Ratos gigantes no Convento de Mafra. Mito ou realidade?

Existem, correm nos recantos sombrios dos esgotos e por vezes assustam alguns visitantes desprevenidos, mas não são mutantes, pelados ou cegos. Não têm fome de carne, nem sequer são aos milhares. São apenas ratos que vivem no Convento de Mafra.

Texto de Ana Pago

Mafra tornou-se maior do que a imaginação mal José Saramago publicou o seu Memorial do Convento: “El-rei [D. João V] foi a Mafra escolher o sítio onde há de ser levantado o convento. Ficará neste alto a que chamam da Vela, daqui se vê o mar, correm águas abundantes e dulcíssimas para o futuro pomar e horta, que não hão de os franciscanos de cá ser menos que os cistercienses de Alcobaça em primores de cultivo.” O facto de nunca lhe ter ocorrido juntar ratos gigantes à narrativa só faz que seja maior o choque de ouvir contar agora as histórias destes monstros que habitam nos subterrâneos do Convento de Mafra. Ou podiam habitar, se existissem.

“Em primeiro lugar, devemos lembrar-nos de que os subterrâneos de Mafra são esgotos e canos de despejo, pelo que têm ratos como qualquer outro esgoto em qualquer cidade”, concede Isabel Yglesias de Oliveira, responsável pela comunicação do Palácio Nacional de Mafra. A fama dos ratos surgiu nos anos 1960/70, quando a Escola Prática de Infantaria – então instalada na parte conventual do edifício, usada pela instituição militar desde a época da monarquia – acolhia mais de três mil militares, cujos restos alimentares eram despejados nos esgotos e atraíam a bicharada.

Entre os boatos, fala-se ainda num militar morto pelos ratos ao cair nos esgotos, mas o episódio foi distorcido. O infeliz morreu da queda considerável, não devorado.

“Boatos partem muitas vezes de algo verdadeiro, apesar de a vontade de sensacionalismo levar rapidamente a que sejam ampliados”, constata a técnica. Como se não bastassem as sobras em grandes quantidades, os militares longe de casa traziam ainda queijos, enchidos e pão enviados pelas famílias, que guardavam depois nas camaratas. Resultado: por vezes havia ratos dentro do quartel, mas nunca na parte do museu. “Hoje, quando se visita os esgotos, apenas surgem alguns debaixo da zona das cozinhas do quartel ou das dos restaurantes fronteiros ao edifício, mas nem são gigantes nem atacam as pessoas”, assegura a relações-públicas do Palácio Nacional.

“Claro que é muito mais apelativo dizer que no Palácio Nacional de Mafra existem quatro pisos subterrâneos cheios de ratos gigantes e assustadores, e que seria necessário evacuar toda a vila para dar cabo deles”, concorda a técnica superior.

Isto porque, segundo os relatos difundidos na internet sem qualquer tipo de controlo, os ratos de Mafra seriam pelados, albinos, vorazes, bem maiores do que coelhos (entre 50 e 70 centímetros), correndo pelos quatro andares de subterrâneos com olhos vermelhos (também há quem jure a pés juntos que são cegos). Não fosse o pormenor de terem dentes que fazem picado de tudo o que apanham – incluindo carne humana se ninguém os alimentar com cadáveres de cães e gatos – e podiam ser uma espécie de Tartarugas Ninja em versão felpuda. Ou talvez não, a avaliar pelas histórias que avisam os incautos a munir-se de um lança-chamas se por acaso quiserem descer ao submundo do Convento de Mafra, não vão os roedores chamar-lhes um figo.

“Circulam alguns desenhos dos esgotos que parecem sugerir haver quatro pisos subterrâneos, mas é tudo ilusão de ótica”, explica Isabel Yglesias de Oliveira, ciente dos exageros do passa-a-palavra. Na realidade, os esgotos do edifício resumem-se a um andar debaixo de terra: o que os desenhos mostram é o piso subterrâneo e os três pisos normais. “Claro que é muito mais apelativo dizer que no Palácio Nacional de Mafra existem quatro pisos subterrâneos cheios de ratos gigantes e assustadores, e que seria necessário evacuar toda a vila para dar cabo deles”, concorda a técnica superior.

O tema é de tal forma tentador que acabou descrito pela jornalista Susana André no livro Mitos Urbanos e Boatos, a par de outras inverdades: “As consequências de uma história falsa podem ser trágicas. Tudo depende do impacto do boato, dos danos que causa”, aponta a autora.

No que toca aos ratos, o mito alimenta-se de uma repulsa coletiva nascida da ideia de pragas, sujidade e doenças graves (embora afinal a peste negra possa ser largamente atribuída a piolhos e a pulgas humanos, mais do que às dos ratos).

“Boatos expressam as necessidades emocionais da comunidade, do mesmo modo que sonhos satisfazem as necessidades do indivíduo”, defendia o psicólogo americano Robert H. Knapp, especialista na matéria. Para o professor de Direito Cass Sunstein, também entendido na dinâmica dos rumores, estes são tão antigos como a história da humanidade, encontrando maior adesão em pessoas ou em grupos dispostos a acreditar no que consideram ser compatível com os seus próprios interesses, anseios ou crenças. Quanto à cereja no topo, é a atração que todos sentimos por criaturas horrendas, sobretudo se gerarem em nós um medo controlado, sem haver perigo real por trás.

Certo é que quem conta um conto acrescenta um ponto – ou vários

Além do equívoco generalizado sobre o que é subterrâneo no Convento de Mafra (somente os coletores de esgotos), a profundidade dos alicerces pouco passa dos cinco metros, segundo o arquiteto Lino de Carvalho, o que por si só inviabilizaria quaisquer hordas de ratazanas mutantes. Fala-se ainda num militar morto pelos ratos ao cair nos esgotos, mas o episódio foi distorcido: em 1971, o militar caiu, de facto, do terraço lá para dentro, ao caçar pombos com um colega que tardou a comunicar o ocorrido para não ser castigado, e entretanto os ratos mordiscaram o corpo. Seja como for, o infeliz morreu da queda considerável, não devorado.

O que nos deixa unicamente com os roedores expectáveis num conjunto arquitetónico monumental como é o Palácio Nacional de Mafra, composto pelo Paço Real, pela Basílica e pelo Convento: nem mais nem maiores. A não ser que alguém os confunda com os morcegos da Biblioteca do Palácio – igualmente célebres por apanharem os insetos que danificam os milhares de livros raros do acervo – e venha para a rua bradar que os ratos do Convento de Mafra têm asas.

“São talvez uma dúzia no edifício todo e existem desde sempre, não foram introduzidos no nosso tempo”, conta a relações-públicas Isabel Yglesias de Oliveira. Ninguém os alimenta, controla ou interfere no processo: “Os morcegos habitam atrás das estantes e entram e saem quando querem pelas frestas das janelas, uma vez que são muito pequenos”, acrescenta a técnica. Tanto quanto sabemos, não estão livres de que um dia lhes venham a chamar vorazes, cegos, caçadores perigosos de insetos e o diabo a quatro. Porém, dificilmente se dirá deles que são gigantes como os ratos do Convento de Mafra.