A estrada de Borba por onde passaram inúmeros reis ao longo de 500 anos

A estrada que ruiu entre os concelhos de Borba e de Vila Viçosa, no distrito de Évora, tem anos de história. A história de reis e rainhas da Dinastia de Bragança que, vivendo no Paço Ducal de Vila Viçosa, a percorriam diariamente. Embarque com a DN Ócio nesta viagem ao passado até 1501.

Texto de Patrícia Tadeia

Mandado edificar em 1501 por D. Jaime I, o Paço Ducal de Vila Viçosa foi durante séculos, a sede da Casa de Bragança, quarta e última dinastia reinante em Portugal (1641 – 1910). E era a antiga nacional 255 que liga Borba a Vila Viçosaque ruiu na passada segunda-feira – que via passar todos os dias reis e rainhas desta Dinastia. Mas a história da realeza nesta vila alentejana é ainda mais antiga.

A Casa de Bragança estava intimamente ligada à região alentejana. E reza a História que Vila Viçosa se tornou sede do ducado logo em 1461, quando D. Fernando sucedeu ao pai. O 2.º Duque de Bragança nunca quis trocar o Alentejo por Guimarães. E era assim que, por ali, em Vila Viçosa, se estabeleciam os Bragança, na altura, no antigo Paço do Castelo.

Contudo, foi ali também que o seu filho – também D. Fernando e 3.º Duque de Bragança – foi executado, acusado de traição, em 1483. Razão que fez com que o 4.º Duque de Bragança, D. Jaime, não quisesse habitar mais o Paço do Castelo, por estar ligado à memória do pai. E foi assim que mandou construir um palácio novo: o Palácio Ducal de Vila Viçosa, em 1501.

Esta fotografia mostra o Terreiro do Paço onde foi construído o Paço Ducal. Neste caso assinala a inauguração do monumento em honra a D. João IV (1604-1656). (Foto: Arquivo DN)

Situado no Terreiro do Paço da vila alentejana, tornou-se a base desta família que foi elevada à coroa através de D. João II. O 8.º duque de Bragança tornou-se rei com o nome de D. João IV, depois da restauração da Independência a 1 de dezembro de 1640.

«O Paço Ducal representa um dos mais emblemáticos monumentos de Vila Viçosa», explica o site da autarquia de Vila Viçosa, que se refere aos «110 metros de comprimento da fachada de estilo maneirista, totalmente revestida a mármore da região».

Mármore esse que torna a região conhecida pelo mundo. No mesmo site da autarquia lê-se: «O magnífico mármore português chega a todo o Mundo, oriundo das pedreiras de Vila Viçosa, Borba e Estremoz. A sua qualidade superior permite a exploração desde o período romano.» E é esse mármore que torna o «palácio real um exemplar único na arquitetura civil portuguesa, onde estadiaram personalidades de grande projeção nacional e internacional», acrescenta o site.

Depois de ter sido residência permanente da nobreza, em 1640 tornou-se numa das habitações da família real espalhadas pelo reino. «Nos reinados de D. Luís e D. Carlos as visitas frequentes ao Paço Ducal são retomadas, assistindo-se, ao longo do século XIX, a obras de requalificação», lê-se ainda.

D. Carlos passava ali largas temporadas, organizando caçadas na Tapada Ducal para muitos dos seus amigos. Diz-se ainda que foi ali que o Rei D. Carlos dormiu a última noite antes de ser assassinado, a 1 de fevereiro de 1908. Aliás, ainda se preservam os aposentos do rei, como é possível ver, virtualmente, no site Evora.360portugal.

No site evora.360portugal.com é possível fazer uma visita virtual ao quarto do Rei D. Carlos.

Com a implantação da República, em 1910, o Paço Ducal é encerrado, abrindo depois – nos anos 40 do século XX – por vontade expressa em testamento de D. Manuel II, com a criação da Fundação da Casa de Bragança.

Anos e anos de história em que esta estrada acolheu reis e rainhas. Uma estrada real que esta segunda-feira abateu. Cerca de 100 metros da via foram engolidos. Lá no fundo uma pedreira, água e lama, e vários veículos arrastados. Até ao momento contam-se dois mortos e três desaparecidos.

A antiga estrada 255 que ruiu esta segunda-feira liga Borba e Vila Viçosa. (Imagem Google Maps)