Os muros que a humanidade derrubou

A pegada do astronauta Neil Armstrong na superfície da Lua, a 20 de agosto de 1969, marcou uma nova era e um muro ultrapassado pelo homem: a aterragem em locais extraterrestres.

O apelo da descoberta é tão pungente, tão impossível de calar, que faz que exploradores derrubem muros desde o início dos tempos. Dão novos mundos ao mundo. Dão-nos novos mundos a nós, que os vemos chegar à Lua, ao fundo do mar, ao infinito. Até onde já conseguiu ir o homem? Até onde pode ele ir ainda?

Texto de Ana Pago

Em terra são as pirâmides de Gizé, a Grande Muralha da China, óperas como a de Sydney ou Oslo, inspiradas na colisão de dois icebergues. Arranha-céus a torto e a direito, pontes e canais como o da Mancha ou do Panamá, considerado a oitava maravilha por ligar o Atlântico ao Pacífico e assim revolucionar o transporte marítimo mundial. Só porque um dia exploradores, pensadores e inventores se atreveram em mares nunca dantes navegados é que descemos às profundezas oceânicas ou definimos novas fronteiras no espaço. Muros existem para podermos saltá-los, não para nos limitar no que quer que seja.

Ases pelos ares

Enquanto ainda andava com os pés assentes na terra a mirar aquelas aves tão distantes da panela, o homem sonhou que um dia também iria voar assim, como elas. Foi uma questão de tempo até o grego Arquitas de Tarento, pai da engenharia mecânica e precursor da aviação, construir (em 425 a.C.) um pombo a ar comprimido capaz de voar 180 metros. Em 300 a.C., os chineses punham no céu papagaios à boleia do vento sem imaginar que engenheiros da NASA iriam estudar este voo de baixa velocidade para conceber paraquedas e asas-delta para as modernas naves espaciais.

O Solar Impulse é uma aeronave alimentada a energia solar, o seu inventor, o suíço Bertrand Piccard, circum-navegou a Terra dia e noite ao longo de 64 mil quilómetros.

Ainda assim, as primeiras máquinas voadoras consideradas viáveis (apesar de nunca terem saído do papel) foram as que Leonardo da Vinci idealizou entre 1480 e 1505, baseadas na estrutura dos pássaros. A 5 de junho de 1783, os irmãos Montgolfier foram mais longe ao porem a voar o primeiro balão de ar quente tripulado, em tamanho real. A 28 de agosto de 1883, num planador, o americano John Montgomery tornou-se o primeiro a voar numa aeronave mais pesada do que o ar, ao passo que em dezembro de 1903 os irmãos Wright realizaram o primeiro voo de aeroplano da história, lançados por uma catapulta. Entre 1907 e 1909, o aviador brasileiro Santos Dumont criava o avião mais pequeno, mais barato e o primeiro do mundo a ser produzido em série, o que veio popularizar a aviação.

A seu tempo, as grandes guerras mundiais consolidaram-na.
E hoje em dia o futuro está mais do lado do suíço Bertrand Piccard, às voltas com o protótipo de uma aeronave alimentada a energia solar (Solar Impulse), que pesa como um automóvel e tem a envergadura de um Airbus. Nela, o explorador circum-navegou a Terra dia e noite (até quando não havia sol), ao longo de 64 mil quilómetros, provando que a energia limpa pode simultaneamente revolucionar a economia global e reduzir as emissões de gases de estufa. “O ambiente terá tudo a ganhar se nos agarrarmos a energias limpas e a soluções ecológicas, com um impacto transversal na economia”, reforça o aviador. Para ele, o céu não é o limite, nem pouco mais ou menos.

Espaço: a última fronteira?

Quando Neil Armstrong deu um pequeno passo para o homem que foi simultaneamente um salto gigantesco para a humanidade, a pisar a superfície da Lua com as suas botas de astronauta, o mundo ficou atónito a assistir às primeiras imagens transmitidas na televisão a partir de uma câmara instalada no exterior do módulo lunar. “Parece não haver cor. É cinzento, e é um cinzento como se fosse giz”, descreveu Buzz Aldrin, o segundo astronauta a bordo, a registar a paisagem em redor após a alunagem. Seis horas e meia depois, Armstrong dava os primeiros passos na que se tornou a primeira visita dos humanos a um outro mundo. Quinze minutos mais tarde, Aldrin juntou-se ao comandante da missão Apollo 11 cá fora, rodeados de crateras por todos os lados, a entrarem os dois para a história a 20 de julho de 1969.

