Guia Michelin: da família resta o nome

Edouard (à esquerda) e o pai, François, num encontro com o presidente francês Jacques Chirac em 2000 (REUTERS)

Seja pelo famoso guia vermelho, seja pelos pneus, o mundo conhece a Michelin. Mas a empresa familiar fundada em 1889 pelos irmãos André e Edouard já não tem o apelido entre os que a dirigem há mais de uma década. História de uma árvore genealógica brutalmente interrompida. Várias vezes.

Texto de Marina Almeida

Aos 76 anos, François Michelin tinha passado o testemunho ao filho Edouard, homónimo do fundador da empresa que fabrica pneus. O velho Michelin, que esteve à frente dos destinos da companhia francesa durante mais de quatro décadas, estava tranquilo. Formara o seu quinto filho (eram seis, rapazes e raparigas) seguindo os seus valores: desempenho, simplicidade, discrição. Colocara-o no topo da estrutura em 1999. Sete anos depois, Edouard morreria afogado, num acidente com um barco chamado Liberté. Nunca mais a empresa foi dirigida por um Michelin.

Há um historial de morte prematura e violenta na família, que François Michelin contrariou. O empresário morreu aos 88 anos, em 2015 – um ano depois da mulher, Bernardette Montagne, com quem teve seis filhos, quatro rapazes e duas raparigas. François perdera a mãe ainda sem os dez anos cumpridos e o pai aos 14.

Mas antes da tragédia de 2006, já os destinos da empresa nascida em 1889 em Clermont Ferrand pela mão de Edouard e André Michelin, tinham sido abalados. Em 1932, Étienne Michelin, filho mais velho de Edouard, fundador da companhia, despenha-se aos comandos do seu avião, empenhando uma provável sucessão na liderança.

Quem chegou a um lugar de destaque na empresa foi o irmão mais novo de Étienne. Em 1935 Pierre Michelin é eleito presidente da Citroen – fabricante de automóveis comprado pela Michelin, seu maior credor, nesse ano. Pierre acumulava também um cargo de destaque na empresa da família. A 29 de dezembro de 1937 embateu, ao volante do seu Citroen, num outro automóvel, matando todos os seus quatro ocupantes – um casal e os dois filhos. Pierre acabaria por morrer no dia seguinte no hospital durante uma cirurgia de amputação da perna direita. Tinha 34 anos.

Mas as histórias trágicas não se ficaram por aqui. Em 1949, Jean-Luc Michelin, neto do fundador da companhia André Michelin, morre num acidente de viação com os dois filhos. No mesmo ano, o irmão, Daniel, mata a filha de dois anos durante uma manobra de automóvel.

Antes de morrer François Michelin – a quem os media franceses chamavam de o menos mediático dos grandes empresários franceses – ainda se despediu da nora. Em 2011, Cécile Michelin, viúva de Edouard, morre na sequência de um cancro fulminante, deixando orfãos os seis filhos do casal, com idades entre os seis e os 18 anos. Depois da morte do marido, vivera uma temporada com os filhos nos EUA, e empenhava-se em resguardar a privacidade familiar. Apesar de ter um cargo de administração na empresa, este era simbólico, sem funções executivas.

Edouard Michelin era considerado um promissor empresário. Aos 22 anos chegou à empresa depois dos estudos em escolas de elite e do serviço militar num submarino nuclear. Em 1989, com 26 anos, assumia o controlo da filial americana do grupo e, dez anos mais tarde, sucedia ao seu pai na liderança da empresa. Na madrugada de 26 de maio de 2006, o empresário saiu para a pesca com um amigo, Guillaume Normant, presidente da comissão de pescas de Audierne, sul da Finisterra. Iam pescar robalos à linha. O barco Liberté foi encontrado a 70 metros de profundidade. “Ninguém viu, nem ninguém percebeu. O mar estava bom mas havia um nevoeiro expesso que só levantou ao meio dia”, disse na altura Jean-Marie Figue, porta voz da Perfeitura Marítima do Atlântico.

Com a morte de Edouard Michelin, em 2006, o gigante mundial dos pneus passou a ser dirigido pelo suíço Michel Rolier. Terminou, à quarta geração, a liderança Michelin na empresa. Atualmente (desde 2012) a companhia é presidida por Jean-Dominique Senard. A história se encarregará de contar se algum dos seis filhos de Edouard seguirá o rasto empresarial da família.

Em 1993, François Michelin deu uma longa entrevista a dois jornalistas da France Inter que lhe perguntaram se o facto de dar o própriO nome aos produtos não significa comprometer-se em relação aos clientes. O empresário respondeu assim: “Certamente! Comprometer o nome acrescenta talvez uma outra dimensão e convida, sem dúvida, ainda mais, a não fazer demasiadas tolices!”.

Texto publicado originalmente na DN Ócio a 20 de novembro de 2018