O desejo no cinema e nos livros

Em Portugal, a libertação pós-25 de Abril trouxe também a sexualidade para o grande ecrã. Nos anos 70 e 80, filmes como Sofia ou a Educação Sexual, de Eduardo Geada; O Lugar do Morto, de António-Pedro Vasconcelos

As Cinquenta Sombras de Grey pode ser a obra mais lida da década que passou mas não trouxe qualquer novidade ao erotismo e sua representação. Sem temer polémicas e várias formas de censura, têm sido muitas as obras literárias ou cinematográficas que, ao longo do tempo, se ocupam de um tema que continua escaldante.

Texto de Maria João Martins

Os desmemoriados julgarão que tudo começou com a parafernália de brinquedos exibidos, como num catálogo de tupperwares marotos, em As Cinquenta Sombras de Grey. Mas, na verdade, a ligação entre o cinema e o desejo erótico, de tão antiga, pode considerar-se epidérmica. Ainda as fitas eram mudas e já a Loulou de Louise Brooks (sob a direção do realizador alemão G.W. Pabst) enlouquecia de desejo os homens, quase sempre mais velhos, que a rodeavam. O pescoço deixado a descoberto pelo penteado à garçonne muito curto, as costas nuas, o sorriso tentador conduzia-os a caminhos mentais em que a perdição espreitava, como a gárgula de um castelo amaldiçoado. Estava-se então em 1929. Um ano depois, já com som, seria a vez de uma muito jovem Marlene Dietrich, transformada em cantora de cabaret berlinense, reduzir a pó a vontade própria de um honrado professor de meia-idade (interpretado por Emil Jannings). De uma assentada, a beldade alemã exerceria o mesmo fascínio nas plateias de todo o mundo, transformando-se logo ao primeiro filme numa “estrela” (e num sex symbol) internacional.

Ainda as fitas eram mudas e já a Loulou de Louise Brooks enlouquecia de desejo os homens, quase sempre mais velhos, que a rodeavam.

Apesar de todas as formas de censura que regimes políticos e as habituais ligas da moral e bons costumes foram impondo ao cinema nas décadas seguintes, a representação do desejo nunca deixou de estar presente, de forma mais ou menos insinuada. Sem essa intenção não teriam brilhado “estrelas” como Brigitte Bardot, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Grace Kelly, Elizabeth Taylor, Jane Fonda, mas também Marlon Brando, Paul Newman, Richard Burton ou Robert Redford, entre tantos outros. Nesta Hollywood clássica, a braços com o código Hays que contabilizava a duração de um beijo e media a profundidade dos decotes, houve cineastas que se tornaram mestres na arte do subentendido elegante. Quase todos chegados da Europa em guerra. Falamos de Ernest Lubitsch, de Alfred Hitchcock e, antes de qualquer outro, de Billy Wilder, autor de filmes como Pagos a Dobrar, O Pecado Mora ao Lado, Sabrina, Quanto mais Quente Melhor, Um Amor na Tarde ou Fedora.

Também Grace Kelly nos anos 1950, na foto ao lado de Cary Grant, representou o auge da beleza na sua época.

Como mestre do suspense, o britânico Alfred Hitchcock sabia que um “bom” crime vive paredes-meias com apetites insatisfeitos, quer do criminoso quer de quem o procura. As louras esfíngicas dos seus filmes (Barbara Stanwyck, Grace Kelly, Ingrid Bergman, Eve Marie Saint, Tippi Hedren) deixam sempre no ar um perfume de sensualidade requintada devidamente envolta em toilettes Dior ou Balenciaga. Nenhuma, porém, encarnaria tão bem essa promessa de fogo sob invólucro de gelo como Grace Kelly. Poucos anos antes de se tornar Sua Alteza Sereníssima, a princesa do Mónaco, a atriz norte-americana fazia avanços claros a James Stewart (em Janela Indiscreta, 1954) e Cary Grant (em Ladrão de Casaca, 1955). Neste filme, rodado a poucos quilómetros do seu futuro principado, Grace determinada avança sobre um perplexo Cary Grant, coloca-lhe nas mãos uma preciosa gargantilha e pergunta-lhe: “Já lhe fizeram oferta mais completa?” Poucos espectadores acreditarão que a jovem ainda está a falar de joalharia.

