O maior cruzeiro residencial do mundo está em Lisboa

Não, não é um cruzeiro. No The World, que chegou esta segunda-feira ao terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia, há 165 apartamentos (o mais pequeno tem 290 metros quadrados e custou 1,5 milhões de euros), uma garrafeira com 16 mil garrafas e palestras com prémios Nobel. Não é para todos: os residentes passaram por um restrito processo de seleção.

Por Marina Almeida

É um condomínio de luxo sobre as águas. Chama-se The World, é o maior iate residencial do mundo – e um dos locais com o metro quadrado mais caro do planeta. Ali navegam 142 famílias de 19 países, cerca de 200 pessoas a que se junta um staff de 280 tripulantes prontos a satisfazer todos os pedidos desta comunidade exclusiva.

Esta é a 13ª escala do The World em Lisboa, de onde saiu a viagem inaugural em 2002. O iate está a fazer uma rota até Tromso, na Noruega. A partir daqui fará uma expedição de onze dias no arquipélago das Svalbard. Depois volta a descer o continente, com nova passagem por portos portugueses (Portimão e Funchal), banhando-se no Mediterrâneo antes de descer a costa africana a tempo de fazer a passagem de ano na Cidade do Cabo. No final do ano o barco deverá ter percorrido 40 mil milhas náuticas e acostado em 120 portos de 30 países: «Ao contrário da maioria dos navios, The World passa duas vezes mais tempo em portos do que no mar. A cada poucos dias os residentes podem acordar e olhar pela janela para um novo e excitante porto de escala», refere a ROW Management, com sede na Florida, companhia responsável pela gestão do gigante de luxo sobre as águas.

Na viagem inaugural, em 2002, em Lisboa (foto: arquivo DN)

A discrição é a chave do condomínio aquático, onde metade dos residentes são oriundos da América do Norte e 36% são europeus. Esta comunidade internacional unida no The World, é chamada a tomar as decisões sobre a rota do barco. Todas as viagens são decididas através de voto residentes, com três anos de antecedência – afinal, são eles que escolhem para onde querem levar as casas. Feita a escolha, inicia-se um longo processo de fechar o itinerário e encontrar os fornecedores capazes de responder às mais exclusivas exigências. Entre os atrativos do iate, encontram-se as expedições a locais recônditos do planeta. Estes viajantes são especiais não só porque são milionários e vivem em casas no mar, mas também porque têm acesso a experiências únicas e exclusivas. Por exemplo, em 2012 o The World foi o maior barco de passageiros a percorrer a passagem do Nordeste, a rota marítima que liga a Europa à Ásia no Ártico descoberta em 1911 por Roald Amundsen.

Também as palestras a bordo com prémios Nobel fazem parte da ementa de luxo da vida a bordo desde 2017. Em agosto, será a vez de Edvard Ingjald Moser, nobel da Medicina 2014, falar aos visitantes e residentes do iate-casa.

Os residentes que alimentam um blogue do The World, levantando ao de leve a ponta do véu da vida a bordo. Assinam com iniciais ou abreviaturas e partilham o que vêm como um qualquer turista entusiasmado. Por exemplo, alguém que assina Mary P. escrevia em abril, numa saída do barco em Cabo Frio, no Brasil: «Apesar de estarmos de ténis, t-shirts e calções, estávamos mal vestidos para ir à praia. Os brasileiros, por seu lado, usam o menos possível na praia. Os biquínis tanga não deixam muito lugar para a imaginação». A turista do The World anotou ainda: «Suspeitamos que teremos excelente peixe ao jantar porque vimos os nossos chefes às compras».

30 mil euros de alimentação

Entre a oferta do The World, para além de spa, ginásio, piscinas, court de ténis, sala de pilates e uma garrafeira com 16 mil garrafas, encontram-se seis restaurantes, cuja ementa pode variar em função dos locais de escala. Ou não – os gostos, desejos e exigências de cada passageiro estão catalogados para que nada falhe. Dos 700 mil euros anuais pagos por passageiro para manutenção do barco, cerca de 30 mil serão gastos em alimentação. Esta verba inclui qualquer evento especial que o morador queira fazer. Como o jantar indiano que o norte-americano Richard Edwards e a mulher deram na sua casa numa travessia do Atlântico, de Cabo Verde para o Brasil. Nada foi deixado ao acaso, começando pelo menu («temos três chefes a bordo de regiões diferentes da Índia»), passando por toda a decoração e pelos empregados indianos que serviram a refeição, vestidos a rigor. No blogue Where in the world is Riccardo? o fotógrafo, que está atualmente em terra, nos EUA, vai contando as suas viagens, mas escusa-se a falar-nos sobre a vida a bordo, mantendo a reserva sobre os rituais dos passageiros milionários.

Levar a casa ao mundo

Idealizado por Knut Kloster Jr., filho de um armador norueguês, o iate residencial foi pensado para «criar uma forma de os viajantes nunca terem de desembarcar. Podem viajar durante o tempo que desejarem no conforto da sua própria casa», refere a ROW Management. Desenhado pela dupla de arquitetos Petter Yran e Bjørn Storbraaten, The World foi construído em Rissa, Noruega, entre 2000 e 2002. Em 2006, os 165 apartamentos ficaram todos vendidos. Têm áreas entre os 299 e os 3500 metros quadrados e terão custado entre 1,5 e 13 milhões de euros. A Bloomberg estima que a bordo se pratiquem dos valores por metro quadrado mais altos do mundo.

Atualmente está uma penthouse para venda. A Ocean Residence, de 388 metros quadrados, localiza-se no deck 11 e foi totalmente remodelada. Tem três suites, duas zonas comuns, uma sala de media e «seis casas de banho e meia». Está à venda por 9 milhões de euros. Se ficou tentado, atenção: processo de seleção dos habitantes do iate passa por fazer prova de uma fortuna de pelo menos dez milhões de Euros e ter recomendação de dois residentes.

A maioria dos viajantes do The World passa temporadas no barco (três meses, em média) mas há quem navegue o ano inteiro. A média de idades são 62 anos, alguns ainda estão profissionalmente ativos.

Hoje acordaram em Lisboa.