“A minha aviação acabou, isto agora é um autocarro”

Fardas desenhadas por Yves Saint Laurent, talheres Christofle, toalhas e guardanapos de linho na primeira classe. Sim parece uma miragem, mas foi assim a vida a bordo nos anos de ouro da TAP. Nessa altura, Lília Roque entrou para a companhia.
E conheceu (outro) mundo.

Entrevista de Marina Almeida | Fotografias de João Silva/Global Imagens

Tem uma voz bem colocada e uma dicção impecável – viríamos depois a descobrir porquê. Lília Roque tem 77 anos e entrou para a TAP em 1968. Foram os anos de ouro da aviação, sabemos hoje, e visto daqui parece outro mundo. Tudo era diferente: a seleção das candidatas, o aprumo a bordo, as inspeções às tripulações antes de subirem para o avião.

As mulheres não podiam casar antes dos 35 anos: “Os jovens de hoje não fazem uma pequena ideia do que era”. A formação das hospedeiras durava três meses e incluía visitas de estudo à maternidade. “Lília a cantora” recebe-nos em sua casa, mostra algumas fotografias antigas – poucas, que nunca foi de tirar muitas – e logo começa a falar do rigor que se punha em tudo. Nem dá tempo para ligar o gravador. Ali está ela, numa impecável farda amarela no cimo da escada de um avião…

As fardas eram muito bonitas…
Sim… Eram desenhadas pelo Yves Saint Laurent. Era alta-costura. Eles [a TAP] eram muito exigentes. Não só pela figura. Tínhamos de ter 1,60, tinha de ser magras, de usar o cabelo apanhado, o cabelo não podia tocar a gola do casaco. E não se podia usar verniz vermelho. Tínhamos uma inspeção antes de subir a bordo. Havia três senhoras que viam se estávamos bem antes de irmos para o avião, se não estivéssemos ficávamos em terra. Era muito exigente. O curso eram três meses, inclusive íamos à maternidade [Alfredo da Costa]…

… para poder dar resposta…
para qualquer eventualidade, sim. Aliás houve um ou dois partos a bordo. Por acaso nenhum foi comigo.

Liliá foi hospedeira da TAP durante 34 anos. É fã de música, chegou a cantar nas festas da companhia aérea. (João Silva/</Global Imagens )

O serviço a bordo era especial.
Era muito personalizado, também as pessoas não viajavam tanto. Havia uma primeira classe extremamente exigente. E portanto nós tínhamos curso, aprendíamos como servir à mesa, e eram muito rigorosos. Antes de entrarmos no avião, faziam-nos perguntas sobre o que íamos servir, a rota que íamos ter, o saco de sobrevivência em caso de uma amaragem. Tínhamos de saber isso tudo.

Onde é que se aprendia a ser hospedeira de bordo?
Nós tirávamos o curso de três meses ali no aeroporto nos hangares onde eram também feitos os refrescamentos que tínhamos de seis em seis meses – do serviço a bordo, essencialmente. Também eram lá os cursos de como dirigir a cabine, para chefia. Ah! Quando eu entrei nós não podíamos ser chefes de cabine, eram só homens. Tínhamos de deixar o voo aos 35 anos por casamento, ou tínhamos de vir para terra.

Só se podiam casar aos 35 anos.
Sim. Aliás com as enfermeiras também era assim. Os jovens de hoje não fazem uma pequena ideia do que era.

E porque pensa em ir para hospedeira da TAP?
Eu fui para Londres com os meus 20 anos. Era para ir seis meses e fiquei três anos. Estive na BBC, em Bush House, na secção portuguesa. Quando voltei tinha já 23 anos e pensei – eu sou filha única – para ir para Portugal havia um problema de idade. A partir de uma certa altura não era fácil arranjar trabalho, porque aqui sempre fomos muito velhas, ainda hoje isso existe um bocado. Surgiu-me aquela oportunidade e concorri.

E na altura talvez tenha sido uma forma de se manter atenta ao mundo. Portugal era um país fechado.
Sim! Eu gostava imenso de viajar e tive um pai que me dizia que o mundo não era isto. Eu quando fui para Londres em 1963, isto não tem nada a ver com o que é hoje. E eu queria viajar. Por isso a TAP foi um emprego de que eu gostei muito, não quereria ter outro, deu-me oportunidade de conhecer o mundo. Saí da companhia em 2002 porque não queria chegar a uma idade e dizer ‘agora tens de te ir embora’, queria ser eu a decidir. Fui para chefia em 75, nessa altura já se podia, e as tripulações eram só mulheres! Antes era um homem na chefia e tudo mulheres. Depois das mulheres poderem ser chefes, muitas se candidataram e era só mulheres nos aviões! Eu podia ter tido um lugar em terra, mas nunca quis. Gostava de andar de um lado para o outro.

E o facto de não se poder casar não foi um problema para si?
Não, não. Porque nunca foi uma coisa que eu tivesse como objetivo. Se acontecesse, acontecia. Casei-me aos 33, já não havia essas restrições. Não foi nada que me fizesse pensar não vou. Eu queria era viajar e ver o mundo.

