Vinhos raros de Setúbal em leilão exclusivo

A José Maria da Fonseca promove, no próximo dia 25 de outubro, um leilão de vinhos raros, entre os quais cem garrafas de Moscatel Roxo de Setúbal Superior de 1918 e uma garrafa de Apothéose, uma das últimas da casta Bastardinho de Azeitão, que poderá chegar aos quatro milhares de euros. Derradeira oportunidade para degustar castas em extinção.

Texto de Marina Almeida

As inscrições estão abertas e não tardarão a esgotar. Há 70 lugares disponíveis nas caves da Casa Museu José Maria da Fonseca para o jantar seguido de leilão, por onde passarão vinhos muito raros, fruto de colheitas antigas desta casa centenária Vila Nogueira de Azeitão, em Setúbal. “São leilões e lotes bastante disputados”, que podem facilmente chegar aos vários milhares de euros, admite o administrador António Maria Soares Franco. Frequentados por colecionadores nacionais e estrangeiros e donos de garrafeiras, recebem ainda licitações de clientes estrangeiros por telefone.

António Maria Soares Franco pertence à sétima geração da família que está à frente da José Maria da Fonseca. “Escolhemos estas cem garrafas de Moscatel roxo para celebrar os cem anos do vinho e os cem anos do nascimento do meu avô Fernando Soares Franco, que se fosse vivo faria agora cem anos. Foi ele que salvou a casta moscatel roxo de Setúbal da extinção, e por isso escolhemos um vinho de moscatel roxo do ano dele para ir a leilão”, contou à DN Ócio.

São cem garrafas de moscatel roxo de Setúbal distribuídas por 35 lotes, todos diferentes, a que se juntam outras preciosidades: “temos outros vinhos muito raros para comporem os lotes do leilão, incluindo uma garrafa de vinho [moscatel] Torna Viagem, que são vinhos muito famosos da José Maria da Fonseca do século XIX, e um outro vinho, de que apenas vamos produzir apenas de 20 litros, que é o Apothéose, um Bastardinho de Azeitão, com bases de mais de 80 anos de idade. São os últimos stocks de Bastardinho de Azeitão e estamos com a expetativa de que essa garrafa também vá para valores muito elevados”, refere António Maria Soares Franco.

As vinhas da casta Bastardinho de Azeitão existiam entre a Costa da Caparica e o Lavradio “tendo sido arrancadas devido ao crescimento urbanístico”, escreve no site da empresa Domingos Soares Franco, enólogo e filho de Fernando Soares Franco. “Em 1983 foi-nos entregue a última tonelada de uvas provenientes de uma vinha com cerca de 90 anos, cujas uvas tinham um potencial de álcool provável de 18º”, diz o especialista, frisando que “este vinho deve ser apreciado com grande rigor e solenidade, pois são os últimos 2300 litros”.

Uma garrafa deste vinho com 40 anos custa 297,50 euros na Garrafeira Nacional. A que vai leilão em outubro tem o dobro da idade. “Eu acho que vai [chegar] a mais de três/quatro mil euros”, vaticina António Maria Soares Franco. Já os moscatéis, cada garrafa alcançará as centenas de euros – uma previsão que, para já, é difícil de fazer.

Interesse estrangeiro

Os leilões da José Maria da Fonseca são procurados por colecionadores e donos de garrafeiras, um público “muito interessado”. Ainda há lugares vagos para o jantar (custa 60 euros por pessoa), mas grande parte da sala está já reservada até porque esta é uma “oportunidade única”. O interesse estende-se a colecionadores estrangeiros, que vão estar, quer na sala, quer ao telefone, a licitar.

António Maria Soares Franco admite que o Moscatel de Setúbal não é dos vinhos portugueses mas conhecidos internacionalmente, mas há quem reconheça o seu valor: “o Moscatel de Setúbal é, tal como o Vinho do Porto e o Vinho da Madeira, um dos grande vinhos fortificados portugueses. Dos três é o menos conhecido fora de Portugal, ainda assim muitos colecionadores especializados nesta área sabem bem o que é o moscatel de Setúbal da José Maria da Fonseca e, portanto, há sempre um grupo de pessoas interessado, que mostram sempre grande interesse por estes vinhos e por estes leilões”.

Este é o quarto leilão de vinhos promovido pela José Maria da Fonseca na última década. Os vinhos que envelhecem na Adega dos Teares Velhos voltaram a ser leiloados em 2008, depois de um interregno de décadas. Iniciados no século XIX, os leilões da casa de Azeitão realizaram-se de forma regular até à primeira metade do século XX.

O leilão de 25 de outubro será feito pela leiloeira lisboeta Palácio do Correio Velho, que deverá definir a base de licitação de cada um dos 35 lotes.