“Olá, Neil e Buzz. Por causa do que vocês fizeram, os céus tornaram-se parte do mundo do homem. Por um momento inestimável na história humana, todas as pessoas são verdadeiramente uma no orgulho pelo que vocês fizeram, e uma nas orações de que voltarão em segurança à Terra”, falou-lhes o então presidente dos EUA, Richard Nixon, num telefonema inédito da Sala Oval da Casa Branca. A viagem foi o marco divisório para mais de 530 milhões de pessoas que assistiram ao momento: Antes e Depois. Ampliou o conhecimento do universo e trouxe desenvolvimento tecnológico, industrial e económico, que por sua vez alavancou mais e melhor conhecimento do universo.

“Lembro-me de ver o Espaço: 1999, uma das séries de ficção científica mais marcantes, e ficar maravilhada por eles andarem dentro da nave a viajar, ou entrarem num tubo para se teletransportar. Isso motiva muita gente que trabalha nesta área”, diz a engenheira química Celeste Pereira, líder da equipa que concebeu os escudos térmicos da sonda europeia ExoMars, chegada a Marte a 19 de outubro do ano passado.

Também já em curso, no que lhe diz respeito, está a elaboração de materiais compósitos que vão integrar a estrutura dos satélites de mais duas missões da Agência Espacial Europeia: a Euclid, com lançamento previsto em 2022 para mapear a distribuição da matéria escura e a evolução da energia escura no espaço; e a Juice, rumo à exploração das luas geladas de Júpiter. Se no futuro será possível viver em Marte? “Penso que sim, porque se está a fazer tudo para torná-lo viável”, confirma a cientista.

Profundo azul

Desde os primórdios dos tempos que o homem sempre tentou viajar debaixo de água. Leonardo da Vinci imaginou e desenhou esboços que inspiraram outros na contenda. Várias tentativas foram goradas. Mas em 1864 dois oficiais da marinha, Simeon Bourgeois e Charles Brun, criaram o Le Plongeur, o primeiro submarino mecânico que apesar de ter submergido várias vezes com sucesso foi retirado do ativo em 1872. Usava um motor de pistões alimentado por ar comprimido em tanques. Os tanques disponibilizavam também oxigénio à tripulação. Mais tarde, a 12 de outubro de 1900 o USS Holland foi o primeiro submarino a entrar ao serviço da marinha norte-americana. Construído em 1898 foi um dos modelos pioneiros de submarinos mais prolífico.

Em 1960, os aquanautas Don Walshe e Jacques Piccard desceram ao ponto mais inacessível dos oceanos: a Fossa das Marianas, no Pacífico, a 11 mil metros de profundidade.

Com as guerras mundiais a evolução tecnologia lançou definitivamente o ser humano a submergir muitos metros debaixo de água. Atualmente, e para além do uso militar, os submarinos, e os seus tripulantes, querem derrubar muros de distância debaixo de água . Don Walsh e Jacques Piccard (o pai do aviador Bertrand Piccard da Solar Impulse) descerem, em 1960, ao ponto mais inacessível dos oceanos do mundo com 11 mil metros de profundidade: a Challenger Deep, na mítica Fossa das Marianas, no Pacífico, a bordo do submergível Trieste. Em março de 2012 coube ao explorador da National Geographic James Cameron, realizador de O Abismo, Titanic ou O Exterminador Implacável, tornar-se o primeiro homem a viajar sozinho à Challenger Deep.

Escusado será dizer que foi uma questão de tempo até o milionário americano Victor Vescovo vir quebrar o recorde de mergulho mais profundo de sempre em maio de 2019: 10 927 metros abaixo da linha do mar, mais 11 metros do que o mergulho de Cameron. “Tenho a filosofia de que não estamos cá só para sobreviver, mas para contribuir de alguma forma”, justificou à BBC o antigo oficial da Marinha, imparável. De caminho, é também ele o primeiro explorador submarino a ter alcançado os pontos mais profundos de todos os oceanos – Pacífico, Índico, Atlântico, Antártico e Ártico – naquilo a que chamou a Expedição Five Deeps (Cinco Profundezas). Não há muros que sempre durem nem vontade que não os derrube.