Quando o Natal não tinha excessos de consumo

Na Baixa de Lisboa, os hábitos de consumo na época de Natal foram-se alterando nos últimos 40 anos, sobretudo com a “febre” de dias especiais como o Black Friday.

O Natal é celebrado, com maior ou menor solenidade, pelo menos, desde a Alta Idade Média. A mesa melhorava, os pobres podiam ser contemplados com um bodo pelo senhor do castelo, mas a festa era essencialmente religiosa e passava-se sobretudo em igrejas e mosteiros.

Texto de Maria João Martins

O Natal sem presentes nem parece Natal”, queixou-se Jo, a mais talentosa das quatro irmãs March, eternizada pela muito popular novela juvenil de Louisa May Alcott, Mulherzinhas. Em plena Guerra Civil Americana, o espírito (e a bolsa) do comum dos cidadãos não estava propriamente com ânimo para festividades. No entanto, nessa década de 1860, a uma jovem da classe média já parecia estranho que o Natal pudesse representar uma ida à missa, mas não uma bota recheada, sobre a lareira.

Porque associamos há tanto tempo o Natal a presentes e, mais recentemente, a consumo desenfreado de comida, bebida e bens de todo o género, para miúdos e graúdos? As opiniões dos historiadores dividem-se. A “culpa” pode ser dos Reis Magos que levaram ouro, incenso e mirra à criança nascida na manjedoura, mas também da generosidade proverbial de São Nicolau para com os mais pequenos ou ainda dos romanos, a quem o cristianismo, como foi sua prática corrente, poderá ter “copiado” o festival do solstício de inverno, também conhecido por Saturnalia.

Pai Natal, Menino Jesus, Reis Magos…

O “protagonista” do ofertório natalício varia com os países e também com as épocas. Em Espanha, as crianças dirigem os seus pedidos aos Reis Magos e não ao Pai Natal, considerado um americanismo no país vizinho. Ao contrário dos adultos, também recebem as prendas na Noite de Reis, festividade que em Portugal perdeu há muito a sua tradicional importância. Mas, mesmo no nosso país, nem sempre o Pai Natal foi o “rei da festa”. Ilda Gomes, gerente de uma loja pertencente a uma grande cadeia especializada em brinquedos, trabalhou sempre neste setor. Recorda também como o Pai Natal suplantou, no imaginário infantil, o Menino Jesus, a quem as crianças portuguesas dirigiam as suas preces. “Há 50 anos, quando eu própria era menina, diziam-me que o Pai Natal era ‘apenas’ o ajudante. Como o Menino Jesus era pequenino, ele dava uma mãozinha…”

Hoje, as próprias crianças vão às lojas com os pais mostrar o que querem e, quase sempre, compra-se na hora. Aquela aura, aquela expectativa perdeu-se.”

Antes de se “mudar” para um centro comercial de Lisboa, Ilda passou por várias lojas da Baixa e nota grandes diferenças de comportamento de consumidores grandes e pequenos: “Há 40 anos, quando comecei a trabalhar nesta área, havia mais mistério e menos exigências. As crianças ‘namoravam’ os brinquedos na montra durante todo o mês e, se fosse o caso, os pais e avós iam sozinhos à loja comprar a boneca ou a bicicleta desejadas. Se o dinheiro não chegasse, optavam por brinquedos mais económicos. Hoje, as próprias crianças vão às lojas com os pais mostrar o que querem e, quase sempre, compra-se na hora. Aquela aura, aquela expectativa perdeu-se. Hoje, as crianças são muito mais exigentes e caprichosas. Não sabem esperar e também ninguém parece ter paciência para lhes ensinar.”

Mas como se passou da celebração do nascimento de Jesus às black fridays, às cyber weeks e a toneladas de lixo nas ruas nos dias imediatos à festa? Quem teve a ideia de associar o Natal a um pico de consumismo?

Há quem diga que foram os romanos, esses hedonistas. Um século antes de Cristo já eles assinalavam o princípio do inverno com a troca de pequenas prendas como bonecas, velas e gaiolas com pássaros. Os ricos eram convidados a mostrar-se especialmente generosos com os pobres, nomeadamente com os seus criados e escravos, a quem deviam oferecer roupa nova e quente. A esses dias, o poeta Gaius Valerius Catullus (c. 87 a.C.-c.54 a.C.) chamava mesmo a “melhor época do ano”.

Assinalado como a segunda maior festividade do cristianismo (a seguir à Páscoa), o Natal é celebrado, com maior ou menor solenidade, pelo menos, desde a Alta Idade Média. A mesa melhorava, os pobres podiam ser contemplados com um bodo pelo senhor do castelo, mas a festa era essencialmente religiosa e passava-se sobretudo em igrejas e mosteiros. A tradição da troca de prendas parece ter começado – et pour cause – com a Revolução Industrial e nos países mais industrializados da Europa, Inglaterra e Alemanha. Só a partir daí terá avançado para o resto do continente.