Não é fácil contactar com o público, mas nós também aprendíamos que o passageiro tinha sempre razão. Eu nunca tive atritos, acho que lido muito bem com essas situações.

Que rotas fez?
No princípio, tínhamos muitos voos para África, quatro voos diários para África, especialmente Luanda. E depois dali fazíamos o que na aviação se chama navette, que era ir a Moçambique e voltar. Não tínhamos tantos voos assim na Europa. Eu comecei no Caravelle, que só fazia Europa, mas ao fim de um ano já estava no longo curso. Depois deixei o Caravelle e passei para o 707. Nessa altura voava para o Brasil, Rio de Janeiro. Mais tarde foi São Paulo, Recife. Depois, não me recordo em que ano, Nova Iorque.

(João Silva/ Global Imagens )

E desses anos recorda alguma história especial?
Não é fácil contactar com o público, mas nós também aprendíamos que o passageiro tinha sempre razão. Eu nunca tive atritos, acho que lido muito bem com essas situações. No princípio do 707 – não são os aviões de hoje -, e apanhei um grande susto a ir do Rio de Janeiro…

Mas podem ser histórias boas.
Na primeira classe, lembro-me do Dr. Pinto Balsemão que era um indivíduo educadíssimo, lembro-me do Humberto de Itália, o filho, que viajou, era gente muito simpática, muito civilizada. Quando o Dr. Mário Soares foi à China, eu fazia parte da tripulação. Era um ambiente descontraído.

Que línguas falava?
Inglês e francês, era essencial.

E o inglês já o tinha bem oleado.
Sim é curioso quando fui para Londres, foi para arranjar alguma coisa em inglês, por isso é que fui para Inglaterra. Há coisas que eu acho essenciais num país, como a música – por isso adoro Itália, é um país de eleição. Lamento imenso que aqui não se ensine música desde pequenino e que não haja famílias como a da Joana Carneiro, em que todos tocam um instrumento. A música é um elo de ligação, de harmonia e de junção. Em Nova Iorque da primeira vez até adormeci na ópera. Com cinco horas de diferença horária estava cansada, mas era a minha ânsia de conhecer…

(João Silva/ Global Imagens )

Tinha alguma ligação à música?
Sim, aliás todos tínhamos um nome que nos distinguisse. O meu nome é pouco comum, mas eu ainda por cima cantava. Chamavam-me a Lília a cantora. Eu aprendi mesmo canto, houve festas da TAP em que eu cantei.

“A minha aviação foi a do princípio. Isto agora não existe, é um autocarro. Só falta vender o bilhete quando entra para o avião.”

Continua a andar de avião?
Não tanto, claro. Mas aqui há um ano e tal fui ao Peru, que era um país onde não tinha ido e adorei. Há outros países que eu sempre gosto de visitar. Mas quando eu saí, a minha aviação tinha acabado.

A sua aviação?
A minha aviação foi a do princípio. Isto agora não existe, é um autocarro. Só falta vender o bilhete quando entra para o avião.

E já andou em low cost?
Não, por acaso não. Não me sinto muito segura em relação à manutenção dos aviões.

E a sua aviação, para além do que já falámos, também tinha talheres de metal.
Sim, sim. As toalhas da primeira classe eram de de linho. Os talheres eram Christofle. Mesmo na turística, apesar de ser em bandeja era tudo em loiça. Eram muito pesadas. E nós não podíamos levar mais que duas, portanto levávamos muito mais tempo. Hoje em dia levam um carrinho e enfiam aquilo tudo lá para dentro do lixo (risos). Naquela altura não era assim. Portanto o serviço no avião demorava muito mais tempo. Daqui para Madrid, que era rapidíssimo, 50 minutos, era mesmo só de patins como eu dizia. Mas nós já estávamos a recolher porque íamos aterrar e as pessoas a pedir café! E o café era de cafeteira à mão! Aquilo era absolutamente impossível e ainda ficavam todos furiosos. Não é que eu tenha saudades, mas era diferente. Quando começámos a ir para o Brasil, tínhamos dois voos por semana. O voo maior, ia à sexta e voltava ao domingo, mas o outro ficava lá até sexta. Portanto tínhamos aqueles dias todos para ir conhecer. Alugávamos uma carrinha e íamos, era muito engraçado.

Depois isso acabou.
Quanto mais voos há, menos tempo [a tripulação] está nos sítios. Além de se tornar muito cansativo devido à diferença de horas… Era uma aviação especial, por isso quando saí em 2002 foi com uma rescisão. Eu achei que era altura de sair, estava cansada, tinha muita dificuldade em dormir nos aviões.

Gostava mais do longo curso?
Sim. No médio curso, os voos saiam muito cedo (nessa altura vinham-nos buscar de carrinha), e depois chegávamos ao fim do dia a casa. Quando a minha filha nasceu, curiosamente achei que lhe dava mais atenção quando estava no longo curso, porque eu estava com ela dois, três dias. Era tempo de qualidade.

 

 


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