O escanção português que aconselhou vinhos a Bush

Já aconselhou vinhos a George Bush, Mário Soares, Jorge Sampaio, ou Ramalho Eanes. José Peixoto foi o primeiro escanção português a servir vinho a copo, à revelia do patrão na altura. Hoje, é o responsável por cuidar da carta de bebidas do Stairwell, em Lisboa. Se servisse um vinho a Cristiano Ronaldo, não hesita, seria um Terrantez madeirense. E justifica-se: «Já diz o ditado que as uvas Terrantez, nem as comas, nem as dês, porque para vinho Deus as fez.»

Texto de Patrícia Tadeia | Fotografias de Álvaro Isidoro/Global Imagens

Desde miúdo que pisava uvas em Paradança, Mondim de Bastos. O pai tinha um pequeno terreno, em que produzia vinho verde. «Pertencia a uma família modesta, mas nunca tive de partilhar uma sardinha», explica. O terreno ainda hoje existe, mas José Peixoto confessa: «Ainda produzimos vinho, mas apenas para consumo familiar

Por terras entre o Douro e Minho, José começou a trabalhar cedo. «O meu primeiro salário foi no verão quando terminei a 4.ª classe, como resineiro. Trabalhava ‘à jorna’, ou seja, quanto mais resina apanhasse mais ganhava», recorda.

Aos 13 anos, «fugiu» da localidade com cerca de 300 habitantes para Lisboa, mais precisamente Cascais. Estava a fugir também ao seminário: «Tinha acabado de fazer 13 anos, e queriam pôr-me no Seminário de Vila Real. Achei que não ia ser um bom padre, e optei por vir para Lisboa onde tinha duas irmãs e alguns primos.»

José Peixoto é um especialista em vinhos com mais de 30 anos de experiência.

Assim começou uma aventura que espelhava uma paixão antiga. Começou no Hotel Cidadela, em Cascais, como mandeirete, dando apoio à receção. Mas o dinheiro não chegava, e acabou por ser transferido para o restaurante, como ajudante de vinhos. «Existia muito pouco a palavra escanção ou sommelier, como se diz agora. Existia o chefe de vinhos. E eu fui para ajudante, não sabia absolutamente nada», confessa.

Não sabia, mas foi aprendendo. E aos 18 anos, quando já lhe era permitido tirar um curso profissional, entrou na Escola de Hotelaria: «Tirei o curso de empregado de mesa de primeira, onde comecei a ter as primeiras provas de vinhos.»

Desde o primeiro curso já lá vão 37 anos. Depois desses, muitos outros se seguiram O curso de escanção e várias formações na área. «Foi uma paixão enorme», admite. Depois da tropa, trabalhou no Chester, no Penha Longa, ou no já fechado Mónaco – restaurante que teve o seu auge nos anos 60, mas que na década de 90 quando reabriu ainda recebia muitos artistas e políticos.

Trabalhou no Chester, em Lisboa, no Mónaco, em Caxias, e no Penha Longa, em Sintra, entre outros locais.

Foi por lá que José privou com George Bush, Mário Soares, Ramalho Eanes, Francisco Sá Carneiro. «No Chester, que era um ‘steakhouse’ inglês, recebíamos aos almoços os maiores políticos que existiam. Quando tínhamos uma senhora na sala era uma flor no deserto [risos]», recorda. «No Penha Longa recebi o presidente mundial da Phonogram. Nessa noite houve champanhe, vinho do porto, houve de tudo».

Com mais de 30 anos de experiência, a quem gostava José Peixoto de aconselhar um vinho? «Ao Cristiano Ronaldo. O que lhe aconselhava? Se fosse na sobremesa, era fácil, ele ia gostar de um Terrantez madeirense que ‘as uvas, nem as comas nem as dês, porque para vinho Deus as fez’, como diz o ditado. Mas iria conversar com ele primeiro, nunca imponho nada, primeiro percebo o que querem. Muitas pessoas me perguntam qual é o melhor vinho para a carne ou peixe. Aí eu pergunto ‘qual o vinho que lhe apetece? A carne não bebe vinho, o peixe também não. Quem o vai beber somos nós’», explica enquanto exibe a Tambuladeira que traz ao peito. Trata-se do símbolo da profissão, um objeto de metal, em forma de concha, com alguns elementos em relevo, que permite avaliar a cor, transparência e densidade do vinho.

É no Stairwell, um Wine Bar & Creative Foods localizado no Chiado, que nos recebe. Ali tem à sua disposição mais de 130 vinhos, trazidos das caves do Porto de Santa Maria, o famoso restaurante do Guincho, que conta com uma cave com mais de 20 mil garrafas.

«Conheci o Rodrigo [Sáragga, proprietário] porque ele fazia parte da turma que eu lecionava e eu não sabia. Um dia pediu para falar comigo e lançou-me o desafio de vir para aqui. Os vinhos que trazemos são escolhidos de acordo com a carta. Uns mais antigos, que outros, vamos fazendo sempre a interligação com a carta», diz José.

Da carta do Stairwell, onde está atualmente, figuram 130 vinhos portugueses, de norte a sul do país.

Ao longo de todos estes anos, já lhe passaram pelas mãos milhares de garrafas. Algumas a custar mais de 5 mil euros. «Os vinhos mais caros foram provavelmente o Chateau d’Yquem, o Château Lafite, ou o Château Latour Grad Cru. Qualquer um destes com certeza, à época, que ainda era em contos, custaria uns 4 a 5 mil euros», avança.

José foi também um homem à frente do seu tempo. Servia vinho a copo quando ainda não se falava disso. Por ali, no Stairwell, entre Portos e vinhos, há 30 amostras a copo. José destaca dois ícones: «o Pera Manca Branco e Tinto a copo, e um grande vinho do Douro reserva Ferreirinha Especial».

E claro que uma conversa sobre vinho acaba com um brinde. E com a apologia do mesmo. Afinal, Portugal está nos lugares de topo mundial no consumo de vinho per capita. «O vinho deve ser consumido de uma forma boa, nutritiva. Porque tem muitas caraterísticas que o nosso organismo necessita. É saudável», conclui.