Nada mudou na Cervejaria Trindade. E isso é bom

Antes de Lisboa entrar na moda, antes de abrir um restaurante novo a cada semana, os lisboetas, e alguns turistas, tinham os seus pontos de referência na cidade que frequentavam assiduamente. A cervejaria Trindade era um deles. Contudo, agora, com toda a verve que existe na cidade, a “Trindade” continua a ser um ponto de passagem quase obrigatório para estrangeiros e locais. O segredo do sucesso? Talvez porque nada, ou muito pouco, mudou.

Texto de Filipe Gil / Fotografias de João Silva/Global Imagens

Amigos, famílias, grupos de estudantes universitários, reuniões políticas ou de negócios. Este é o típico cliente da cervejaria Trindade desde há anos, um dos restaurantes mais antigos de Lisboa que, mesmo com a chegada de novos restaurantes, de cozinha de autor e da nova “movida” gastronómica lisboeta, não perdeu a importância na vida da cidade.

O sucesso da receita talvez seja a razão para as poucas alterações que existiram no espaço. Melhor luz do que há uns anos, para mostrar melhor os azulejos históricos de inspiração maçónica que tanta curiosidade geram nos turistas. E, claro, quem lá vai sente uma simpatia por parte dos empregados que simplesmente não existia outrora.

O balcão na entrada do restaurante continua a servir refeições e cerveja. A cervejaria Trindade teve um dos primeiros balcões de venda de cerveja de Lisboa, por volta de 1840. (Fotografia João Silva/Global Imagens).

Em termos gastronómicos as mexidas ainda têm sido menores. O lugar-comum tão usado no futebol de “não se mexe em equipa que ganha” aqui ganha sentido. O bife da vazia com molho à Trindade está entre os bifes mais reconhecidos da cidade, e quem lá vai, pelos menos os clientes portugueses, dispensa ler as outras opções da carta.

De qualquer forma tem havido mexidas. Maria Carvalho Martins, responsável de comunicação da Portugália, no qual a cervejaria Trindade está incluída, assume alguns ajustes: “temos hoje uma maior aposta no marisco e no bacalhau e ter em conta alguns pedidos de comida vegetariana”. O turismo assim obriga. Aliás, tal como conta ao DN Ócio, “a Trindade está inserida na maior parte dos guias internacionais dedicados a Lisboa”. Daí ser natural ver grupos de estrangeiros a fazerem fila à porta da Trindade.

É bem patente o legado da Trindade com o edifício do Convento da Trindade onde em parte está instalado. Nas paredes, nos azulejos e até nas vestes de alguns dos empregados de mesa. (Fotografias de João Silva/Global Imagens)

A mais recente inovação da cervejaria vem daquilo que lhe dá o nome: a cerveja. Aliás, foi ali que esteve um dos primeiros balcões de venda de cerveja de Lisboa, por volta de 1840. Hoje, a panóplia de cerveja estende-se para lá da imperial ou da caneca – que em tempos chegaram a ser servidas em copos de alumínio – há cervejas artesanais, sazonais, etc.

Francisco Ramos, diretor da Hoppy House Brewing (HHB) Beatriz Rocha, brand manager da HHB, Maria Carvalho Martins, responsável da comunicação da Portugália (grupo a que a Cervejaria Trindade pertence) e o mestre cervejeiro da HHB, Diogo Vinagre. (Fotografias de João Silva/Global Imagens)

Aliás, está previsto a criação de uma micro cervejeira no edifício da Trindade, conta Francisco Ramos, diretor da Hoppy House Brewing, a cervejaria artesanal da Central de Cervejas. Tentativa de recuperar alguma da génese do edifício (que pertenceu ao Convento da Trindade) e que em 1836 albergava uma fábrica de cerveja e que em 1854 se tornou fornecedor oficial da Casa Real portuguesa. História não falta à cervejaria Trindade. E apesar das modas que vão e vem a Trindade pouco muda. E isso é bom.

A cervejaria conta ainda com uma esplanada mais frequentada nas dias e noites quentes. (Fotografias de João Silva/Global Imagens)