Mark Squires: “Os preços dos vinhos em Portugal são muito baixos”

Mark Squires, crítico de vinhos da Wine Advocate, especialista no mercado português (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Há 13 anos que Mark Squires é o responsável pelas provas da revista do guru dos vinhos Robert Parker em Portugal, a Wine Advocate. Esteve em junho todo o mês de junho em provas em Lisboa e no Porto e falou à DN Ócio, no final de um dia de trabalho numa das salas do Instituto da Vinha e do Vinho.

Entrevista de Marina Almeida

Veste um polo de cor escura, antes de sair para a rua há de tapar a careca com um boné. Tem o rosto redondo e uns óculos invisíveis. Tem 65 anos e há 13 que é o responsável pelas provas da revista do guru dos vinhos Robert Parker em Portugal. Passa um mês por ano em Portugal, em provas. Encontramo-lo no Instituto da Vinha e do Vinho, em Lisboa, onde esteve depois de uma temporada no Porto. Conta chegar ao fim de junho com 900 notas de prova, que saem do copo para a cloud da Wine Advocate, a revista norte-americana que é uma das grandes influenciadoras do consumo de vinho a nível mundial. Mark Squires estava a uma semana de terminar o seu ritual anual, num país de “obcecado por vinho”.

Como é que passou de Dr. Mark Squires para Dr. Wine Squires?
[risos] Eu comecei a interessar-me por vinho enquanto jovem advogado no início dos anos 80. Até então era um hobby. Nos anos 90 começou a ser algo mais sério. Comecei a trabalhar com o Robert Parker na Prodigy. Esse projeto faliu e seguimos os nossos caminhos separados. Eu comecei o meu website, em meados dos anos 90. O vinho era ainda um hobby para mim nessa altura, mas começava a dar dinheiro. Uns anos depois, o Bob começou o seu website e convidou-me. Em 2001 tornou-se mais sério e ele desafiou-me para fazer críticas em Portugal.

Começou na Wine Advocate em 2001 mas só começa a vir a Portugal em 2006.
Exato. Este é o meu 13º ano.

Lembra-se do primeiro vinho português que provou?
Absolutamente! Eu era um jovem entusiasta do vinho e quando somos jovem somos meio loucos e queremos conhecer tudo no mundo, provar todos os vinhos famosos, todas as grandes marcas. Eu comecei a organizar, ainda no início dos anos 80, provas verticais de Porto. O primeiro concurso que organizei foram portos de 1977 versus 1970 com Taylor’s, Dow’s, Graham’s e Fonseca. Alinhámo-los e fizemos as provas. Foram os primeiros.

Neste anos todos, já aprendeu alguma coisa da língua?
Obrigado! Longo! Turisma! [risos], coisas assim. Falo qualquer coisa de francês, mas agora está muito enferrujado porque não vou a França há algum tempo, então eu sei como é que as línguas latinas soam, na escrita, a gramática não me parece difícil, mas a pronúncia é muito difícil!

Mark Squires foi este ano distinguido pelo IVV como personalidade do ano/Américas (Paulo Spranger/Global Imagens)

Mas a linguagem do vinho consegue entendê-la bem.
Sim!

Quando prova o vinho, consegue perceber a intenção do enólogo quando faz aquele vinho, qual a personalidade por detrás do vinho?
Espero que não. Eu não represento o produtor, eu represento os consumidores. Esses são os meus clientes, as pessoas que pagam o meu salário. Por isso deves tentar evitar coisas que interferem com a tua objetividade, e claro que todos os produtores querem envolver-te a todo o momento. Se és um ser humano, não podes evitar gostar de algumas pessoas mais do que outras, mas tens de tirar isso da tua cabeça e apenas provar o vinho. A minha filosofia, em primeiro lugar e para além de tudo é: prova o que está no copo, entende o vinho, como evolui, a sua história, mas tenta tirar o resto da tua cabeça.

Desde 2006, em 13 anos que grandes diferenças encontra nos vinhos portugueses?
Bem, Portugal é um país obcecado por vinho! Tem demasiados produtores, eu não sei como é que eles vendem vinho, mas há cada vez mais, e isso é uma diferença – o número crescente de produtores. A segunda é que muitos dos produtores estabelecidos, refinaram o seu trabalho, estão a fazer melhores vinhos, com mais complexidade. Terceiro, acho que estão a prestar mais atenção a coisas a que não prestavam. Por exemplo, no Douro neste momento temos ótimos vinhos brancos. Em 2006, isso não era verdade na sua maioria.

