“O jogo era a alma dos cabarés de Lisboa”

Em Portugal, as mulheres só frequentavam os cabarés ou dancing clubes em ocasiões especiais como festas de carnaval ou fim de ano. As mulheres “emancipadas”, de cabelo, saia curta e cigarro comprido faziam parte do ambiente do cabaré, mas era pagas para lá estar, a animar a noite.

Havia charleston e jazz e champanhe e cocaína, mas as mulheres eram pagas para lá estar e era no jogo que estava a alma do negócio dos cabarés lisboetas dos anos 1920. Até a ditadura militar lhes fechar as portas, a bem da nação e dos bons costumes. A historiadora Cecília Vaz conta como foi.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Leonardo Negrão/Global Imagens

O Le Chat Noir, em Paris, tido como o primeiro cabaré moderno, esteve em atividade na década de 1880. A Lisboa, os cabarés chegaram mais tarde, tiveram o seu auge nos anos 1920 e não eram bem a mesma coisa. Porquê?

A popularidade do Chat Noir espalhou-se rapidamente. Na altura, Paris era o centro do mundo e tudo o que fazia sucesso lá era reproduzido noutras cidades europeias. Aliás, nos anos 1890, terá existido uma tentativa de fazer um cabaré em Lisboa, mas não foi bem-sucedida.

O que começa a ter muito sucesso em Portugal, mesmo antes da Grande Guerra, são os casinos e é dessa raiz que nascem em Lisboa, no fim dos anos 1910, os cabarés. Apesar de alguns continuarem a dizer que não existiram em Portugal, porque lhes faltava o elemento artístico e intelectual do cabaré parisiense ou alemão.

Cecília Vaz, historiadora e investigadora do ISCTE – IUL, dedicou a sua tese de mestrado à boémia lisboeta dos anos 1920. Será publicada em livro no próximo ano com o título “Clubes Noturnos Modernos em Lisboa: Sociabilidade, Diversão e Transgressão (1917 – 1927)”. pela editora Lua Eléctrica.

Mas o jazz, o charleston, a dança, a euforia, a cocaína, toda essa explosão que associamos à boémia dos loucos anos 20 não se viveu na noite lisboeta?

Viveu, mas Portugal era de facto um país mais conservador e tradicionalista, com uma enorme taxa de analfabetismo, uma burguesia reduzida e uma classe artística que não tinha a expressão, a força e a influência de outras capitais europeias. Portanto, viveu, à escala portuguesa.

Mas também cá o panorama mudou muito durante e após a Grande Guerra, nos anos 1920, com o movimento modernista e os Ballet Russe, começando a despertar essa necessidade de espaços para divertimento noturno, já não cafés ou tabernas, mas lugares onde se pudesse assistir a um espetáculo, comer, beber, dançar, jogar, uma espécie de tudo em um, cuja frequência era sinónimo de ser moderno, cosmopolita e ter um certo status. E entre 1920 e 1926 há vários estabelecimentos deste género que se destacam.

Por exemplo?

Na atual Casa do Alentejo, o Magestic, que depois se tornou Monumental Club; no Palácio Foz, o Maxim’s, que teve um enorme sucesso e foi dos que duraram mais tempo. Tinham um ambiente de luxo e glamour, um pequeno palco para a jazz band, um espaço para o dancing, com as mesas à volta e as mesas de jogo e roleta, num espaço próprio.

O protótipo do cabaré original era mais intimista, porque o número artístico, em que a crítica social e política fazia parte da performance, era muito importante e a ideia era criar intimidade com o público. Cá, o Bristol Club foi o que se aproximou mais desse espírito artística e intelectual, tanto na decoração art déco, com telas de pintores modernistas, como nos números apresentados, como na clientela.

De resto, em Lisboa, estes espaços, geralmente chamados de dancing clubs ou restaurant-dancing, eram muito maiores, grandiosos, modernos, luxuosos e cosmopolitas. A maioria estava na zona dos Restauradores, próximos da estação de comboios, que ligava Lisboa a Paris.

Uma coisa que achei interessante foi a descrição do contraste entre o que se passava nas salas de jogo – silêncio, luz branca, semblantes carrancudos e concentrados – enquanto na sala ao lado se vivia a euforia da música e da dança.

