A arte de bem governar uma casa na ausência dos pais

Os meus pais passavam com frequência fins de semana fora, levavam as minhas irmãs porque eram ainda crianças, e eu tinha a desculpa do futebol para não os acompanhar, pelo que desde a adolescência habituei-me a governar uma casa. Era simples, avisava os amigos, abastecíamos a despensa e de seguida era rezar para que a coscuvilheira da vizinha não bufasse sobre o barulho.

O meu pai não era adepto de queixinhas, só a minha mãe dava nota discreta dos relatos da cusca, e essa certeza veio anos mais tarde. As minhas irmãs tinham chegado de madrugada, a coscuvilheira tinha o inconveniente costume de bater à porta durante a hora de almoço e por ali ficar a desfilar as cusquices do bairro, apesar do desinteresse de todos.

Nesse dia atacou forte: “Sabe, as suas filhas chegaram às 6.14 da manhã”, discretamente irritado pela maldade e pelo pormenor, o meu pai deixou pousar a pergunta entre uma colherada no prato da sopa e o limpar a boca ao guardanapo de pano, olhou-a com aqueles olhos azuis penetrantes e respondeu: “E a senhora nunca dorme?!”, contivemos a gargalhada, ela ficou com cara de tomate de tanto que corou e de rabinho entre as pernas abalou, o silêncio continuou, o meu pai não teceu nenhum comentário às minhas irmãs, mas também não permitia que fizéssemos troça dela.

Continua viva e a intrigar, já pensei agradecer-lhe o espírito pidesco, já que nunca o meu pai me disse fosse o que fosse, até porque, quando regressavam, a casa estava um brinco e nada denunciava o que por ali se tinha passado, exceto uma vez em que chegaram mais cedo a casa.

Nessa noite, espalhados pela casa, estavam para cima de uma vintena de miúdos e miúdas em diversas atividades, calhou-me estar na sala com alguns dos “ocupas”, quando vejo a porta abrir-se, primeiro entraram as minhas irmãs, que correram de imediato para o quarto delas despejando quem lá estava, de seguida a minha mãe, que se enfiou na cozinha, e depois o meu pai, que ficou estacionado no hall de entrada.

Tirou devagarinho o casaco, colocou as chaves na mesa de entrada, cumprimentando quem ia aparecendo vindo do corredor, uns, poucos, passaram para a sala, os outros aproveitaram a porta aberta para se pisgar, todos pensámos o mesmo, sair para a rua era a solução, nesse momento o meu pai olhou-nos e disse: “Deixem-se estar, não se incomodem, façam de conta que ainda não chegámos.” Não fez nenhum comentário sobre o incidente, ou porque a vizinha se chibou, ou por casa estar impecavelmente arrumada. Talvez fosse só o meu pai a ficar orgulhoso pela governação da casa na sua ausência.