Numa carta de dezembro de 1821, a escritora britânica Marianne Baillie, então residente em Portugal, comentava à mãe a sua perplexidade ante a quase indiferença com que os lisboetas passavam a quadra. “O Natal não parece ser celebrado com muita alegria por aqui”, refere numa das 65 cartas endereçadas à sua mãe, compiladas no livro Lisbon in the Years 1821, 1822 and 1823. Tudo se resumira a “melancólicas e discordantes trombetas” tocadas por orquestras que iam de casa em casa desejar Boas Festas em troca de uma gratificação pecuniária.

Em 1858, o Natal na corte da rainha Vitória de Inglaterra, na gravura acompanhada dos filhos e do príncipe Alberto de Saxe-Coburgo, que era entusiasta de grandes árvores de Natal.

Não era a isso que Marianne estava habituada. Por essa época, no seu país de origem, já a rainha Charlotte, a alemã que se casara com George III, fizera montar uma autêntica árvore de Natal nos seus aposentos no Castelo de Windsor. Fazia assim jus à tradição que atribui ao também alemão Martinho Lutero a “invenção” do pinheiro ornamentado para inspirar, nos fiéis, a adoração pelo céu estrelado numa noite de inverno. Anos mais tarde, a importância do Natal como festa religiosa e ritual familiar seria reforçada por outro príncipe compatriota de Charlotte, Alberto de Saxe-Coburgo. Além de entusiasta de grandes árvores de Natal, o marido da rainha Vitória incentivava a distribuição de presentes, em especial às crianças. O comércio rejubilou. Quando, em 1843, Charles Dickens publicou Conto de Natal, a quadra já estava consagrada no imaginário de milhões. Mr.Scrooge, o avarento que não acreditava na magia e era assombrado pelos fantasmas dos Natais passados, tornar-se-ia um dos mais detestados vilões da história da literatura. Traduzido para dezenas de línguas, Conto de Natal estará provavelmente entre os livros mais adaptados ao cinema, seja de animação ou em imagem real.

Da Europa aos Estados Unidos, a exportação do Natal como “paraíso” do comércio pouco demorou. Em poucos anos, o bom velho São Nicolau, com o seu fato vermelho, transformar-se-ia no “funcionário” mais mediático e rentável da Coca-Cola.

Época de solidariedade

Mas o consumismo natalício não tem de ser uma fatalidade sazonal. Hoje residente nos Açores, o escritor Henrique Levy já viveu o Natal em vários continentes e guarda memórias gentis de todas essas experiências. Recorda, antes de mais, o Natal da sua infância, em Moçambique: “No Dia de Natal, abríamos as prendas, mas tínhamos de escolher só uma. As outras seriam depois distribuídas pelas crianças pobres da vizinhança, que eram muitas. Claro que éramos miúdos e isto nos custava um bocado, porque às vezes víamos aqueles carrinhos e pistas de corridas e também os queríamos para nós, mas acabou por ser uma boa aprendizagem.” Na casa dos pais, Henrique aprendeu a importância da solidariedade e da atenção aos outros, redobradas pelo que considera serem as exigências espirituais da quadra. “Além da distribuição de presentes, recebíamos sempre pessoas com menos possibilidades ou que, por qualquer razão, não tinham família.”

O consumismo de Natal era bem diferente há 40 anos atrás. A afluência às compras na baixa de Lisboa (na foto) na altura do Natal era diferente da dos nossos dias.

O essencial ficou. No Oriente, Henrique conheceu outras tradições de Natal. Em Macau assistiu a missas do galo celebradas em português, chinês e latim. Na Tailândia, chegou a passá-lo em mosteiros budistas, a orar a Buda, porque “o importante é o ato de rezar”. O centro dos seus Natais nunca esteve nas prendas. Nos Açores, descobriu outras tradições de partilha.

“Gosto muito de um ritual que se chama O Menino Mija. Passa por recebermos amigos e dar-lhes a provar os licores que fomos preparando ao longo do ano.” Hoje, Henrique vive o Natal em família, o que inclui vários cães, gatos, algumas ovelhas, um cabrito e um burro. “São Natais simples. Vivo numa quinta, rodeado de natureza, e nessa noite deixamos os nossos animais entrarem em casa durante um bocadinho.”

A vivência da fé, sem a qual não se imagina, adquire uma especial relevância nessa data. “Tive uma educação religiosa judaico-cristã, mas sou um homem aberto e disponível para as mensagens das outras religiões. Na noite de Natal fazemos sempre algumas leituras da Bíblia, da Torá, do Corão, os textos das grandes religiões do Livro, mas também de outras como o budismo ou o panteísmo. Todas elas, se lermos bem, trazem mensagens de paz e de partilha.”

Avesso ao frenesim consumista desta altura do ano, Henrique cumpre o ritual da troca de presentes (“sou um homem de rituais”, diz) através de livros ou de consumíveis (“ofereço muito biscoitos, licores ou compotas feitas por mim”). “O importante, sublinha, é a atenção ao outro.” E essa, por muito que procuremos, não está em promoção na Black Friday.