Um problema é que Portugal também produz muito lixo. Os vinhos de quatro euros do supermercado, coisas dessas: há oceanos disso mas não é muito importante.

Não produzimos a uma grande escala, como outros países. Acredita que isso é um problema ou uma vantagem a nível internacional?
Vocês produzem em grande escala! Portugal produz uma imensa quantidade de vinho. Um problema é que Portugal também produz muito lixo. Os vinhos de quatro euros do supermercado, coisas dessas: há oceanos disso mas não é muito importante. Mas vocês têm muito bom vinho…

Então não é possível comprar uma boa garrafa de vinho por quatro euros?
Acho que os preços dos vinhos em Portugal são muito baixos. Tendo em conta as regiões, os preços do vinho verde por exemplo, serão mais baixos do que no Douro. Isso é algo a ter em conta. Podes ter vários belos vinhos verdes por seis, sete, oito euros, mesmo coisas a que dei 90 pontos porque o preço é tão ridiculamente baixo nessa região.

Quando um produto é barato, ou não muito caro, os consumidores tendem a pensar que não é bom?
Acho que isso é absolutamente correto! Algumas regiões, e o vinho verde é um bom exemplo, têm um bom conjunto de novos produtores que estão a fazer ótimo vinho, mas estão a ter problemas em vendê-lo por bom preço. Há um ponto em que o produtor ganha imenso dinheiro extra devido ao prestígio e não estás a pagar mais nada a não ser o prestígio desse produtor. Por outro lado, há um ponto em que o produtor está a fazer vinho muito bom, mas não o suficiente para continuar a produção regularmente. Fazer bom vinho pode ser caro. Pode depender de uma decisão de num ano mau, como 2014, mandares uma parte da tua produção fora. Isso é uma decisão cara.

Tem uma grande responsabilidade em mostrar o vinho português ao mundo. É o seu gosto ou técnica que põe nas avaliações que faz?
Ambos. Não creio que alguém possa dizer honestamente que não põe algo da suas impressões subjetivas no mundo que cria quando pontua vinhos. Esperas ser consistente e que as pessoas possam olhar para ti e digam: o Squires gosta de estrutura, nunca vai ter medo dos taninos, ou da acidez, o que é verdade. Por isso, sim, eu tenho um ponto de vista, avalio por vezes do meu ponto de vista, não consigo evitar, mesmo que queira, mas há questões objetivas que eu tenho de seguir: o vinho tem de ter estrutura razoável, tem de ter capacidade de envelhecer um pouco, tem de ter boa fruta, concentração. São essas as coisas que contribuem para fazer um bom vinho.

Tem alguma rotina nas suas provas? Sentar-se de uma determinada maneira, usar determinado copo, como toma as suas notas?
[risos] Tomo as notas num computador portátil, temos uma base de dados em nuvem onde anoto as notas de prova e entram logo no sistema. Sim tenho uma série de requisitos. Por exemplo, mesmo numa prova simples como a que tivemos hoje, gosto de alinhar os copos numa fila e tirar tudo de perto. Gosto de receber a informação por antecipação para não perder tempo com dados técnicos. Gosto de me reunir apenas com os produtores.

E gosta de ir às quintas, às vinhas?
Já não. Nos primeiros seis ou sete anos fiz isso. Depois deixei. Se és um perito, tens de saber as características das regiões. E ao mesmo tempo, quantas vezes tenho de olhar para as mesmas encostas, as mesmas pipas, as mesmas cubas? Por isso, nos primeiros anos, o máximo de notas de prova que fazia em Portugal eram 305. Agora, com este método, este ano provavelmente vou ter 900 notas de prova. É uma grande mudança e é uma mudança que ajuda Portugal.

Como são escolhidos os vinhos que avalia?
Eu escolho. Depois falamos do que vão apresentar, gosto de saber em antemão.

Pergunto-me como escolhe um vinho para si.
Sim, isto interfere com a forma como bebo vinho. Depois de um dia inteiro de provas, não quero sair por aí e beber. A dada altura só quero o álcool longe da minha boca.

Quer beber água.
Não, ice tea [risos].