Marek Reichman, o homem que desenha carros para James Bond

Marek Reichman é Vice President e Chief Creative Officer da Aston Martin Lagonda Ltd.

Tecnologia versus Emoção. De passagem por Portugal – mais breve do que desejaria –, Marek Reichman admitiu que o grande desafio atual é fazer com que, num mundo cada vez mais digital, as pessoas ainda consigam sentir a adrenalina de conduzir um carro. A DN Ócio esteve na Web Summit à conversa com o responsável criativo e vice-presidente executivo da Aston Martin. Filho de um ferreiro, cresceu em Sheffield, Reino Unido, e é hoje, aos 52 anos, o homem que desenhou três carros para o espião mais conhecido do mundo James Bond.

Entrevista de Patrícia Tadeia, na Web Summit

Está na Aston Martin há 13 anos, quase 14. Como é trabalhar uma marca como esta?
É difícil resumir, há sempre oportunidades e potencial a ser trabalhado. Como designer, é isso que quero. Claro que a marca se destaca em tantos aspectos. Tem a questão da herança, da beleza, de ter um estatuto icónico no mundo automóvel. Somos uma marca de luxo que fez menos de 85 mil carros em 105 anos. Quase que nos sentimos os guardiões dessa história, muitas pessoas colocaram muita paixão em todas essas criações…

E com isso surge também um sentido de responsabilidade.
Claro que sim, com isso surge a responsabilidade. Mas a verdade é que todos os designers gostam de pressão, de um deadline. Eu estive nos ciclos em que não tínhamos muito dinheiro para investir, ao contrário de agora que estamos na melhor fase de sempre de investimento e lançamento de produtos. E estamos a fazer mais produtos… submersíveis, barcos a motor, apartamentos, veículos de decolagem vertical (VTOHL), e eu envolvo-me em tudo. Todos os dias são um desafio. A melhor forma de ativar a mente criativa de um designer é com desafios constantes. Muitas vezes perguntam-me se não preciso de me focar. Na verdade, não. Porque quando tens essa pressão, o melhor a fazer é acrescentar ainda mais pressão ao sistema para ter mais resultados. Acredito que na Aston Martin há a possibilidade de olhar para informação e processo da marca, porque temos imenso, mas ao mesmo tempo há espaço para brilhar. E essa é uma das razões que me mantém na marca, permitem-me criar. Para um designer, às vezes precisamos de informação, de pesquisa. Mas às vezes basta sentir que é correto. E essa oportunidade existe.

Parte desse brilho passa pelo facto de a Aston Martin se focar muito no trabalho de artesãos, personalização de materiais?
Todos os produtos, não só os carros, são trabalhados, mas luxo mantém-se sempre. Muitas vezes tentamos ultrapassar as fronteiras dos materiais, o fabrico à mão, que é feito por pouquíssimas pessoas. Há um trabalho que é feito só por uma pessoa. A tecnologia, ou o mundo digital em que vivemos, é aquilo que mantemos sempre. Isso faz com que os nossos produtos sejam especiais. Para mim, é isso que me inspira ao trabalhar na Aston Martin. Mas nem sempre é sobre aquilo que é feito ou fabricado à mão. Porque ao mesmo tempo temos os mais avançados e tecnológicos carros do mundo. O Valkyrie [carro híbrido e desportivo, com uma produção limitada] é um exemplo. A tecnologia também é muito importante. Já trabalhamos em carros com tecnologia de aeronaves há cerca de 15 anos. E poucas pessoas sabem disso. E é a parte tecnológica do que fazemos. Mas as pessoas falam sempre mais da beleza. Quase que nos tornámos agnósticos quanto à tecnologia para olhar para o que é belo. Mas a tecnologia está lá para dar forma à beleza.

É impossível dissociar a Aston Martin de James Bond. O Marek foi o designer responsável pelos modelos DBS e o DB10. Como é olhar para o ecrã de cinema e ver os carros que desenhou?
Como pode ver, estou a sorrir agora. Mas o mais incrível, é que aconteceu não só uma, nem duas, mas três vezes com carros que eu desenhei. No total, a Aston Martin conta com 12 carros para os filmes de James Bond. Da primeira vez, o Casino Royale foi incrível, com o DBS, que depois voltou a surgir no Quantum of Solace. O DB10 para o filme Spectre foi super especial porque só fizemos dez carros daqueles. E aquela linguagem, aquele design, era mesmo dirigido ao James Bond. Então, como me senti? Como uma criança numa loja de doces. Não dá para explicar o gozo que dá. E mais uma vez não fui só eu, tenho uma equipa de pessoas muito talentosas, designers e engenheiros, é uma equipa pequena, mas que trabalhou tanto para chegarmos àquele resultado. Sim, sinto-me como uma criança numa loja de doces, mas ao mesmo tempo incrivelmente orgulhoso do trabalho de equipa, a organização para que tudo acontecesse. A soma de todas aquelas paixões fez com que o resultado fosse excepcional. E estar na sala de cinema, a ver a estreia, foi ver tornada real a visão que tinha de como ficaria. Pude concretizar o meu sonho.

E que sonhos tem agora?
Muitos no sentido de perceber como serão os produtos que vamos produzir daqui para a frente. Um dos grandes desafios, ao tornarmo-nos cada vez mais digitais, é manter aquela sensação de conduzir o carro. Aquele sentimento, vibração, adrenalina. Esse é o desafio. Num mundo tão digital como mantemos as emoções. O meu sonho é que tenhamos, nos produtos que aí vêm, a perfeita combinação destes dois mundos.

Como está o mercado da marca em Portugal?
O mercado na Europa ronda os 25%, sendo que a maior percentagem cabe à Alemanha. O mercado em Portugal é pequeno. Mas em contrapartida, o que temos aqui são clientes realmente apaixonados pela marca. São leais, querem ver tudo.

A Aston Martin já fez apresentações em Portugal. O que tiram de melhor ao vir até cá? Quais as vantagens do país?
Lançámos o Vantage em Portimão. Tem um excelente autódromo. O facto de Portugal ser um país apaixonante faz com que possamos criar emoções. O vinho, o tempo e a comida. O que é que um designer, ou qualquer pessoa precisa, para criar o melhor? Aqui vocês têm isso em abundância. E nós vamos embora já hoje [ontem]. Quando viemos a Portimão, lembro-me que ficámos no ponto mais oeste do país, o tempo estava incrível. A cultura e geografia são muito importantes para a mente de um designer. As diferenças de sabores. Por que é que um vinho tinto sabe diferente aqui ou na Nova Zelândia. Pela cultura, geografia, pessoas, as emoções. Como designer tem de experimentar tudo isso.

O Vantage foi apresentado em Portimão.

O seu pai era ferreiro. A profissão dele teve alguma influência na sua paixão pela criação?
Sim, para construir algo. Lembro-me que ia ter com ele e ele transformava um grande pedaço de metal, todo o processo, de lhe dar uma forma, tornar aquele objeto útil. Na altura eu não entendia como acontecia. Só o via a bater na peça, a aquecê-la e a dar-lhe forma. A transição de um objeto para outro. E as grandes esculturas… Eu ficava fascinado. Como é que o mármore se tornava em algo gentil e com linhas delicada? O processo de transição fascinava-me. O facto de ter crescido em Sheffield, um lugar com muitas fábricas, também teve influência. Quando cresci queria um emprego em que também eu pudesse construir e criar.