A origem dos desejos do génio da lâmpada

No Ocidente, As Mil e Uma Noites apenas ficaram conhecidas quando o orientalista francês Antoine Galland, tão enfeitiçado pela obra quanto o próprio sultão Xariar, começou a publicar as primeiras traduções na Europa, de 1704 a 1717, em versões depuradas e moralistas que excluíam os excertos originais mais voluptuosos e as suas desconfianças pessoais acerca da cultura árabe

Se há coisa que o conto de Aladino nos ensinou é que nunca devemos desejar à toa, não vá um génio estar à escuta e realizar pedidos de que possamos arrepender-nos. E daí talvez o importante seja mesmo essa capacidade de se sonhar com algo. Desde que acrescente magia à nossa história, só pode ser bom.

Texto de Ana Pago

Ah, as animações da Disney! Não fossem elas e provavelmente muitos nunca teriam ouvido falar da história de Aladino, um órfão cativante que mendigava nas ruas de Agrabah (cidade fictícia situada algures no Médio Oriente) e se tornou príncipe após conquistar o coração do público e da princesa Jasmine. Pelo caminho há tapetes voadores, uma lâmpada mágica e o respetivo génio que lhe concede três desejos e o final feliz que todos almejam. Existe, inclusive, uma sequela intitulada Aladdin e o Rei dos Ladrões, feita pela Disney em 1996, de novo a misturar alhos com bugalhos dado que Aladino e a Lâmpada Maravilhosa e Ali Babá e os Quarenta Ladrões são contos distintos entre si, apesar de pormos tudo no mesmo saco. Mas vamos por partes para não perder o fio à meada.

Foi por volta do século III que uma série de histórias populares nascidas na Índia, rica em génios e semideuses de pele azulada, viajaram até à Pérsia na boca de mercadores

Foi por volta do século III que uma série de histórias populares nascidas na Índia, rica em génios e semideuses de pele azulada, viajaram até à Pérsia na boca de mercadores – não é à toa que na Pérsia surgiu uma primeira compilação chamada Hezar Afsaneh, O Livro dos Mil Contos, já com as célebres personagens do sultão Xariar e Xerazade. Pelo século VIII, os povos árabes não só tinham acrescentado os valores islâmicos e o erotismo, como traduzido aquele que viria a tornar-se o clássico mais sedutor e misterioso da literatura árabe: As Mil e Uma Noites, em que a narradora Xerazade, condenada a morrer após casar-se com Xariar, encadeia um conto fantástico no seguinte, noite após noite, mantendo o rei curioso para saber o final e desistir da ideia de matá-la, como fez com as anteriores esposas.

No Ocidente, As Mil e Uma Noites apenas ficaram conhecidas quando o orientalista francês Antoine Galland, tão enfeitiçado pela obra quanto o próprio sultão Xariar, começou a publicar as primeiras traduções na Europa, de 1704 a 1717, em versões depuradas e moralistas que excluíam os excertos originais mais voluptuosos e as suas desconfianças pessoais acerca da cultura árabe. Ao mesmo tempo, gostou tanto de histórias como as de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, As Viagens de Sinbad ou Ali Babá e os Quarenta Ladrões, inventadas pelo sírio Hanna Diab, que tomou a liberdade de acrescentá-las sem lhe pesar na consciência o facto de estar a deturpar um clássico. Se na sua cabeça fazia todo o sentido que Xerazade as tivesse contado ao rei, porque não?

Surpreendentemente, tanto quanto esta inclusão abusiva de Galland n’As Mil e Uma Noites, também o Aladino, os três desejos e o génio que os concede têm muito que se lhes diga. Apesar de a Disney ter vendido a imagem de um órfão leal, trabalhador, de boa índole, o do conto de Hanna Diab era preguiçoso (nunca quis aprender um ofício), obcecado com as aparências e tinha mãe (é ela quem esfrega a lâmpada e liberta o génio). Jasmine, a namorada moderna que lhe conhecemos, é na realidade Badr al-Budur, “a lua mais cheia de todas as luas cheias” pela sua beleza ímpar. Nem ele era de Agrabah como supúnhamos, rodeado de cúpulas e minaretes até onde a vista alcança: o “verdadeiro” Aladino vivia num reino da China e comia arroz com pauzinhos, em vez de cuscuz com borrego.

“Neste contexto, há uma questão que se impõe. Sabendo que este génio mágico não existe, será que não existe um outro tipo de génios? Génios reais e que nos ajudem também a realizar os nossos desejos e a lidar com as dificuldades?”, questiona a psicóloga Rute Agulhas, acreditando no génio que se esconde em cada um de nós, se soubermos chamá-lo. “Génios que se chamam autoestima, resiliência, capacidade de olhar para os problemas e encontrar soluções alternativas”, acrescenta a especialista, considerando ser isso, no fundo, que nos ensinam os contos.

O melhor de tudo é que os próprios desejos não se limitavam a três na história original de Diab: estavam sempre a acontecer, quer Aladino pedisse ouro, joias, criados, soldados, palácios, cavalos. A par do génio da lâmpada – reconhecido pelo Alcorão como um espírito sem forma que podia ajudar ou prejudicar os humanos se estivesse para aí virado -, um segundo djinn saído de um anel mágico assegurava-se de que Aladino e a princesa Badr al-Budur seriam felizes para sempre, com ou sem falhas de carácter, até mesmo quando o irmão do mago que eles mataram com veneno e facadas foi à China tentar vingar-se do casal. Talvez o importante na vida de uma pessoa seja mesmo essa capacidade de se sonhar com algo e ir atrás. Nem que tenha de vir um génio desatar-nos as pedras dos calcanhares.