Surf: há 41 anos a servir gelados aos lisboetas

Fundada por uma família de retornados de Cabinda, após o 25 de Abril, e fiel desde o primeiro dia à tradição dos gelados à italiana, a Surf, apesar de não estar numa zona turística da cidade, mantém-se em atividade há mais de quatro décadas graças a uma clientela fiel e com muitas histórias para contar.

Texto de Pedro Sousa Tavares | Fotografias Filipe Pombo (Global Imagens)

Luís e Baião e Virgínia Infante estão sentados numa mesa recolhida da Surf, na Avenida Manuel da Maia, a cumprir um ritual semanal de quase três décadas: comer um gelado de duas bolas, no copo. “É uma questão de hábito. Um hábito de 28 anos“, conta ele.

Começaram a frequentar aquele espaço “com os amigos”, em 1990, quando eram ambos estudantes de Engenharia Mecânica, no Instituto Superior Técnico. Já namorados, continuaram a fazer daquele um dos seus pontos de encontro. Formaram-se, casaram-se e continuaram a aparecer. “Eu trabalho aqui, no Instituto Superior Técnico, o meu marido trabalha na Avenida Pasteur. Não há muita concorrência na zona. E gostamos de gelados, claro”, assume Virgínia.

A funcionar sem interrupções há 41 anos, a Geladaria Surf, uma das mais antigas de Lisboa, está cheia de histórias como esta. Estêvão Martins, advogado, ainda se lembra do primeiro dia em que lá entrou, pouco após a abertura, em 1978. “Ainda era estudante e tinha começado a namorar com uma rapariga um bocado mais nova do que eu. Fui lá com uns colegas de faculdade e, de repente, ela apareceu também. Lembro-me de que ficámos os dois meio embaraçados.”

O namoro durou uns cinco anos, mas não deu em casamento. Em contrapartida, nasceu a amizade com o gerente, Mário Simões, que continua a cultivar, apesar de a vida profissional o ter levado para outras paragens de Lisboa e de já só “muito raramente” saborear um gelado.

A esmagadora maioria da clientela, numa zona de Lisboa onde os turistas continuam a ser raros, é composta de portugueses, moradores ou trabalhadores na zona.

E depois há José Pereira, que trabalha “há uns dez anos” na zona e que vai lá diariamente “mais para o café”. Mas que, de vez em quando, como naquela tarde, leva lá a filha Matilde, de 11 anos, que ainda não se conseguiu decidir sobre qual o gelado favorito, o que é compreensível dado ter à escolha cerca de cem sabores.

A esmagadora maioria da clientela, numa zona de Lisboa onde os turistas continuam a ser raros, é composta de portugueses, moradores ou trabalhadores na zona. Alguns, diz Mário Simões com orgulho, habituais na casa desde há várias gerações. “Temos clientes que começaram a vir para cá ainda novos e que hoje trazem os netos”, conta. Segredos para esta relação de fidelidade, garante, “só há um: manter a qualidade, tentar servir o melhor possível, tentar atender o melhor possível”.

Aos 81 anos, e apesar de já há bastante tempo ter uma gerente a controlar o dia-a-dia do negócio, Mário Simões já leva mais de meia vida dedicada à Surf. E entre os seus rituais consta obrigatoriamente a verificação de qualidade na primeira pessoa: “Todos os dias, depois do almoço, como um cone de duas bolas.”

Curiosamente, este negócio não nasceu de uma vocação particular para a área da restauração, nem de uma tradição familiar, mas de uma necessidade de refazer a vida. Natural de Cabinda, onde a família vivia há mais de 50 anos, Mário Simões veio para Portugal com a descolonização, e rapidamente percebeu que teria de mudar de área para sobreviver.

“O meu pai era um dos despachantes oficiais mais antigos de Cabinda. O meu irmão mais velho também entrou na profissão. Eu, que era o mais novo, também andei lá um ano, mas quando voltei já não dava. Com mulher e dois filhos, tive de ir à procura de outra coisa.”

Alguns ingredientes continuam a ser importados de Itália

Por essa altura começava a surgir em Lisboa uma nova geração de estabelecimentos, “mais modernos”, e Mário Rui e um primo da mulher começaram “a visitar vários sítios” em busca de inspiração para um negócio. Uma geladaria então recém-aberta na Avenida das Forças Armadas, a Pindô – também ainda hoje em atividade -, chamou-lhes a atenção. “Acabou por ser a nossa inspiração para este espaço.”

Não sabiam muito do negócio mas não quiseram deixar nada ao acaso. As primeiras duas mestres de gelados da casa – “a minha sogra e uma tia da minha mulher” – foram treinadas “por um técnico italiano, que esteve um mês connosco para abrir a loja”.

As técnicas aprendidas, passadas de geração em geração, continuam a ser seguidas à risca. E os gelados continuam a ser todos feitos na loja, “seguindo os métodos tradicionais”. Naquela tarde, na zona de fabrico instalada na cave, uma técnica angolana ocupa-se a produzir alguns dos sabores que em breve serão servidos aos clientes lá em cima: “É de Cabinda, da minha terra”, conta.

Os ingredientes, muitos deles, continuam também a ser importados de Itália. Manter a tradição. Tudo se resume a isso. Nos invernos “há uma grande quebra na clientela e torna-se difícil manter o pessoal todo a tempo inteiro”.

E mesmo nos meses melhores, a partir de abril, imponderáveis como os dias de sol e de calor podem fazer uma grande diferença no balanço anual. Mas, no final de contas, os clientes fiéis voltam sempre. “Abrimos portas no dia 11 de janeiro de 1978. E cá estamos.”