Noutras latitudes, do Japão à América do Sul, o cinema gozou sempre de maior liberdade na expressão do desejo e da sensualidade. O escândalo, se apareceu, longe de dissuadir o público, atraía-o de forma ainda mais sedutora. Foi o que aconteceu em 1972 quando o italiano Bernardo Bertolucci dirigiu O Último Tango em Paris (que em Portugal só foi exibido após o 25 de Abril, levando à formação de grandes filas junto à bilheteira do Cinema São Jorge) e, já no final dessa década, com O Império dos Sentidos, do japonês Nagisa Oshima. Centrado na relação sexual obsessiva, frequentemente violenta, entre Sada e o seu patrão, Kichizo, o filme desencadeou uma horda de protestos quando, em 1991, a RTP o programou para uma noite de cinema.

Também em Portugal, onde o cinema do Estado Novo se comportava como se os bebés fossem realmente trazidos por cegonhas, a libertação pós-25 de Abril trouxe também a sexualidade para o grande ecrã. Nos anos 70 e 80, filmes como Sofia ou a Educação Sexual, de Eduardo Geada; O Lugar do Morto, de António-Pedro Vasconcelos, Sem Sombra de Pecado, de José Fonseca e Costa, ou Relação Fiel e Verdadeira, de Margarida Gil, trataram amplamente o tema.

“Tudo o que te pertence me é caro e a tudo o que te respeita me entrego sem de mim ficar disposição alguma. Há momentos em que me sinto com submissão bastante para poder servir a mulher que tu amasses.” Escritas no século XVII, estas palavras atribuídas a Soror Mariana Alcoforado evidenciam a tortura do desejo contrariado. Endereçadas ao cavaleiro de Chamilly, que integrava um regimento francês enviado ao Alentejo no contexto das Guerras da Restauração, antecedem em cerca de um século Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, e os escritos do Marquês de Sade. Geralmente mais relacionadas com a literatura de teor romântico do que com o erotismo, as Cartas de Uma Freira Portuguesa revelam, pelo ardor da linguagem, que a relação entre remetente e destinatário transpusera largamente as grades da cela monástica.

Trópico de Câncer, do norte-americano Henry Miller publicado em França em 1934, a obra que alegadamente relatava as aventuras do autor na Paris dos Loucos Anos 20 só em 1961, depois do parecer favorável do Supremo Tribunal, foi editada nos Estados Unidos.

Muito antes de chegar ao cinema, já a expressão do erotismo se fazia, de facto, através da palavra escrita. Com um poder de sugestão não inferior ao da imagem, muitas dessas obras foram alvo de expurgo por parte dos poderes instituídos. Foi o caso de Trópico de Câncer, do norte-americano Henry Miller. Publicado em França em 1934, a obra que alegadamente relatava as aventuras do autor na Paris dos Loucos Anos 20 só em 1961, depois do parecer favorável do Supremo Tribunal, foi editada nos Estados Unidos.

O mesmo tipo de polémica envolveu várias obras de uma das companheiras de boémia e de alcova de Miller, a escritora Anaïs Nin, mas também aos britânicos D.H. Lawrence e E.M. Forster. O primeiro causaria escândalo com o romance O Amante de Lady Chatterley, o segundo com Maurice. Em causa estavam, em ambos os livros, as asas que o desejo sabe encontrar para se erguer acima das barreiras sociais que lhe são erguidas, sejam elas de classe (a mulher da aristocracia que se envolve com o guarda-caça do marido em Lady Chatterley…) ou de género (o relacionamento homoerótico entre dois estudantes de Cambridge em Maurice).

Ao longo do século XX foram, de facto, várias as obras literárias que despertaram reações exacerbadas, o que, em muitos casos, também assegurou o sucesso de vendas e a adaptação ao cinema. À imagem do que sucedeu com os livros anteriormente referidos, Lolita, do russo Vladimir Nabokov, publicado em 1955, causou muito pranto e ranger de dentes com a história da obsessiva atração de um homem de meia-idade pela sua enteada adolescente muito precoce. Das várias adaptações cinematográficas e televisivas que o livro conheceu, destaca-se a de 1962 realizada por Stanley Kubrick. Por esses anos, em França, Marguerite Duras, que, ao longo da sua vasta obra, nunca deixou de tratar o tema do desejo feminino, tantas vezes recusado ou tratado como uma anomalia pela medicina, reconstituía em O Amante e O Amante da China do Norte uma história que pode, de algum modo, ser considerada o inverso da de Nabokov. Nascida e criada na Indochina francesa, a protagonista, filha de colonos pobres, conhecerá um homem chinês mais velho, destinado a um casamento arranjado pela família. Tomada por arrebatador desejo, a adolescente, pouco mais do que uma criança, seduzi-lo-á conscientemente e torna-lo-á seu amante, pondo em causa as muitas barreiras que a sociedade colonial colocava entre ambos. Duras nunca teve qualquer problema em assumir que aquela fora, afinal, a história da sua iniciação sexual.