Como dois irmãos criaram o famoso Guia Michelin

Ideia genial dos irmãos André e Edouard Michelin: editar guias para ensinar os condutores a mudar pneus, a pôr gasolina no carro, e mimá-los, mostrando-lhes onde bem comer e dormir. Hoje o Guia Michelin é vendido em todo o mundo. Andam 30 milhões por aí. O segredo é… estar atento às coisas que não prestam.

Texto de Marina Almeida

Os irmãos Michelin já eram empresários de sucesso: não inventaram a roda, mas inventaram o pneu de borracha. Mas Edouard e André souberam olhar à volta e perceber que o recém nascido automóvel representava uma enorme oportunidade para a empresa: quanto mais carros circulassem, mais pneus se gastavam – logo mais pneus vendiam. E foi assim que se tornaram os melhores amigos dos condutores, também em papel.

Edouard e André dinamizaram então a edição de detalhados mapas, que se dobravam em harmónio, para os condutores não se perderem nas suas viagens. E criaram o guia Michelin, em 1900, uns livrinhos cheios de informações práticas para quem andava na estrada. Ensinavam a mudar os pneus, indicavam onde se localizavam as oficinas, os postos de combustível, os mecânicos e contemplavam uma lista de locais para os viajantes comerem e pernoitarem (e muito mais, como as estações de caminhos de ferro, de correios ou de telégrafo). O guia foi editado pela primeira vez por ocasião da Exposição Universal de Paris – e contemplava uma lista de hotéis na cidade.

«Esta obra surge com o novo século, durará tanto como ele», escreveram os manos no prefácio. Começavam aqui a piscar o olho aos prazeres da vida e ao turismo automóvel.

Durante 20 anos o guia foi gratuito. Até ao dia em que André entrou numa oficina de pneus e viu pilhas de guias a servir de base para uma bancada de trabalho. Adepto do princípio “o homem só respeita verdadeiramente aquilo que paga”, a nova edição só sairia para a rua com um valor na capa: sete francos. E foi assim que, em 1920, o Guia Michelin passou a ser pago, num ano em que pela primeira vez elencava uma lista de hotéis em Paris. Foi por esta altura que os irmãos entenderam recrutar os clientes mistério, hoje conhecidos mundialmente como inspetores Michelin: uma trupe secreta, que visita os restaurantes e faz crítica gastronómica, sob anonimato.

Seis anos depois, o guia começa a atribuir classificação aos restaurantes mais requintados – e surgiu uma estrela. Em 1931 surgem as três estrelas Michelin, mas só cinco anos depois foram publicados os seus (lacónicos) critérios, que prevalecem até hoje: Uma estrela, cozinha de grande fineza, compensa parar; Duas estrelas, uma cozinha excecional, vale a pena desvio; Três estrelas, uma cozinha única, justifica a viagem;

No século XX, o Guia Vermelho Michelin torna-se um best seller, com 30 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Abrange 40 mil estabelecimentos, em 24 países de três continentes. Edita 24 publicações, entre as quais o Guia Portugal e Espanha, cuja edição 2019 se desvenda em Lisboa, pela primeira vez desde que é publicado – a primeira edição foi em 1910.

Atualmente o guia tem na internet uma potente alavanca: quer o viajante procure um caminho, um destino ou um restaurante, de imediato o Via Michelin mostra um manancial de informação útil: não só fica a saber as melhores rotas, como o tempo que demora a chegar, os custos de portagens e de combustível.

A bíblia da gastronomia tornou-se também apetecível para os colecionadores, que procuram os exemplares das primeiras edições. Em 2015 um exemplar de 1900 foi vendido em leilão por 22 mil euros, estabelecendo novo recorde mundial.

A Michelin não desvenda grandes pormenores sobre o guia, nem sobre a forma como as inspeções aos restaurantes são feitas. Em 1993 François Michelin, então presidente da empresa, quebrou parcialmente o silêncio e disse numa entrevista à France Inter que “o segredo do Guia está no requinte do gosto dos Franceses.” O discreto empresário revelou que recebiam cerca de cem mil cartas por ano “escritas por utilizadores críticos” e disse: “um dos aspetos mais fortes do Guia Michelin vermelho é que os leitores sabem que estamos atentos às coisas que não prestam.”

Texto originalmente publicado na DN Ócio a 20 de novembro de 2019.