente da associação de pais e quis pôr ordem na ementa escolar. Sem sucesso, diga-se de passagem.

Mas o prato que ganhou fama foi a “bolonhesa à pai” que como podem imaginar nada tinha que ver com a típica bolonhesa. Numa ocasião resolvi testar os primeiros piripiris nascidos no jardim da casa, o episódio da sopa nigeriana passou à história e nem eu consegui ingerir a bolonhesa de tão picante estava. O prato regressou à cozinha, fiz um, raro, pedido de desculpas, logo aproveitado pelos sacaninhas para me extorquirem a encomenda de uma piza.