Vinho do Porto. O melhor vinho do mundo

A excelência do vinho do Porto sente-se e pressente-se pelo mundo fora e é impossível definir-lhe fronteiras ou limites. Desde o sentido de descoberta dos diferentes estilos até ao fascínio da prova de uma nova declaração vintageou de colheitas com mais de duzentos anos, tudo está a favor do vinho que encantou o barão de Forrester e D. Antónia Adelaide Ferreira. Chegou a nossa hora de dar a vida por essa grande bebida. Um ensaio de Fernando Melo*.

O vinho do Porto é o melhor vinho do mundo. Afirmação complexa que precisa de sustentação e que pela sumptuosidade leva quase todos a desconfiar da sua veracidade. Aqui tem no entanto a prova de que é inteiramente verdade. Alinhe 40 vinhos de uma mesma colheita e de uma mesma região, e prove-os às cegas. St-Emilion (França), Barolo (Itália), Ribera del Duero (Espanha) e Sonoma County (EUA), por exemplo. Em cada prova que fizer, vai achar excelentes três ou quatro amostras, 15 muito boas e em quase todas as restantes não vai ver grande virtude. Acredite que isto acontece mesmo nos supervinhos do mundo, quando se compara às cegas. Há muitos vinhos de Bordéus que estão longe de agradar a todos, e, para muitos, são mesmo de rejeitar.

Agora alinhe 40 amostras de um ano recente de Porto Vintage -os 2017 estão ao rubro, por exemplo – e repita o procedimento de prova às cegas. Vinte serão excecionais, 12 muito bons e os restantes apenas bons. Mas não vai encontrar nem um vinho mau nesses 40. Este tipo de prova só mesmo o vinho do Porto consegue proporcionar, e por isso se distingue de todas as denominações de origem vínicas do mundo inteiro.

E por isso se pode e deve dizer que o vinho do Porto é o melhor vinho do mundo. Quod erat demonstradum (QED), como se diz na matemática quando se finaliza a demonstração de um teorema. E note-se que estamos a tratar de um vinho ruby, ou seja, que envelhece em garrafa, em ambiente redutivo, com muito pouca exposição ao oxigénio; a cor de resto assim o atesta. Quando passamos para os tawnies, que ao contrário dos ruby evoluem em ambiente oxidativo, em grandes balseiros, perdendo a cor e alourando, que é o que tawny quer dizer, a experiência é normalmente quintessencial.

Os mercados anglo-saxónicos preferem os vintages, e uma garrafa de um ano clássico pode valer uma pequena fortuna em leilão. Seja como for, a valorização em dez anos é pelo menos o dobro do valor inicial. Há que estar atento ao mercado e saber comprar na altura certa. Já lá vai o tempo em que a Inglaterra e os EUA definiam, por assim dizer, a bolsa de valores do vinho do Porto no mundo. Hong Kong criou condições excecionais e fiabilidade a toda a prova, e acabou por conseguir fixar naquele território o ponto de gravitação do mundo do vinho. Bastantes vinhos do Porto, mas a importância de França é avassaladora.

Aliás, entrar numa boa loja de vinhos em Hong Kong é literalmente como entrar na gruta de Aladino. Uma boa garrafa é um ativo financeiro valioso que quem domina os meandros do negócio vai trocando por outras e assim vai consolidando património. É aqui que o vinho do Porto volta a marcar pontos, pela incrível durabilidade e consistência que oferece. Temos de resto vindo a assistir ao lançamento de tawnies em embalagens exóticas, com vinhos de mais de cem anos que dormiam nas caves de produtores muitas vezes anónimos de vinho fino do Douro, o nome que se dá aos vinhos do Porto do produtor. Faz parte do imaginário popular comparar alguém que envelhece bem como o vinho do Porto, dizendo que melhora sempre com a idade. Esses super vinhos estão a ser colocados no mercado a valores jamais praticados, e o universo do luxo – plêiade que o vinho do Porto necessariamente integra – está a absorver sem hesitação.

Estamos melhor do que estávamos, em termos da perceção de valor e predisposição para pagar. Os valores alcançados para os vinhos do Porto são como o aumento da flecha de um túnel rodoviário; passam mais veículos, e mais velozes do que outrora. A compressão do preço provocada pelas grandes distribuidoras mundiais, juntamente com a descida geral das exportações de vinho do Porto, precisa desse estímulo como de pão para a boca. O mercado interno tem mostrado sinais de vitalidade e vontade de consumir, mas precisa do sentido de sofisticação e orgulho no produto nacional para que os portugueses passem a consumir mais e melhor vinho do Porto. Ainda não estamos no zénite, e não podemos limitar-nos a apontar o dedo às instituições da tutela, somos nós amantes do vinho do Porto que temos de o puxar mais ao peito. Porque já sabemos que é melhor vinho do mundo.

*Crítico de vinhos e comida na revista Evasões. Engenheiro físico pelo IST, dedica-se há 30 anos ao estudo das raízes e dos patrimónios gastronómicos do país, percorrendo ao pormenor o território, nas suas mesas, vinhas e adegas. Dá formação em Enogastronomia nas escolas de hotelaria nacionais.