Um festival na Madeira com 10 estrelas Michelin

O que acontece quando 8 chefs com estrelas Michelin cozinham juntos? Relato de uma festa na piscina e outra no restaurante William, os dois no Hotel Belmond Reid’s, na Madeira, ou seja, relato de um fim-de-semana inesquecível.

Texto de Carla Macedo | Fotografias de Hélder Santos

Os oito chefs, todos com estrelas Michelin, juntos na piscina do Hotel Belmod Reid’s, na Madeira, não estão em calções de banho. As jalecas que vestem denunciam a intenção do encontro: estão ali em trabalho para o The Art of Flavours, o festival gastronómico do Reid’s que decorreu pela primeira vez entre 8 e 10 de junho, no Funchal.

O ambiente é de festa mas estes oito cozinheiros, entre os mais reputados da Europa, estão no jardim, junto às bancadas, em serviço – empratam e explicam as composições aos clientes que fazem filas (pequenas) para provarem os pratos escolhidos para apresentar a sua arte gastronómica.

A lotação de 240 pessoas deste jantar volante foi rapidamente esgotada através das reservas. Os 140 euros de entrada para esta noite de 9 de junho não pareceram caros à alta sociedade funchalense que acorreu em peso ao evento. A compra do bilhete mostrou-se ser um bom negócio: experimentar um prato de cada um dos chefs vindos da Bélgica, de Itália, de Espanha e de Portugal, compondo na verdade um menu degustação de alta cozinha, por um valor mais acessível do que têm as refeições nos seus restaurantes de origem.

Os residentes do Reid’s também jantam

Russel e Kate, residentes temporários do Hotel Reid’s (estão a fazer uma breve pausa numa viagem de iate que se iniciou no Reino Unido e que só terminará daqui a um ano), também compraram os bilhetes para o jantar no jardim e não podiam estar mais satisfeitos. O ex-produtor de programas de televisão no Reino Unido comprou as entradas durante a tarde e no final da noite está radiante pela experiência – e talvez um pouco alegre. Conta-nos que além das provas gastronómicas ficou encantado com o vinho da Madeira: “Cheguei àquela bancada e disse que não percebia nada destes vinhos. Puseram-me quatro copos à frente. Depois puseram-me mais quatro copos e provei de tudo! Agora sei tudo sobre o vinho da Madeira.” Missão cumprida ou pelo menos em parte.

Os jardins do Reid’s receberam os hóspedes do hotel e a alta sociedade funchalense, na primeira edição do festival gastronómico The Art of Flavours

The Art of Flavours nasceu para dar a conhecer a Madeira e, em particular, o hotel onde se realiza o festival, como destinos gastronómicos ao estrangeiro. Os vinhos são uma peça do puzzle que as entidades locais estão a tentar construir sobre um território há muito explorado pelo turismo mas com uma conotação geriátrica ainda difícil de se descolar do Funchal. O hotel Reid’s, hoje pertencente à cadeia internacional Belmond, sofre exatamente do mesmo problema: aberto ao público em 1891, frequentado pelas elites mundiais que incluíram quase todos os reis e rainhas da Europa, os políticos e as estrelas de cultura, granjeia de uma fama de classe e exclusividade que acaba por significar mais ou menos o mesmo: durante anos foi um hotel para velhinhos abastados.

Ciriaco Campus, Diretor Geral do Reid’s há quatro anos, é um dos atores centrais da mudança que o Reid’s está a operar. É ele que mantém o difícil equilíbrio entre as tradições do hotel centenário e a captação do público jovem – que no caso significa abaixo dos 60 anos. Quando trocou as chaves de ferro pelos cartões magnéticos para abrir das portas dos quartos, deixou que os clientes mais antigos levassem as chaves dos seus aposentos habituais para casa; manteve as cartas escritas à mão para dar as boas-vindas aos hóspedes e todas as segundas-feiras dá um cocktail em que faz questão de cumprimentar todos os hóspedes do hotel. A par dos protocolos que parecem de outros tempos – mas que os mais jovens demonstram apreciar – está a desenvolver uma série de iniciativas que colocam o Reid’s na linha da frente dos hotéis mais luxuosos e atualizados da Madeira e de que a estrela Michelin conseguida pelo restaurante William sob a direção do chef Luís Pestana, em 2016, é o momento mais marcante.

