Da música à fast food árabe. Histórias de sucesso de portugueses no Brasil

Carmen Miranda participou em 14 filmes nos Estados Unidos, onde viveu 15 anos. O seu nome está no passeio da fama em Hollywood.

O sucesso de portugueses no Brasil é histórico. O caso mais recente enche páginas de jornais e é protagonizado por Jorge Jesus, que pode estar a dias de conquistar o título de campeão brasileiro e da Taça dos Libertadores. Está dado o pontapé de saída…

Texto de Cláudia Pinto

Faltam poucos dias para a final da Taça dos Libertadores entre a equipa brasileira do Flamengo e os argentinos do River Plate. O jogo realiza-se no próximo dia 23 de novembro, em Lima, no Peru. A popularidade de Jorge Jesus está a aumentar entre os adeptos de tal modo, que as últimas notícias apontam para a intenção da direção do clube em renovar por mais duas temporadas (o treinador tem contrato até maio de 2020). Quando Jorge Jesus chegou ao clube carioca, há cinco meses, o Flamengo encontrava-se a oito pontos da liderança e, hoje, com 32 jornadas disputadas, leva dez pontos de avanço sobre o segundo classificado, o Palmeiras [à data de fecho de edição].

A descoberta do Brasil pela frota comandada por Pedro Álvares Cabral à ilha de Vera Cruz marca o começo da ligação entre os dois países. Natural de Belmonte (1467-1520), o navegador provém de uma família nobre da província e terá vindo para a Corte de D. Afonso V ainda muito novo para estudar. Aos 17 anos, foi nomeado moço fidalgo da corte de D. João II e, a partir daí, aprofundou os seus estudos em cosmografia e artes militares.

“Figura habitual da corte dos reis D. João II e, depois, de D. Manuel I, a sua escolha para comandar a 2ª armada à Índia não é assim tão óbvia. Sabemos pouco sobre a sua vida e até sobre o contexto político da época em que viveu. Comparado com outros navegadores do seu tempo, Bartolomeu Dias, por exemplo, Cabral é muito inexperiente”, destaca o professor de ensino básico de História e Geografia de Portugal Rui Pinto.12

Ainda assim, por decreto real, foi entregue a Cabral o comando de uma armada de 13 navios e 1500 homens. “Tinha sob a sua alçada homens muito mais experientes, entre eles, Bartolomeu Dias e provara que todos os conhecimentos marítimos e de Geografia estavam errados e que era possível navegar do Atlântico para o Índico”, sublinha o professor.

Também Francisco Melo Palheta, o luso-brasileiro nascido em 1630 (não se sabe ao certo onde, se em Belém do Pará ou em Serpa), é outro caso de sucesso. Seduziu a mulher de um governador francês na Guiana, roubou-lhe uma muda de café arábica e levo-a para o Brasil, produto que é hoje uma das imagens de marca do país.

Uma marca que permanece na memória

Fundada em 1870 pelo português José António Coxito Granado, a Granado Pharmácias tornou-se em poucos anos fornecedora da corte imperial brasileira. Em 1993 foi vendida a ingleses. Hoje, como loja de produtos de beleza, sabonetes e pó de talco, está presente em várias cidades europeias.

O português José António Coxito Granado desembarcou no Rio de Janeiro com apenas 14 anos e poucas posses económicas. Começou por trabalhar como lavador de frascos numa pequena botica, em troca de casa, comida e algum dinheiro. “No entanto, pouco tempo depois, estava a dirigi-la e, passados dez anos, comprou-a por sete contos de reis. Nascia assim a Granado Pharmácias, em 1870.

A histórica loja, pela qualidade dos seus produtos, tornou-se fornecedora da corte imperial, instalada na então capital do Brasil. Granado tornou-se até amigo pessoal de D. Pedro II”, partilha Sandra Carvalho, fundadora do Projeto Memória, que tem como objetivo resgatar e contar histórias de empresas.

Em 1903, José António Coxito criou, com a ajuda de um irmão farmacêutico, João Bernardo Granado, o famoso polvilho antisséptico granado, um ícone da marca e um sucesso de vendas que ainda hoje continua no mercado com uma fórmula única e inalterada no mundo.
No seu sítio, na zona serrana, o fundador começou a estratégia sustentável da empresa através do cultivo de ingredientes a partir de extratos e óleos vegetais. A Granado viria a tornar-se pioneira na produção de sabonetes com glicerina natural, tendo inclusivamente sido a primeira empresa a suspender testes em animais, no Brasil.

Em 1993, Carlos Granado, neto do fundador, vendeu a empresa ao inglês Christopher Freeman. Como parte da estratégia de internacionalização da marca, no ano de 2016, foi anunciada a venda de uma parte minoritária para a espanhola Puig. A botica marca presença em várias pop-ups nas cidades de Atenas, Barcelona, Bolonha, Lausana, Londres, Madrid e Viena. Em 2017, a marca passou a ser vendida na Casa Pau-Brasil, em Lisboa, um espaço dedicado a marcas brasileiras com ligação a Portugal.

A viver em Portugal há onze anos, Sandra Carvalho mantém na memória o cheiro do tal polvinho (uma espécie de pó de talco que todas as mães usavam para cuidar dos seus bebés) e ainda hoje reconhece o produto antigo que mantém a tradição e tem atravessado gerações.

O que é que a baiana tinha?

