Rato. O apelido que tem deixado marca na vida portuguesa

O Palácio Ratton, construído por Jérome Ratton, industrial que introduziu a máquina a vapor em Portugal.

Há apelidos mais fáceis de usar. De alcunha a nome de família, os ratos podem não ter brasão, mas há muito que deixaram a sua marca na vida portuguesa.

Texto de Maria João Martins

Subterrâneos como senhores das trevas, esquivos como condenados à fuga perpétua e, no entanto, astutos como SpeedyGonzález: assim aparecem os ratos no imaginário popular. Por isso, se damos a alguém o nome de rato, o que estamos verdadeiramente a dizer?

No princípio foi a alcunha: pejorativa e cáustica como ácido. Na segunda metade do século XIX, Lisboa deu o nome de “rata das igrejas” a Jerónima da Conceição, que, ao longo de anos, se mostrou exímia no furto de caixas de esmolas e crentes desprevenidos. Acabaria presa e condenada ao degredo em Angola, onde morreu.

Muitos outros exemplos poderiam ser dados, em Portugal e no estrangeiro: Luís Gomes de Sá e Meneses, dito o Rato, que pode ter inspirado o nome daquele largo lisboeta, António Simões, campeão europeu ao serviço do Benfica, apelidado de Rato Mickey pela imprensa e pelos fãs, Niki Lauda, a quem o rival nas pistas de Formula 1, James Hunt, também atribuiu esse dúbio qualificativo…

Tudo dependia da vontade do notário ou do padre. Numa geração era fulano de tal, dito o Rato, que levava uma criança à pia de batismo e, na seguinte, já a alcunha se transformara em apelido

Da alcunha, muitas vezes repetida pela comunidade, à sua fixação nos registos oficiais às vezes distava um passo. Tudo dependia da vontade do notário ou do padre. Numa geração era fulano de tal, dito o Rato, que levava uma criança à pia de batismo e, na seguinte, já a alcunha se transformara em apelido. O fenómeno remonta à Idade Média.

Em 1482, o rei D. João II nomeia um tal João Rato juiz das sisas de Alhandra. Menos de meio século depois, o seu sucessor, D. Manuel I, concedia licença a um genovês instalado em Lisboa para exercer “a arte e a ciência da cirurgia no reino”. Chamava-se Estêvão Rato, o que decerto corresponde a uma tradução muito livre do nome italiano. Segundo o site britânico Forebears , é em Portugal que se verifica maior incidência deste apelido, logo seguido… não do Brasil ou de outro país lusófono, mas da Indonésia, das Filipinas, da Índia e, finalmente, de França. Malhas que o império tece. E a emigração também.

Mas se dificilmente encontraremos um rato com brasão, tal não impediu vários de prosperarem e de criarem uma linhagem no mundo empresarial. O francês Jácome Ratton (apelido que corresponde à corruptela “ratou” ou o que fura por todo o lado como um ratinho, muito usado no midi francês) chegou a Lisboa ainda criança, tornando-se, anos depois, um dos melhores intérpretes da política de fomento pombalino. Entre as várias indústrias que introduziu em Portugal, destaca-se a fábrica de fiação de algodão em Tomar que, em 1789, trouxe para no nosso país essa novidade revolucionária que era a máquina a vapor. Apesar dos dissabores sofridos quando das invasões francesas, a família ficou em Portugal, obteve do rei vários favores e mandou construir, na Rua do Século, o palácio onde hoje está sediado o Tribunal Constitucional.

Também à sagacidade nos negócios do patriarca deve a família Moreira Rato a sua notoriedade na sociedade portuguesa. Tudo terá começado com António, nascido em Sassoeiros (Carcavelos) em 1818, que, em meados do século XIX, criou um autêntico império no âmbito da cantaria artística e na produção de cimentos, com a fundação da Cimento Tejo, em Alhandra.

O jazigo do Visconde de Valmor, um dos mais impressionantes monumentos funerários da época, construído pelo patriarca da família Moreira Rato.

Com sentido de oportunidade invulgar, Moreira Rato “cavalgou” a onda de fomento do reinado de Dona Maria II e participou em algumas das grandes obras de então, quer em prédios de arrendamento construídos sobretudo em Lisboa e Porto quer em edifícios públicos como os palácios de São Bento e da Ajuda, o Mosteiro da Batalha ou a Estação de Santa Apolónia. Com outra grande oficina de cantaria de Lisboa, a de Pedro Pardal Monteiro, disputou a intervenção nos mais impressionantes monumentos funerários construídos ao gosto romântico da época. Para ira do seu rival, seria Moreira Rato a ornamentar o jazigo do visconde de Valmor, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa, hoje considerado uma obra-prima do género.

Nesses anos em que a burguesia sonhava eternizar-se no mármore, outro Moreira Rato viria a destacar-se, mas na escultura. Inicialmente saudado por Ramalho Ortigão (mas considerado demasiado académico pelo historiador de arte José-Augusto França), José Moreira Rato Jr. trabalhou sobretudo para empreitadas públicas, sendo de sua autoria alguns dos retratos de médicos famosos presentes na fachada da Escola Médica do Campo Santana.

Em 1910, a revolução republicana surpreendeu-o a esculpir o modelo em barro do busto de D. Manuel II, encomendado pela Câmara dos Deputados. Expedito e decidido a não perder a encomenda, o artista propôs ao governo provisório transformar o barro e o mármore de Carrara que já encomendara numa estátua da República. Tal ligeireza custar-lhe-ia cara. Para além de declinar a proposta, o governo abriria um processo de averiguações sobre a existência de objetos pessoais do rei deposto no ateliê do escultor.