Os últimos (e peculiares) desejos dos famosos

Como capricho final do designer de moda Karl Lagerfeld, no seu testamento, exigiu que Choupette, a glamorosa gata branca que o acompanhou nos últimos anos de vida, protagonista de várias campanhas de publicidade, foi a maior beneficiária do testamento do dono.

Cuidar dos vivos ou tratar da imagem deixada à posterioridade? O que motiva quem deixa escrita a última vontade? De Karl Lagerfeld a Elizabeth Taylor, muitos foram os famosos que desconcertaram o mundo nas suas disposições finais.

Texto de Maria João Martins

O que diz a mais derradeira das vontades sobre quem a pronunciou? O que procura? Redenção, vingança ou apenas pregar uma partida a quem sobrevive? O tema, largamente tratado desde sempre, voltou à baila em fevereiro último após a morte do designer de moda Karl Lagerfeld. Multimilionário, conhecido como o Kaiser da moda, o alemão surpreendeu tudo e todos com o que parece ter sido o capricho final de um homem que sempre se regera por um extremo individualismo: Choupette, a glamorosa gata branca que o acompanhou nos últimos anos de vida, protagonista de várias campanhas de publicidade, era, afinal a maior beneficiária do testamento do dono. O objetivo era assegurar que o animal que, nas palavras do próprio, se transformara no centro do seu mundo, mantivesse o estilo de vida a que fora habituado: viagens em jet privado, comida confecionada por dois chefs de reconhecidos méritos, todo um staff de cuidadores. Não tardaram a ouvir-se vozes condenatórias do alegado egoísmo de Lagerfeld, mas a um morto nada se recusa e este nunca ocultara preferir a companhia dos animais à dos humanos.

Elisabeth Taylor deixou ordens para que as cerimónias do seu funeral se atrasassem.

A originalidade face aos rituais fúnebres pode ainda ser lido como o último ato de coqueteria de quem, durante toda a vida, abusara dela. A atriz Elizabeth Taylor, que sempre fizera esperar (e desesperar) realizadores, colegas de profissão e provavelmente os sete homens com quem se casou, não resistiu a repetir a graça uma última vez. De acordo com as disposições que deixara escritas, a sua urna chegou longos minutos depois da hora aprazada para a cerimónia, deixando à espera todos os circunstantes. Quem podia negar esse último capricho à mulher que fora Cleópatra?

O realizador, encenador e coreógrafo Bob Fosse, para além de ter distribuído a sua fortuna por 66 pessoas, destinou uma verba de 25 mil euros para um opíparo jantar a que deveriam comparecer alguns dos seus melhores amigos.

Mas no mundo do espetáculo nem tudo são vedetismos póstumos, havendo também quem quisesse deixar uma memória festiva atrás de si. Apesar de ter morrido com apenas 27 anos, a cantora Janis Joplin deixou 2500 dólares para a realização de uma festa nos dias imediatos ao seu funeral. O realizador, encenador e coreógrafo Bob Fosse, para além de ter distribuído a sua fortuna por 66 pessoas, destinou uma verba de 25 mil euros para um opíparo jantar a que deveriam comparecer alguns dos seus melhores amigos. Entre eles Dustin Hoffman, Liza Minnelli e Jack Nicholson.

O realizador e coreógrafo norte-americano Bob Fosse destinou uma verba de 25 mil euros para um jantar em sua homenagem realizado após a sua morte.

Outros famosos quiseram apenas assegurar que o verdadeiro amor triunfasse sobre a morte. Uns de forma mais romântica do que outros. Para o ator Jack Benny tal passou por deixar assegurado que, até ao fim dos seus dias, a sua viúva receberia uma rosa vermelha como testemunho eterno do sentimento que os unira. Para o famoso ilusionista Houdini, importava que todos os anos, no dia que fora o do seu aniversário, a viúva se deslocasse a uma sessão de espiritismo, para que ambos pudessem conversar. Ao contrário do que talvez se imagine há, no entanto, exigências mais estranhas do que esta: em meados do século XIX, o poeta e ensaísta alemão Heinrich Hein declarou a mulher, Mathilde, sua herdeira universal. Até aqui, tudo normal. Mas havia uma cláusula escondida: Mathilde só receberia a herança se se casasse de novo. “Assim, acrescentava venenoso, haveria pelo um homem a lamentar a sua morte.”

Desejos políticos

Em todas as monarquias da história, as últimas vontades de um soberano aparecem à posterioridade envoltas numa enorme carga dramática. Como rezam antiquíssimas crónicas, transmitiam-se então segredos temíveis enquanto os chanceleres quebravam para sempre o selo do rei ou da rainha que ali terminava os seus dias. No leito de morte, o conde Dom Henrique terá exigido ao filho, Afonso Henriques, ainda muito pequeno, que da terra que lhe deixava, de Coimbra até Astorga, não perdesse nem um palmo. A historiografia nacionalista pretende que a criança, levada pelo fiel aio Egas Moniz, terá bebido as palavras do pai e, ali mesmo, se teria forjado um destino. E um país.

Nem todos, porém, foram tão bem mandados como Afonso Henriques. Dom Pedro I, mal o progenitor, Afonso IV, fechou os olhos, apressou-se a honrar a memória de Inês de Castro, perfilhou as crianças nascidas desse amor e perseguiu implacavelmente os homens que a tinham assassinado.

Mas noutras famílias reais também não faltam casos em que a derradeira vontade dos seus membros foi preterida em favor de outras conveniências. Um dos casos menos conhecidos, mas também um dos mais cruéis, remonta ao princípio do século XX e envolve a família da avó paterna da rainha Isabel II, a rainha Mary, nomeadamente o irmão desta, Francis of Teck. Oficial do exército extremamente bem-parecido, Francis morreu jovem, vitimado por uma pneumonia, sem nunca se ter casado, mas deixando um vasto de grupo de amantes chorosas. Entre elas contava-se Ellen, condessa de Kilmorey, com quem manteve um longo e tórrido affaire. Para escândalo da família Teck, a abertura do testamento revelaria que o malogrado enamorado deixava à condessa um valiosíssimo conjunto de esmeraldas que ele, por sua vez, herdara da sua própria mãe. Indignada, a então rainha de Inglaterra apressou-se a comprar as joias à nova proprietária (que já fora amante do rei Eduardo VII) pela quantia de dez mil libras, ao mesmo tempo que mandava selar o testamento do irmão, evitando que estes e outros pormenores menos convenientes a seus olhos fossem do conhecimento público.

Tal como Karl Lagerfeld, anos antes, Winston Churchill Winston Churchill após a sua morte também salvaguardou o futuro do seu animal de estimação.

Mesmo quando cumpre à risca às últimas vontades dos ricos e poderosos, o sentido prático britânico nunca deixa de ser criativo. Ao morrer em 1965, Winston Churchill legou ao Património Nacional (National Trust) a sua bela propriedade de Chartwell, no Kent. Com uma condição, porém: o seu gato, Jock, ali deveria continuar a viver, com o conforto e a liberdade de que gozara em vida do seu venerável dono. E assim se fez, até que dez anos depois o animal sucumbiu à velhice. Receosa de que o desaparecimento de Jock ditasse o regresso de Chartwell à posse da família Churchill, a administração do National Trust tratou de encontrar um gato muito semelhante ao beneficiário original. Décadas depois, entre retratos de família e os roseirais de Sir Winston, vive hoje Jock. O sexto do nome.