A tradição dos bailes de carnaval nos salões de Lisboa

A corte portuguesa começou a festejar o Carnaval muito tarde, imitando os bailes de Paris e Veneza. Mas mesmo nesses quatro dias em que tudo era permitido os bailes da alta sociedade primavam sobretudo pela elegância, mais do que pela originalidade das máscaras. O povo festeja na rua ou nas coletividades.

Texto Maria João Caetano

O Carnaval começou por ser uma festa popular de origem profana, marcada por rituais de libertação e até algo grotescos. Em Portugal, até muito tarde, a elite não se misturava nesses festejos. Os primeiros bailes de Carnaval, que imitavam os de outras cortes europeias, ter-se-ão realizado nas de D. Pedro II e D. João V. Só em 1823 teve lugar, no Teatro do Bairro Alto, o primeiro baile de máscaras público. Mais requintado terá sido o baile organizado no Teatro de São Carlos em 1836, com máscaras trazidas dos festejos de Veneza e de Paris – Dominó, Colombina, Arlequim, Polichinelo, Pierrot.

Outros teatros, como o da Rua dos Conde ou do Salitre, também começaram a organizar bailes de máscaras, que começavam depois das peças e iam até de madrugada. Mas os grandes Entrudos eram celebradas nas casas da aristocracia, com bailes acompanhados por orquestra em que se dançava a polca, a valsa ou o cancã.

As festas mais concorridas aconteciam na casa da baronesa da Regaleira, em Benfica, no solar do Rato dos marqueses de Viana ou ainda no palácio das Laranjeiras, do riquíssimo conde de Farrobo – onde num desses bailes de Domingo Gordo apareceu a rainha D. Maria II.

Tornaram-se também conhecidas as festas carnavalescas do conde de Penafiel ou do marquês de Viana. No Carnaval de 1845, o festejo mais importante teve lugar em casa de António Costa Cabral, ministro do reino e depois chefe do governo, junto à Calçada da Estrela. Foram convidadas duas mil pessoas, entre nomes da literatura e das artes, políticos e aristocratas. Nessa festa esteve também o compositor e pianista húngaro Franz Liszt.

 

Desfile de Carnaval na Avenida da Liberdade em 1931. Arquivo DN.

Entretanto, enquanto os aristocratas festejam o Carnaval com festas nos palácios, o povo continuava a festejar na rua. A partir de finais do século XIX, os desfiles de rua tornam-se mais estruturados e organizados. Vários comerciantes de Lisboa reuniam-se para organizar o corso de carros alegóricos, cada um deles ostentando o nome da casa comercial que o patrocinava. Grupos de trabalhadores de diferentes bairros e agremiações passaram a competir entre si para o melhor desempenho.

Desfiles de Carnaval na Avenida da Liberdade na década de 1930. Arquivo DN.

Os carros ornamentados partiam da novíssima Avenida da Liberdade, seguiam pelo Rossio e subiam até ao Chiado, percorrendo os cafés e passando pelas ruas cujas janelas estavam ornamentadas com colchas de seda. Pelo caminho, os foliões (o janota, o galego, a sopeira, o político) divertiam-se por entre tumultos e batalhas. O mais popular era o Xé-Xé – uma caricatura miguelista também conhecida como peralta ou pisa-flores, era uma sátira à nobreza do século XVIII, vestido com casaca comprida, punho de renda, culottes, sapatos de fivela e cabeleira de estopa com um enorme chapéu bicórneo.

Com a implantação da República em 1910, o velho Carnaval passou um pouco de moda. Contudo, a tradição não se perdeu totalmente e os desfiles de Carnaval em carros alegóricos pela Avenida da Liberdade mantiveram-se até aos finais da década de 1920. A partir do golpe militar de 28 de Maio de 1926, a República deu lugar ao Estado Novo e, progressivamente, o Carnaval foi deixando de ser lugar para a crítica política e social. Nos desfiles, organizados pelas autoridades oficiais, viam-se sobretudo representantes de grémios profissionais e de coletividades de várias regiões do país. As festas e os concursos de máscaras eram só para as crianças. “Em Portugal perdeu-se a alegria”, escrevia um cronista em 1927. “A crise é de dinheiro, mas mais ainda é de satisfação. As casas particulares fecharam-se, os palácios fidalgos que recebiam mascaradas puseram taipais, o comércio não tem iniciativa e o espírito do Carnaval sumiu-se.”

