Moda: os loucos (e belos) anos 20

Após o período conturbado da guerra, entre 1914 e 1918, a população volita a encontrar a alegria de viver", resume a consultora de moda Sandrina Francisco.

Depois das privações da Primeira Grande Guerra, o mundo reencontra a alegria de viver num grito de libertação e euforia sem precedentes. Por isso lhes chamamos os loucos anos 20.

Texto de Ana Pago

Os homens vinham de fazer a Primeira Guerra Mundial, cansados de patriotismo. As mulheres tomaram sozinhas as rédeas dos correios, transportes, bancos, explorações agrícolas, hospitais, escolas, fábricas – incluindo as de armamento -, e com a prática tornaram-se verdadeiras lutadoras. Tudo mudou para elas ao participarem no esforço de guerra, sorridentes como sempre, mas menos dóceis do que os maridos se lembravam. Bem podiam suplicar que voltassem a ser as domésticas prendadas de antes que elas tinham outros planos. Nomeadamente o de disporem do seu corpo como bem entendessem, já que se sentiam livres como nunca.

“O discurso visual nos anos 1920 tem, de facto, muito que se lhe diga”, confirma a socióloga Cristina L. Duarte, autora de Moda e Feminismos em Portugal – O Género como Espartilho (ed. Temas e Debates). Começando pela libertação do corpo e o corte à garçonne – o chamado “cabelo à Joãozinho” -, tudo aponta para a existência de um poder que está, agora, na cabeça da mulher. “Existe aqui uma rutura com a imagem do passado (e mesmo com o início do século XX) que reflete o assumir de uma vida pública, por parte das mulheres, muito para lá da representação de género”, reforça a investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (grupo Faces de Eva) da Universidade Nova de Lisboa.

Braços, decotes e pernas ficaram à mostra. Tecidos vaporosos como a seda e macios como o jersey, com saias cada vez mais curtas para se dançar o charleston e o breakaway, substituíram os vestidos pesados e abundantes até aos pés, densos como reposteiros

Naturalmente, a entrada sem precedentes no mercado de trabalho determinou que a roupa acompanhasse o quotidiano feminino. As curvas deram lugar a silhuetas direitas, que disfarçavam o peito, sem vincar nem estrangular nada no corpo (foi um respirar de alívio coletivo quando o espartilho caiu em desuso). Braços, decotes e pernas ficaram à mostra. Tecidos vaporosos como a seda e macios como o jersey (à época só usado na roupa interior masculina), com saias cada vez mais curtas para se dançar o charleston e o breakaway, substituíram os vestidos pesados e abundantes até aos pés, densos como reposteiros. Até calças elas passaram a usar.

“No fundo a figura incontornável de Coco Chanel, que revolucionou o universo feminino ao antecipar as necessidades das mulheres antes de as próprias perceberem o que precisavam”, diz a socióloga Cristina L. Duarte.

“O conforto sobrepõe-se pela primeira vez à estética, já que as mulheres querem ter os movimentos libertos para as muitas atividades que exercem”, explica a consultora de moda e imagem Sandrina Francisco, diretora da consultora de moda Fashion Studio. As roupas largas pareciam roubadas do guarda-roupa da mãe. Os colarinhos à Peter Pan, tão em voga, remetem para o ideal da criança que não queria crescer. “Há aqui uma dualidade entre a mulher independente e ousada, sedutora ao máximo, e a mulher-menina frágil, com ar de criança”, admite a stylist. Seja como for, a declaração de igualdade vai-se tornando mais política à medida que elas reivindicam ocupar o mesmo lugar que os homens no espaço público.

“Após o período conturbado da guerra, entre 1914 e 1918, a população volta a encontrar a alegria de viver”, resume Sandrina Francisco. Foi uma espécie de grito de euforia, daí chamarmos à década de 1920 os anos loucos, les annéesfolles, the roaring twenties. “A moda é um reflexo, a todos os níveis, desta liberdade recém-conquistada”, resume a consultora, lembrando que a invenção do fato de banho, nadar no mar e trabalhar para o bronze irrompem nesta altura. “No rosto destacam-se os lábios em beicinho e os olhos de menino perdido, carregados de sombra negra.” O cabelo curto usava-se solto ou colado à cabeça com gel, como o da dançarina negra Josephine Baker, ativa na luta contra o racismo enquanto era copiada à exaustão por milhares de mulheres.

Crescimento económico e intelectual

Os grandes centros metropolitanos mundiais – Paris, Londres, Chicago, Nova Iorque, Berlim, Nova Orleães e tantos que se seguiram por arrasto – fervilhavam com mudanças significativas no estilo de vida e na cultura da época, marcadas por um crescimento industrial e de consumo em larga escala. O jazz florescia por toda a parte, elevando a música popular a um patamar de topo. Nos clubes socializava-se, bebia-se e dançava-se ao ritmo de batidas afro-americanas, com uma intimidade a crescer inversamente às inibições. Homens e mulheres conduziam, apegavam-se aos eletrodomésticos e à rádio, acorriam em massa aos cinemas. No campo da arquitetura, do design e das artes decorativas, a art déco atingia o pico de popularidade na Europa e ganhava o nome (abreviado) da Exposição de Artes Decorativas e Industriais Modernas, realizada em Paris em 1925.

Uma coisa é certa: aquela imagem emancipada, que dava à mulher o poder de expressar a sua individualidade, levava a que fosse vista com outros olhos por uma sociedade próspera, efervescente a nível cultural e artístico, com uma dinâmica social em colisão com as antigas tradições, sublinha Cristina L. Duarte: “Essa apresentação era inspirada por divas do cinema como Greta Garbo, Mary Pickford, Louise Brooks ou Clara Bow (as it girls de Hollywood dos anos 1920), mas também por novas formas de estar.”

Agora elas praticam desporto, pintam-se, perfumam-se. Usam collants cor de pele e namoriscam com os rapazes. “Dançam, fumam, deixam de estar espartilhadas, além de a vida noturna começar a contar com a mulher”, nota a socióloga especializada em moda e género, adepta de se conhecer os padrões, saber adaptá-los à sua figura e gostar de o fazer. “No fundo é a figura incontornável de Coco Chanel, que revolucionou o universo feminino ao antecipar as necessidades das mulheres antes dr as próprias perceberem do que precisavam”, diz.

“Inspirada pela sua história num orfanato, veio criar novos códigos de vestuário baseados numa certa austeridade, minimalismo e simplicidade, sem medo de ser disruptiva.”

Foi uma visionária muito à frente do seu tempo, concorda Sandrina Francisco, apaixonada pelos anos 1920 e o que Chanel nos deu (incluindo a bijutaria e a boquilha para cigarros): “Inspirada pela sua história num orfanato, veio criar novos códigos de vestuário baseados numa certa austeridade, minimalismo e simplicidade, sem medo de ser disruptiva.”

Em 1926 lançou o imortal vestido preto como símbolo de elegância (e não só de viúvas, funerais, criados e padres).

A 29 de outubro de 1929 – a fatídica terça-feira negra -, um crash na Bolsa de Valores de Nova Iorque mergulhou o mundo na Grande Depressão. Felizmente, havia a memória daqueles anos loucos a que ir buscar forças.