Um festival gastronómico com duas noites de luxo

O festival The Art of Flavours é a mais recente iniciativa do Hotel Belmond Reid’s, da Madeira, dentro desta estratégia de captação de novos clientes que se quer a longo prazo – tanto que a 2ª edição já está marcada para os dias 15 e 16 de junho de 2019. Luís Pestana, que tem o título do primeiro chef nascido e criado no arquipélago a conseguir uma estrela Michelin comandou esta brigada de luxo que incluiu Ricardo Costa, do restaurante The Yeatman, Porto, (2 estrelas Michelin), Michel Van der Kroft, restaurante ‘t Nonnetje, Holanda, (2 estrelas Michelin), Joachim Koerper, do restaurante Eleven, Lisboa (1 estrela Michelin), Vítor Matos, Antiqvuum, Porto (1 estrela Michelin), Pedro Lemos, Pedro Lemos Restaurante, Porto (1 estrela Michelin), Sergi Arola, Lab, Sintra (1 estrela Michelin), Davide Bisetto, Oro, Veneza (1 estrela Michelin). Veja na galeria os chefs presentes e os pratos que apresentaram.

Vaca Velha é o nome deste prato apresentado por Pedro Lemos que granjeou o consenso do público como um dos melhores do evento.

Na primeira noite do encontro a festa decorre no jardim e os chefs preparam porções pequenas de pratos muito, muito, grandes em sabor. Unanimemente, todas as pessoas que ouvimos destacaram a Vaca Velha oferecida por Pedro Lemos. O chef portuense explica: “é uma vaca com 11 ou 12 anos, que já trabalhou e que deixa de servir para os campos.” Afirma depois que “a vantagem é o sabor” que, segundo o cozinheiro, é aumentado pela idade, pela variedade de alimentação dos animais e pela atividade física que terão feito ao longo da vida. A Vaca Velha foi servida depois de 7 dias a marinar e 24 horas a assar em fumeiro.

Ricardo Costa optou uma combinação mais difícil para o público que se poderia chamar choco mais choco mais choco, mas que se chamava simplesmente Chocos. O prato continha chocos salteados, noodles de chocos, caldo de chocos e, enquanto esperávamos que o chef nos servisse podíamos trincar bolachas de choco e tapioca como fossem batatas fritas. O conjunto, a nosso ver, estava ao melhore nível. Apesar disso e das duas estrelas Michelin que o Yeatman ostenta, Ricardo Costa diz que ainda se sente “tão pequenino ao pé deles” dos colegas presentes no evento.

Luís Pestana, aos comandos do fogão e da noite, afirma que a maior preocupação foi conseguir “a harmonia entre as iguarias apresentadas” por todos os chefes, pensado o menu como um conjunto para que, no final, a sensação de estar perante um menu degustação equilibrado se tornasse real, o que de facto aconteceu. Mas afirma que “não quero que que façam uma coisa diferente da filosofia de cozinha deles”, afinal “este festival é para o público, para que possam provar na Madeira, o que poderiam provar nos restaurantes deles”. Honrar os produtos da Madeira é uma preocupação de Luís Pestana e foi por isso que, nesta noite, apresentou uma Vieira com fusão de produtos madeirenses entre os quais: as lapas, as ovas, o funcho e o bobocate.

O festival fecha as portas, na primeira noite, à meia-noite em ponto, obedecendo a uma pontualidade britânica. O contentamento é evidente nos convivas que saem lentamente do encontro gastronómico, com um sorriso nos lábios, e comentando que “a música da dj Yen Sung e a plataforma na piscina estavam incríveis” que o fogo-de-artifício foi “lindo” e que a oferta de vinhos “muito boa”.

A dj Yen Sung pôs música durante a noite, numa plataforma flutuante montada numa das piscinas do hotel

Jantar no William com serviço de excelência

Um dia depois é hora de voltar a comer, mas agora sentados à mesa, com um serviço de exceção, A sala não enche mas quase, para um jantar de excelência no valor de 200 euros. O restaurante William, um dos dois restaurantes com estrelas Michelin no arquipélago, é o palco de um desfile de pratos dos mesmos grandes chefs em que, desta vez, não é possível escolher receitas para o pódio.

Os 10 jornalistas, influencers e PRs de diferentes nacionalidades não chegam a um consenso A Espuma de Batata com Caviar e Foie Gras, de Sergi Arola, cheira a comida de casa mas sabe a uma extraordinária experiência gastronómica, o polémico Bosque de Vítor Matos é polémico porque é de pombo mas a carne macia e as espumas que o envolvem são de ir às lágrimas e o Wagyu com Trufa do anfitrião, apesar de ser o oitavo prato da degustação, é tão bom que desejamos quase todos que fosse maior.

A sobremesa de Pedro Campas, chef pasteleiro do Reid’s, fechou o jantar de oito pratos deliciosos e não ficou atrás em qualidade

Comentário em concórdia, feito já depois do jantar, na varanda do Reid’s com vista para a baía do Funchal, é que a qualidade da refeição foi tão estupenda que, apesar da quantidade de pratos, a que se acrescentou uma sobremesa deliciosa de Pedro Campas, ninguém se sentiu a absurdamente cheio. Resultado: marcamos encontro para 2019, para os dias 15 e 16 de junho, data quem que se vai realizar The Art of Flavors, pela segunda vez.