Tesouras. Uma história com 3500 anos.

Aparar tecidos e cabelo. Os ramos das árvores. A lã das ovelhas. Linhas de costura, papéis, até um dedo de quem não tiver cuidado a manuseá-las. Se há instrumento capaz de separar este mundo e o outro é mesmo a tesoura.

Texto de Ana Pago

Pegamos numa tesoura para cortar legumes, um peito de frango, as unhas e nem nos lembramos do tempo que deve ter demorado até se conseguir aquele objeto pequeno, ergonómico, utilitário, com tantas vidas no passado antes de podermos dar-nos ao luxo de a ter espalhada por múltiplas gavetas, em várias divisões da casa. “Hoje, nas escolas, assistimos a uma ambivalência na introdução de tarefas com tesouras por acarretarem alguns riscos, mas esta cautela torna-se um excesso de zelo prejudicial ao desenvolvimento das crianças”, afirma o terapeuta ocupacional Marco Leão, para quem recortar tiras de papel ou minhocas de plasticina para começar “é de extrema importância para o desenvolvimento motor e académico dos mais novos”.

Em 1761, o inglês Robert Hinchliffe produzia o primeira tesoura de aço endurecido e polido, já com os arcos destinados a acomodar os dedos do utilizador.

Posto isto, estima-se que as primeiras tesouras tenham surgido no antigo Egito por volta de 1500 a.C., há mais de 3500 anos, ainda longe de se chamarem tesouras ou parecerem as que conhecemos.

À época, eram peças únicas de bronze, sem articulação, com duas lâminas unidas numa extremidade que se mantinham afastadas até alguém as pressionar. Apesar do corte imperfeito, o modelo difundiu-se na Europa e na Ásia e foi o mais popular até à Idade Média. Pelo caminho (em 100 d.C.), os romanos inventavam uma tesoura cruzada, de bronze ou de ferro, com lâminas assimétricas a deslizar uma sobre a outra com ligação no eixo, permitindo cortar cabelo, tecidos, peles e o que mais um homem quisesse, desde que a afiasse frequentemente.

Tesouras encontradas na Coreia e na China. Contudo, estima-se que as primeiras surgiram no antigo Egipto, por volta de 1500 a.C.

Chineses, coreanos e japoneses apropriaram-se destas tesouras romanas (e das egípcias antes delas), apurando-as com o requinte de quem sabe forjar espadas de samurais – não é à toa que as melhores tesouras do mestre Yasuhiro Hirakawa, um dos poucos especialistas no ativo, podem valer mais de 27 mil euros. Também o cabeleireiro japonês Lauro Sakamoto, criador de um corte inspirado na poda das rosas, não descansou até ter na mão uma tesoura tripla que imaginou de raiz, após uma década a lastimar a falha no mercado. Mas isso é adiantarmo-nos demasiado na história.

No ano seguinte [1761], o inglês Robert Hinchliffe produzia a primeira tesoura de aço endurecido e polido, já com os arcos destinados a acomodar os dedos do utilizador, razão por que é chamado o pai da tesoura moderna

Em 1760, a William Whiteley & Sons de Sheffield, Reino Unido, tornava-se a primeira empresa ocidental de fabrico regular, facilitando a vida a muita gente. No ano seguinte, o inglês Robert Hinchliffe produzia a primeira tesoura de aço endurecido e polido, já com os arcos destinados a acomodar os dedos do utilizador, razão por que é chamado o pai da tesoura moderna (e não Leonardo da Vinci, que se destacou na matemática, na engenharia, na aviação, arquitetura e numa série de outros áreas, mas não a inventar tesouras, como muitos pensam). O corte foi saindo melhor e mais democrático do que nunca, até hoje. Seja a talhar carpetes ou em intervenções cirúrgicas.

Na China e na Coreia foi-se aperfeiçoando a arte de fabricar tesouras, apurando-as com o requinte de quem sabe forjar espadas de samurais.

Curiosamente, também o jogo do pedra-papel-tesoura cumpre a função de separar algo – neste caso, duas ou mais pessoas de eventuais conflitos, resolvendo-os a brincar como fariam as crianças. De origem tão japonesa como as tesouras de Hirakawa ou Sakamoto, o jankenpon (nome oficial da brincadeira) assenta na regra de que o papel (mão aberta) ganha sempre à pedra porque a embrulha; a tesoura (dedos indicador e médio esticados em V) ganha ao papel porque o corta; e a pedra (o punho fechado) ganha à tesoura porque a parte. E foi assim que no duelo da última jornada entre os clubes Vasco da Gama e Chapecoense, em dezembro de 2019 no Brasil, três jogadores vascaínos decidiram com o pedra-papel-tesoura quem marcava um livre direto.

O que nos deixa com uma última questão por responder neste artigo: porque é que a eficácia de uma tesoura – como de resto quase tudo na vida – depende essencialmente do jeito e não da potência de quem corta com ela? Na verdade, tesouras são alavancas interfixas em que o fulcro se encontra entre a força potente (a mão) e a força resistente (o material a ser cortado). Um aperto diminuto numa zona tão pequena em que mal cabem os dedos gera uma pressão considerável sobre o objeto, que acaba trinchado em três tempos. Todos os grandes cortes deste mundo pudessem ser resolvidos à tesourada.