Alpine: a sustentável leveza de um automóvel desportivo

O novo Alpine recupera o espírito do seu antecessor da década de 1960. Um verdadeiro desportivo de dois lugares cuja virtude não está na potência da motorização, mas sim no chassi e no baixo peso do conjunto.

Texto e Fotografias de Fernando Marques

Vamos a um pouco de história primeiro: A Alpine foi criada em 1954 por um entusiasta do desporto automóvel francês, (Jean Rédélé) que começou a vencer provas com o Renault 4CV, um dos poucos carros franceses construídos a seguir à segunda guerra mundial. As duas marcas tiveram desde então uma ligação muito forte, tendo a Renault adquirido a Alpine na década de 1970.

Os frutos não tardaram a chegar, e em 1973 a marca vence o campeonato do mundo de ralies com vitórias em Monte Carlo e em Portugal, entre outros. Já em 1978, Didier Pironi é um dos pilotos que leva à vitória o sport protótipo A442 na famosa 24 Horas de Le Mans. Infelizmente, o insucesso comercial dos modelos produzidos durante a década de 1985-90 determina o fim da sua produção. O modelo A610 teria ainda destaque nas mãos do controverso Jeremy Clarkson no conhecido programa Top Gear em 1992. Clarkson ainda voltaria a usar um A610 no seu DVD, “Supercar Showdown” de 2007, acabando por destruí-lo contra uma barreira de cimento, não sem antes o criticar, no seu estilo inconfundível.

São cerca de 1100 quilos, conseguidos à custa da utilização de muito alumínio.

O novo Alpine recupera o espírito do seu antecessor da década de 1960. É um verdadeiro desportivo de dois lugares com motor central traseiro, e cuja virtude não está na potência da motorização, mas sim no fenomenal chassi, e no baixo peso do conjunto. São cerca de 1100 quilos, conseguidos à custa da utilização de muito alumínio. Uma grande parte do peso está no eixo traseiro, por isso tem uma frente muito leve e um comportamento muito caraterístico, semelhante a algo proposto ali para os lados de Estugarda, na Alemanha (Porsche Cayman?).

O esforço para a redução de peso torna-se quase obsessivo quando os engenheiros optam por eliminar as pinças extra nas rodas traseiras para o travão elétrico de estacionamento, que passa a funcionar no sistema de travagem principal. Só isto poupa 2,5 quilos. Outro exemplo são os bancos da marca Sabelt, que pesam metade dos Recaro utilizados no Renault Megane RS, e poderíamos continuar a dar exemplos pois a lista continua. O pequeno motor com 1800 cc sobrealimentado, não deixa ninguém imediatamente eufórico. Debita uns “modestos” 252 cv, menos 28 cv do que tem o Megane RS com a mesma motorização.

No entanto, revela-se suficiente para uma verdadeira experiência de condução em estrada de montanha, a fazer lembrar o antigo rali TAP Portugal ao passar pela serra de Sintra. Quando conduzido de forma mais efusiva, o Alpine parece que vai “saltitando” de curva em curva, com uma agilidade desconcertante. Por ser tão leve quase não ouvimos o chiar dos pneus a avisar-nos do limite da aderência, por isso é preciso ter cuidado com a frente e também com a traseira, muito propensa a “descolar”, especialmente no modo de condução track com o controlo de estabilidade desligado.

É possível viajar com o A110, desde que se seja frugal na bagagem. Os 100 litros da bagageira na frente dão à justa para duas malas de cabine no formato mais pequeno, e na traseira há um pequeno compartimento com 96 litros onde cabem mais duas pequenas mochilas. O problema é que por estar mesmo colado ao motor, este espaço aquece muito, por isso há que ter cuidado com o que se vai lá guardar. No interior a falta de espaço mantém-se, onde não existe um guarda luvas mas há uma pequena bolsa de pele no painel traseiro entre os bancos, para a carteira, chaves e pouco mais, já o smartphone pode ser colocado num pequeno espaço na consola central, que parece ter sido criado para esse propósito.

Falta de espaço à parte, no interior é percetível o investimento em materiais de qualidade como é o caso dos bancos, volante, o design da consola central e o sistema de som da marca de alta fidelidade Focal, também ela francesa e com uma vasta experiência em som para o mercado automóvel. O sistema de infoentretenimento, para além das funcionalidades já habituais, disponibiliza a função de telemetria, que permite gravar todos os dados do desempenho do Alpine. Muito útil para quem gosta de ir fazer track days em pista [dias de teste em pista].

O A110 é um automóvel desportivo que proporciona uma experiência de condução diferente da dos seus concorrentes diretos, mais pura e muito gratificante, sem sacrificar o conforto necessário para uma utilização diária. Com menos potência? Sim. Mas isso não importa porque a boa notícia é que a marca lançou a versão 110S, mais potente (292 cv) e que promete um comportamento ainda mais desafiante.

Ficha técnica:
Motor:
4 cil. em linha turbo
Capacidade: 1.8 litros
Posição: central traseira
Potência: 252 cv
Binário: 320 Nm
Transmissão: traseira
Caixa de velocidades: 7 vel. EDC
Peso: 1103kg
Vel. máxima: 250 km/h
Aceleração: 4,5 segundos
Equipamento: Bancos Sabelt, Sistema de telemetria Infotainment, Acabamentos em carbono, Jantes 18 polegadas, Cruise-control, Ar-condicionado automático, Airbags, Cruise control adaptativo, Sistema de câmaras 360º.