“Não deixem de ir por falta de fatos, pois já há feitos em smoking e em paquetão preto e azul, assim como coletes de piquet, em todas as medidas.”

A tradição dos bailes manteve-se. Havia os bailes mais pobres, organizados por associações profissionais, por coletividades ou sociedades filarmónicas recreativas, e depois havia os bailes da alta sociedade, organizados por clubes, restaurantes e hotéis – só que estes não eram necessariamente bailes de mascarados. Havia quem levasse uma mascarilha ou um chapéu, mas pouco mais do que isso. A maioria dos participantes ia apenas muito bem vestida, talvez com um pouco mais de brilhantes do que noutros eventos. Em 1930, a loja de roupa Old England-Sarmento & C.ª (na Rua Augusta) colocava um anúncio no DN dirigido especificamente a todos os que quisessem ir aos bailes de Carnaval desse sábado à noite: “Não deixem de ir por falta de fatos, pois já há feitos em smoking e em paquetão preto e azul, assim como coletes de piquet, em todas as medidas.”

No tempo do Estado Novo os bailes de Carnaval da alta sociedade eram organizados por clubes e hotéis, como o Baile de Carnaval do Tivoli em 1931 (na foto). Arquivo DN.

Umas páginas mais adiante, um anúncio publicado no DN dava conta de um “baile de máscaras monstro” a acontecer no Coliseu de Lisboa a partir da meia-noite: “Folgar e dançar toda a noite – Uma grande feérie luminosa. Blue Birds Flemming Jazz-Band, o grande sucesso das noites anteriores. Música e divertimentos até de madrugada. Entrada gratuita às senhoras mascaradas.” Nesta altura, além dos do Coliseu, ficaram famosos os bailes na Sociedade de Belas-Artes, nos salões da Liga Naval ou no Grémio Lisbonense. O anúncio do Monumental Clube garantia que este era o local “escolhido pela melhor sociedade, hoje e amanhã. Empolgante continuação das festas de Carnaval com várias surpresas. Dois deslumbrantes bailes de máscaras. Três orquestras. Animação em todos os salões.” No Grande Hotel Inglaterra, nessa terça-feira, realizava-se um “Grande Baile de Carnaval” com bilhetes a 45 escudos, incluindo ceia: “Traje de rigor ou costume sem máscara. Seleção rigorosa. Reservado o direito de inscrição.”

“Admite-se máscaras e marcam-se mesas até às 22.00. Preço 10 escudos, com o direito de entrada a uma senhora” (Baile da Associação de Comerciantes da Praça do Brasil, 1932).

O tom dos anúncios aos bailes manteve-se assim nos anos seguintes. “Os mais finos, os mais alegres, a mais seleta assistência no mais simpático ambiente” (Baile de Carnaval no Salão de Chá do Tivoli, 1931). “A única casa de espetáculos onde há bailes de máscaras. As mais deslumbrantes festas de Carnaval. Bailes na sala. Bailes no promenoir. Bailes no foyer. A única casa de Lisboa onde, pela sua vastidão, se pode dançar em toda a parte” (Coliseu, 1932). “Admite-se máscaras e marcam-se mesas até às 22.00. Preço 10 escudos, com o direito de entrada a uma senhora” (Baile da Associação de Comerciantes da Praça do Brasil, 1932).

Assim era o Carnaval em 1935 em Lisboa, tal como foi descrito no DN de domingo 3 de março: “E assim ontem à noite oficialmente inaugurou-se a quadra carnavalesca com bailes de todas as categorias – particulares, de associações de classes e de recreio, grémios e clubes, restaurantes e grandes hotéis – desde o Poço do Bispo ao Dafundo, desde a Rua dos Fanqueiros aos altos do Campo Grande. Automóveis em dobadoira para trás e para diante por essas ruas, por essas avenidas. Meninas mascaradas, muitas meninas mascaradas, de todas as idades e também de todas as categorias. Teatros à cunha. Namoros. Alguns descaramentos, alguns atrevimentos. Isso que tem! Estamos no Carnaval e no Carnaval quase tudo é permitido.”

Os verdadeiros bailes de máscaras, como os entendemos hoje, popularizam-se sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, já na década de 1950. No Casino do Estoril e nos hotéis chiques à sua volta, as festas podiam até ser temáticas e levar-nos, por exemplo, para a corte de Luís XIV, em Versailles, ou para os “loucos anos 20”.