O futuro dos pneus será sem ar

Só quando sai o ar e o vazio se apodera da matéria é que pensamos neles. Os pneus são uma amálgama cheia de física e química. O próximo passo, dizem, é tirar-lhes o ar.

Texto de Filipe Gil

Não existiam pneus vazios se não houvesse acidentes. Mal existe uma oportunidade e uma ruptura na pressão certa, o ar escapa-se da câmara de ar do pneu para dar lugar ao vazio. Foi precisamente com um acidente que tudo começou em 1839. Um norte-americano com alma de inventor, que, sem querer, deu o primeiro passo para a criação do pneu que retém o are nos faz mover.

Charles Goodyear, de seu nome (e que nada tem que ver com a conhecida marca de pneus), deixou um pedaço de borracha, a que tinha juntado enxofre, em cima de uma salamandra. Com o calor, a borracha moldou-se ao objeto quente, mas sem derreter. Estava achado um novo processo de moldagem a que chamou de vulcanização, e as portas abriram-se para se encher os pneus vazios.

Mais tarde, em 1888, o irlandês Dunlop pegou nesse mesmo processo e conseguiu reter o ar dentro de um invólucro, criando o pneu e toda uma indústria que permitiu chegarmos cada vez mais longe e mais depressa. De lado ficavam as rodas de ferro e de madeira. O início da viagem tem algumas curiosidades históricas. Como por exemplo a origem e o desenvolvimento da Firestone, uma das marcas de pneus mais antigas do mundo.

A Firestone, fundada em 1900, foi uma das primeiras empresas a fazer grandes contratos com construtores automóveis, como a Ford. (Créditos Firestone).

Fundada pelo também norte-americano Harvey Firestone, começou a fazer pneus para tratores e mais tarde para camiões, tudo para ajudar a levar cada vez mais à frente, e com cada vez mais peso, outro dos seus negócios: a indústria do algodão. Inclusivamente, utilizou o algodão para criar a estrutura dos seus pneus.

Outra marca, a Bridgestone, teve o seu crescimento inicial quando a indústria automóvel nipónica começou também a crescer. Shojiro Ishibashi, até então ligado ao calçado – negócio da família -, utilizava a borracha para as solas de sandálias japonesas e foi desafiado para calçar os automóveis do seu país.

Foi sempre assim, o negócio dos pneus foi rolando a par do crescimento da indústria automóvel. Aliás, outra curiosidade é que Harvey Firestone casou uma filha com um membro da família Ford, gigante dos carros nos Estados Unidos.

Dunlop pegou no processo de vulcanização criado, anos mais cedo por Goodyear, e criou novas formas de mobilidade. Os pneus substituiram as rodas de ferro ou madeira. (Fotografia Bridgestone)

Falta de ar

Muitos anos mais tarde, a pedido da Porsche para o seu modelo 959, foi desenvolvido um pneu que continuasse a rolar em caso de furo. A marca alemã queria ver-se livre de peso e do espaço ocupado pelo pneu suplente. A ideia, no entanto, não vingou.

Mais recentemente, e quando a economia do combustível começou a ditar regras de construção de automóveis, foi pedido, pela BMW, um pneu sem jante incorporada, como até aí, e foi então criado um pneu que pudesse rolar e retivesse o ar no seu interior numa distância máxima de 80 quilómetros a uma velocidade máxima de 80 quilómetros por hora. Tornou-se um equipamento base de origem para muitos automóveis atuais.

O futuro do pneu

Atualmente, a indústria, sobretudo marcas como a Michelin e a Bridgestone, tem estado a trabalhar em soluções de pneus sem ar. Os pneus, que podem ser os do futuro, são feitos com estrutura de resina, em que a jante tradicional deixa de existir. São construídos com uma espécie de alvéolos, unindo a jante e a banda de borracha num só elemento. “Deixa de haver uma jante na qual se monta um pneu e passa a haver um produto com uma banda de borracha na extremidade que tenha tração, aderência e capacidade de curvar. E não precisa de ar”,diz André Bettencourt, responsável de marketing da Bridgestone Portugal.

A marca está a desenvolver esta nova tecnologia que irá equipar os veículos elétricos que vão circular na Aldeia Olímpica de Tóquio, em 2020. “Atualmente, só veículos que andem a uma velocidade reduzida conseguem ser equipados com esta tecnologia”, explica. Se é esse o futuro do pneu, não se sabe, e Bettencourt alerta: “Se os automóveis continuarem a andar na estrada, o futuro pode passar por aí, mas e se voarem?” Será, certamente, o fim dos pneus vazios.

Protótipo do pneu do futuro? Serão assim os pneus da Bridgestone que irão acompanhar as viaturas eletricas da aldeia olímpica em 2020 em Tóquio. (Imagem Bridgestone)

Curiosidades

1. Uma estrutura de borracha e metal forma o pneu. A borracha serve para a elasticidade e para prender o ar no seu interior. Num pneu existem mais de 200 materiais diferentes.

2. Os pneus convencionais quando ultrapassam a velocidade superior a 80 quilómetros por hora deixam de ser redondos e ganham uma forma mais oval.

3. O pneu tem cor preta porque na sua fabricação junta-se enxofre e sílica para que tenha resistência e aderência na estrada.


 

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