Três rodas não são de mais

Esta não é a primeira vez que a Yamaha mostra algo muito semelhante a um Transformer. Toda a gama MT vai buscar inspiração aos famosos robôs alienígenas e, desta vez, contamos com um novo reforço para manter a humanidade em segurança – ou pelo menos aqueles que andam de moto.

Texto de Fernando Marques/ Motor 24

Aceitámos o convite para testar a «bizarra» Niken na sua apresentação em Portugal. Veículos com três rodas não são propriamente uma novidade. Já existem no mercado há vários anos, mas são sobretudo sob a forma de scooter e podem ser conduzidos com carta de automóvel. Uma das coisas que tornam a Niken um «animal» raro no panorama das motos é a forma como o conceito de inclinação em multirrodas funciona, sendo utilizado pela primeira vez numa moto de produção – onde, numa curva, a roda interior vira progressivamente mais do que a exterior. Por outro lado, é necessária carta de condução da categoria A para a poder conduzir.

Estamos perante uma moto com prestações elevadas. Já conhecíamos o tricilíndrico com 847 cc e 115 cv que sempre nos surpreendeu em todos os modelos em que está instalado. Na Niken não é diferente, ainda que esteja um pouco mais «domesticado» para uma melhor resposta em baixa rotação, continua a deixar-nos com um sorriso na cara quando passamos as oito mil rotações por minuto.

Mas, considerações técnicas à parte, porquê duas rodas na frente? Porque sim. A inovação sempre esteve presente na marca nipónica resultando em produtos que chegam frequentemente ao público – mesmo que não sejam um sucesso comercial. Mas, também porque a Yamaha quer que quem ande de moto se divirta com segurança, afinal poucos têm a sorte de ter a habilidade do Valentino Rossi. Circular na estrada numa Niken significa que vamos ser alvo de muitos olhares curiosos, mais ainda se estivermos numa caravana de cinco estranhos veículos que mais parecem robôs vindos do espaço. Os automobilistas aprovam com o polegar, os transeuntes acenam, só os outros motociclistas mostram alguma indiferença. Ultrapassada a estranheza do contacto visual, é tempo de perceber como se comporta.

Parados, quase parece estarmos numa moto normal, sendo denunciada sobretudo pela volumetria da parte frontal, e pelo peso (263 kg), muito dele também concentrado na frente, a sensação não é muito diferente da de uma moto desportiva de aventura. Em movimento, primeiro estranha-se, mas a habituação não tarda. É em curvas lentas e a velocidade baixa que notamos alguma falta de desembaraço por parte da Niken, revelando uma certa resistência às solicitações de mudança de direção. No entanto, a segurança da roda extra parece estar logo lá para apoiar-nos, e o seu comportamento é muito neutro. Rapidamente estamos a rolar a ritmos mais elevados do que é costume em apresentações, e é assim que damos conta de que o nível de confiança garantido pelas duas rodas é real.

Durante os quilómetros que fizemos sentimos sempre uma segurança excecional, rolámos até Torres Vedras por estradas com diversos tipos de piso (algumas em mau estado). A marca diz ser possível uma experiência semelhante ao descer uma pista de neve em esquis ao andar na Niken, mas sentimos que o peso está sempre presente.
As coisas melhoram ao aumentar a velocidade e, de repente, estamos a rodar a um ritmo superior ao esperado sem problema porque a frente aguenta realmente tudo por onde passamos: buracos, empedrado escorregadio, alcatrão em mau estado, nada parece estragar a compostura que as duas rodas de 15 polegadas e a suspensão com quatro pernas proporcionam, sobretudo a curvar. O nível de confiança é realmente desconcertante, facilmente estamos a curvar mais do que seria normal numa moto que não conhecemos (a marca diz serem possíveis ângulos de 45 graus). Esta é uma moto que, certamente, vai ter tantos adeptos como detratores. O seu look Transformer terá um peso determinante. Só o tempo dirá o sucesso da Niken