Nasceu em Marco de Canaveses, no Porto, a 9 de fevereiro de 1909. Maria do Carmo Miranda da Cunha foi para o Brasil, com a mãe, com apenas 10 meses. Ambas foram ter com o pai, José Maria Pinto Cunha, barbeiro de profissão e que já lá morava.
Criada no bairro da Lapa e a estudar num colégio de freiras, Carmen Miranda cantava e dançava em pequenas festas privadas, pois almejava ser atriz e cantora. E afinal, O Que É Que a Baiana Tem? A música, reconhecida além-fronteiras, foi um sucesso em vários continentes, surgiu com a sua participação na comédia musical Banana da Terra, em 1929, onde apareceu fantasiada de baiana, naquela que viria a ser a sua imagem de marca. A cantora ficou eternizada pelos figurinos exóticos e os chapéus com frutos.

Participou em 14 filmes nos Estados Unidos da América, onde viveu durante 15 anos, e em seis, no Brasil. Foi a primeira sul-americana a ver o seu nome no famoso Passeio da Fama, em Hollywood. Era conhecida como A Pequena Notável. Morreu a 5 de agosto de 1955, em Beverly Hills.

Sonhava ser médico mas acabou empresário de sucesso

Alberto Saraiva nasceu a 6 de junho de 1953 e é o fundador de uma das maiores cadeiras de fast food no Brasil, o Habib’s. Inspirado pelo pai, António Saraiva, que tinha como lema de vida “Não desista, é preciso caminhar”

Alberto Saraiva nasceu a 6 de junho de 1953 e é o fundador de uma das maiores cadeiras de fast food no Brasil, o Habib’s. Inspirado pelo pai, António Saraiva, que tinha como lema de vida “Não desista, é preciso caminhar”, o português emigrado que foi para o Brasil com menos de 1 ano atingiu o sucesso com um negócio que acabaria por ser tão surpreendente quanto inusitado.

O seu sonho era ser médico, mas, apesar dos estudos de Medicina em São Paulo, desde os 17 anos, a morte prematura do pai, vítima de um assalto num pequeno negócio de família (uma padaria), ditou o rumo da sua vida.

Natural de Velosa, Celorico da Beira, Alberto Saraiva acabaria por vender o negócio do patriarca, um ano depois da sua morte, lançando-se no seu primeiro desafio empresarial: o Habib’s, um restaurante árabe na Lapa, transformou-se numa rede com mais de 420 lojas próprias e franchisadas, espalhadas pelo Brasil, e com mais de 22 mil empregados. António Saraiva é também presidente da rede Regazzo, especializada em comida italiana.

“Houve, de facto, casos de portugueses que emigraram para o Brasil, principalmente durante a segunda metade do século XX, e que algum tempo após a guerra criaram negócios muito interessantes relacionados a restauração e com o retalho”, garante José António Rousseau, fundador do Fórum do Consumo. No entanto, acrescenta, a maioria dessas empresas criadas por portugueses foram, entretanto, compradas por outros grupos, como é o caso do Grupo Pão de Açúcar, adquirido pelos franceses do Casino. Os portugueses que emigravam à época tinham menos formação e acabavam por lançar-se no negócio da panificação. “Era uma via fácil para começo de vida”, explica.

Os principais grupos de retalho atuais, a nível global no Brasil, têm outra origem que nada tem que ver com o contributo nacional, afiança o também docente universitário. Em contrapartida, os pequenos negócios mantêm a sua relevância. “Ainda existem muitas empresas de pequena ou média dimensão criadas por portugueses”, diz. Apesar de alguns negócios ainda sobreviverem e pertencerem aos seus fundadores ou descendentes, muitas outras acabam por ser vendidas ou adquiridas. “O mercado brasileiro é muito diferente do nosso e tem desafios para os retalhistas portugueses, desde logo, a inflação e a desvalorização da moeda”, conclui.

Grupo Pão de Açúcar

Natural de Pomares de Jamelo, freguesia da Guarda, o emigrante português Valentim Santos Diniz inaugurou o primeiro supermercado Pão de Açúcar em 1959. A cadeia de lojas tornou-se a segunda maior do Brasil.

Fundado pelo emigrante português Valentim dos Santos Diniz, nascido a 18 de agosto de 1913, o Grupo Pão de Açúcar viria a tornar-se a segunda maior cadeia de supermercados no país, seguida do Carrefour.

Natural da freguesia de Pomares de Jamelo, na Guarda, acabou por emigrar aos 16 anos para o Brasil, tornando-se um dos empresários de referência do país. Numa entrevista disponível em vídeo online, Valentim dos Santos Diniz confessava que, na véspera de partir para o Brasil, o pai lhe perguntou se estava entusiasmado com a mudança de vida, afirmando: “Você vai ser feliz.” E foi.

Inicialmente, a empresa era uma doçaria, tornando-se a maior cadeia de supermercados em São Paulo nas décadas de 70, 80 e 90 do século passado. O primeiro supermercado foi inaugurado em 1959.

Devoto de Nossa Senhora de Fátima, Valentim era tratado pelos funcionários como “seu Santos”. Acabou por ser substituído pelo filho Abílio, em 1995, que assumiu o cargo de presidente do conselho de administração, e Valentim tornou-se presidente honorário até 2003.

O sucesso das lojas no Brasil ditou a abertura de um primeiro espaço Pão de Açúcar em Portugal a 1 de maio de 1970.