O Maxim’s foi inaugurado em 1908 como Club dos Restauradores, tendo sido dos primeiros a abrir como dancing, sala de jogo, bar e restaurante. Nos anos 1920 atingiu o auge e foi dos que resistiram mais tempo ao novo contexto da ditadura.

Não era só jazz e charleston, pois não? Alguns anúncios desses clubs nos jornais da época incluíam bailarinas sevilhanas e música cigana.

Sim, a par de sons e ritmos modernos, também havia fado, sevilhanas, música cigana e valsa. Havia muita variedade, números de magia e de ventriloquismo e ao fim da noite podia haver striptease. Era para todos os gostos.

Quem é que frequentava?

Reivindica-se que estes eram espaços democráticos, onde podia entrar toda a gente, mas não era bem assim, era preciso pagar a entrada e havia porteiro. Claro que haveria jovens com uma taça de champanhe a noite inteira, mas o povo ficava do lado de fora.

De resto, era uma clientela diversificada: os artistas e jornalistas boémios, os empresários burgueses e as meninas pagas pelo club para animar a noite [as papillons, também chamadas cocotas ou borboletas].

As mulheres não frequentavam? Só as que eram pagas para o fazer?

Em Lisboa, talvez no Maxim’s, que foi o que durou mais, até ao início dos anos 1930, e que era o mais socialmente recomendável. Nos outros, podem aparecer mulheres, mas sobretudo para festas como a passagem de ano ou o Carnaval. As meninas que lá estão raramente são clientes.

O movimento de emancipação das mulheres em Portugal, expressivo no início do século, com a República não se refletiu na vida boémia?

Não quero dizer isso. Há mulheres emancipadas e com novos modos de vida, mas ainda assim não marcam presença regular na vida pública noturna.

Noutros países foi diferente.
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Foi, mas isso tem que ver com uma mentalidade mais conservadora, com um papel das mulheres que teve grandes avanços na Primeira República, mas não o tempo suficiente para se afirmar assim tanto.

De qualquer maneira, havia muitas mulheres, de cabelo curto e a fumar, vestido acima do joelho e muitos maneirismos. Só não eram, como os homens, pessoas influentes.

E eram pagas para estar lá.

Algumas podiam ser artistas ou coristas, mas a maioria eram pagas pelo club, sim, para animar e conversar, tipo bar de alterne. Outras seriam prostitutas de luxo.

A explosão dos loucos anos 1920 está ligada à Grande Guerra. Depois de um momento de grande tensão, há uma grande descompressão – a ideia de velocidade e coisas a acontecer, de valorização do ócio e do prazer, o anonimato das cidades, os carros, as novidades tecnológicas da época. Isso estava a acontecer em Portugal, mas foi interrompido com a ditadura militar.

O consumo de cocaína também teve no espírito do cabaré, com a euforia que implicava, um papel importante?

A primeira pessoa que fala nisso é o Repórter X [Reinaldo Ferreira], que não é a fonte mais credível, porque se sabe que tinha uma imaginação muito fértil. Fala da existência de uma senhora conhecida como Dista, que vendia cocaína e teria introduzido a droga na noite boémia lisboeta. Há referências a isso, caixinhas de prata que as meninas teriam.

Parece-me que a morfina seria mais popular do que a cocaína, mas é verdade que não produz o efeito que se pretendia para noites de dança e euforia e alegria e exuberância, mais condizentes com o da cocaína. É tudo muito fantasioso no que respeita a este assunto nas fontes que consultei, mas é sem dúvida um elemento associado a esta cultura e aos loucos anos 20.

Que foram uma explosão, em termos de costumes e estilos de vida. Como é que isso se viveu em Portugal?

Essa explosão está ligada à Grande Guerra. Depois de um momento de grande tensão, há uma grande descompressão. A ideia de velocidade e coisas a acontecer, de valorização do ócio e do prazer, o anonimato das cidades, os carros, as novidades tecnológicas da época. Isso estava a acontecer cá, mas foi interrompido com a ditadura militar.

No que respeita aos cabarés, ao regulamentar o jogo e restringi-lo apenas às zonas de veraneio, levou ao encerramento de todos estes estabelecimentos, que tinham nesse negócio a principal fonte de rendimento. O Almada Negreiros dizia que o jogo era a alma dos cabarés. Sem a alma, fecham, sendo substituídos por estabelecimentos mais conformes o espírito do regime.