Boémio e cosmopolita: assim é o novo restaurante do Bairro Alto Hotel

Para lá da curiosidade que uma renovação provoca, a reabertura do Bairro Alto Hotel traz consigo uma novidade a ter em conta para a vida gastronómica de Lisboa: BAHR, o novo restaurante pelas mãos do chef Nuno Mendes.

Texto de Filipe Gil

Os portugueses não têm por hábito frequentar restaurantes de hotel. Sem contar com o Natal e a Páscoa, contam-se pelos dedos de uma mão a escolha, se tanto. Mas este “não hábito” pode vir a mudar nos próximos tempos. Sobretudo porque há cada vez mais hotéis a apostar no trabalho de chefs, e porque estes, por sua vez, vêm ali uma possibilidade de desenvolver os seus projetos concentrando-se mais na comida do que na folha de Excel.

Essa parece ter sido a estratégia dos proprietários do cinco estrelas Bairro Alto Hotel. Foram buscar um lisboeta a Londres: o chef Nuno Mendes. Na capital britânica há 15 anos, e por onde já ganhou estrelas Michelin – a mais recente atribuída ao seu projeto “Mãos”, restaurante de uma única mesa que abriu há pouco mais de um ano. Mendes apesar de continuar em Londres, no “Mãos” e na cozinha do também londrino “Chiltern Firehouse”, é desde meados do ano diretor criativo da comida e bebida servida no hotel no centro de Lisboa.

Não criou e desenvolveu apenas a carta do restaurante “BAHR” como também o buffet de pequeno-almoço, as refeições mais leves do “Mezanine”, espaço criado com as novas obras do hotel, e toda a pastelaria com porta aberta para a Rua do Alecrim. Mas ainda há mais. Prestes a abrir, o bistrô “18.68”, localizado no antigo quartel dos bombeiros do Largo Barão de Quintela.
Nuno Mendes é secundado pelo chef Bruno Rocha, o chef executivo do hotel, que passou pelo “Sheraton “Pine Cliffs”, em Albufeira, pelo “Vila Vita” e “Tivoli Vitória”.

O chef português no “Mãos” restaurante em Londres que recentemente recebeu uma estrela Michelin. (Fotografia de José Sarmento Matos)

O mundo que Lisboa tem

“Para mim é muito importante em vez de mostrar o mundo a Lisboa, mostrar Lisboa ao mundo. O menu é baseado nisso, em mostrar o produto português e a técnica portuguesa”, disse Nuno Mendes ao DN Ócio em julho deste ano. Entrevistado na altura que preparava em conjunto com a equipa o que hoje podemos comer e beber nos espaços do hotel.

Na mesma na altura Nuno Mendes disse que o objetivo era o de criar um “restaurante boémio, divertido”. E se avaliarmos o atendimento e a comida conseguiu. O restaurante apesar de despretensioso tem detalhes na decoração ajuda à perceção de estarmos no local certo, familiar mas ao mesmo tempo novo e agradável. O atendimento simpático, amistoso e bastante profissional, sem os exageros que vemos surgir noutros locais. Com estas opções e apesar de querer o contrário, Nuno Mendes não deixa de dar mundo a Lisboa.

A decoração de interiores de todo o hotel, espaço do restaurante inclusivé, é da responsáabilidade do atelier Bastir.

Na visita que o DN Ócio fez ao local, no 5º piso do Bairro Alto Hotel, o bar que antecede o restaurante estava repleto de turistas. E mesmo no longo balcão branco que serve de bar eram alguns os que jantavam acompanhando a refeição com alguns dos cocktails preparados ali mesmo.

Presa de porco preto alentejano com puré de ervas e bivalves que também pode ser servido no balcão do bar que antecede o espaço do restaurante BAHR.

O espaço do restaurante, que é o mesmo onde é servido o pequeno-almoço à carta, tem vista para a ampla cozinha que só é separada das mesas por outro balcão no qual os pratos repousam por segundos para o toque final do chef. A renovação do hotel, espaço do restaurante inclusive, foi criada pelo arquiteto Eduardo Souto Moura e a decoração de interiores pelo atelier Bastir.

Na noite da visita estava Nuno Dinis Ferreira, sub chef executivo que fez questão de nos explicar os pratos que foram servidos ao longo da noite.

(Da esquerda para a direita) Equipa que lidera o BAHR: Chef Bruno Rocha, Chef Nuno Mendes, Maria Ramos, chef de Pastelaria e Nuno Dinis Ferreria sub chef Executivo.

A experiência

O “divertimento” começou com um surpresa agradável, um rosé dos Açores “Rosé Vulcânico” de 2018 para acompanhar os snacks, como são apresentados na carta: Tosta de Percebes fumado (9€) e rissóis de camarão (6€). Uma boa introdução que reaviva sabores conhecidos com detalhes diferentes.

Percebes fumados, um dos snacks da carta do restaurante do Bairro Alto Hotel.

E uma das melhores surpresas da refeição veio logo nas entradas, a Lula Grelhada com feijão verde, grelos e algas (17€) – que merece revisitação ou, como dica, a acompanhar um copo do rosé açoriano como almoço ligeiro ao balcão. Outra das entradas que se destacaram: os cogumelos de coentrada e nabos (13€).

Lula Grelhada com feijão verde, grelos e algas é já uma das entradas mais pedidas, segundo o staff do restaurante.

Nos pratos principais, o prato que, de todos os provados, é talvez o mais sinónimo da cozinha de Nuno Mendes: Pregado Selvagem com Caldo Verde (28€). Neste prato não há dúvidas é o mundo que descobre Lisboa e o resto de Portugal. Acompanhado por um branco de 2017 da Bairrada: “Giz” de Luís Gomes.

No prato de carne, o escolhido recaiu para a presa de porco preto alentejano com puré de ervas e bivalves (24€) acompanhado com cenouras assadas de conserva (9€) e um tinto alentejano “Bombeira do Guadiana” de 2017. Excelente. Contudo no role de pratos provados durante a visita perdeu algum protagonismo para o pregado.
Para terminar – enquanto se continuava a falar com o sous-chef executivo sobre as Lulas e o prato de peixe – as sobremesas trouxeram à mesa chocolate, trigo sarraceno e avelãs (7€) e sorbet de batata doce e azeite “olmais”, acompanhados por “Vallado”, um old tawny de 20 anos

A carta tem 5 opções de sobremesas, entre as quais uma seleção de queijos nacionais.

O BAHR é mais uma nota de excelente comida e bons restaurantes que se podem agora encontrar no espaço entre o Bairro Alto e o Chiado. Depois da experiência gastronómica fica clara a pergunta: e para quando a estrela Michelin?

Ninguém assume a vontade ou objetivo. Nem o diretor do hotel, João Prista Bonhorst nem o próprio Nuno Mendes. “Se vier não vamos dizer que não, mas não é essa a ambição. O guia [Michelin] está a mudar bastante, está a ficar menos formal, está a aproximar-se do gosto quotidiano e do que as pessoas querem neste momento sentir quando vão comer fora, quando vão ter a experiência gastronómica”.E é isso que se tem no BAHR. Uma experiência diferente e com mundo.