Estradas de montanha e adrenalina: há um clube restrito de automóveis em Portugal

Há um clube em Portugal que junta proprietários de automóveis de alta cilindrada. O GTR proporciona experiências em estrada de montanha, em busca de adrenalina controlada e partilhada. Fomos ao norte de Portugal acompanhar em exclusivo as máquinas com que muitos sonham.

Texto de Nuno Mota Gomes
Fotografias e Vídeo de Miguel Pereira/Global Imagens

José Rocha e Sofia Drumond já participaram em todos os GTR (Grand Trans-Iberian Rally). O primeiro foi no ano passado, com seis dias de estrada, em Portugal e passando pelos Picos Ibéricos, Pirenéus e Barcelona. «Neste ano, fizemos o evento que passou pelo Alentejo e o Algarve. Depois, fomos aos Picos da Europa e agora este», contam-nos, enquanto aguardamos por uma visita ao Palácio da Brejoeira, em Monção. Foi uma das paragens durante dois dias a conduzir no norte de Portugal, a começar em Braga, passando por Gerês, Melgaço, Mondim de Basto, até terminar na Figueira da Foz. O casal considera que «o convívio poderia ser muito engraçado e o prazer da condução também, mas o que faz a diferença é ter uma organização que nos leva aos sítios certos». Além disso, estão habituados a estradas destas: «A ilha da Madeira é só curvas e contracurvas», dizem, em tom de riso. Têm um Porsche 911 em Lisboa e isso permite-lhes a deslocação, sem grande logística.

Esse trabalho, o de organização, é sobretudo de João Matos Pereira. É o homem de quem nasceu a ideia de formalizar este clube automóvel, fugindo ao conceito dos já existentes. Começa então por explicar: «Sentimos que havia muitos encontros, mas não iam além do show-off, do fumo dos escapes e de muitos copos à hora das refeições.» O GTR quer ser o oposto, propõe eventos com uma filosofia de lifestyle, juntando estradas de montanha, hotéis de luxo e conforto à mesa. Sem pressa. Sem confusão.

O GTR é um clube automóvel com foco na Península Ibérica. Proporciona experiências em estradas de montanha desafiantes, em grupos de até vinte carros, sem a pressão do show-off mediático.

A carregar vídeo...

«Podíamos dar o road book a alguém e dizer “vai”. Mas sozinho não tem piada, não é?» Para João, ir em grupo, falar por rádio e ao final do dia sentar e partilhar um momento descontraído é tudo o que faz sentido. Tentam não juntar mais do que vinte carros, porque acima disso já criam trânsito a eles próprios. Também teriam de ficar em hotéis mais massificados e esse não é o espírito. Se houver muito interesse, preferem fazer dois eventos iguais. No entanto, acreditam que já esgotaram o mercado português: «Há mais superdesportivos, mas já falámos com eles todos. Se não estão aqui, é porque não estão à vontade para meter quilómetros nos carros.» João tem uma assumida paixão pela condução «dinâmica», como a classifica, sempre bem-disposto. «Estão a gostar? Aqui ninguém ganha por ir à frente, cada um vai ao seu ritmo.» Tínhamos acabado de arrancar do Hotel Torre de Gomariz, um cinco estrelas rodeado de vinhas, onde o grupo ficou instalado. Naturalmente, há os da frente e os de trás e ninguém passa despercebido por onde se passa: é um autêntico desfile de automóveis de alta cilindrada, com autocolantes, e cada um com o seu «cantar».

Durante o rali, fomos desafiados a saltar entre os vários. Começámos com João no seu BMW M4, sentimos a potência de um Porsche 911 Turbo com mais de 500 cavalos, apanhámos boleia num Mercedes CL65 AMG, V12 Biturbo. E também passámos por um Fiat 595 Abarth, guiado por Rui Melo: «Este carro não é meu, trouxe para experimentar e estou a gostar muito», conta-nos, enquanto entra e sai de cada curva a tirar partido da sua potência. «A maioria que vem ao GTR são meus clientes», explica o proprietário da CarDetail, empresa nacional pioneira em serviços de detalhe.

No final de outubro, no Gerês, modelos como os Ferrari F12, Porsche 911 GT3 e 911 Turbo S, Mercedes GT S AMG, BMW M2 e M4, foram algumas das máquinas que marcaram presença durante o passeio de dois dias.

E pela garagem da sua empresa, em Lisboa, tanto passam máquinas de última geração, como clássicos à procura de uma nova vida: seja uma pintura cuidada, aplicação de película exterior que protege de riscos, assim como limpeza a fundo ou tratamento de estofos, entre outros serviços. «É um trabalho que faz toda a diferença e estes carros merecem», garante Rui, que não tem mãos a medir num negócio a funcionar há quase quinze anos. Ao fim de tantos quilómetros, é preciso ir abastecendo – e não são só as máquinas. À hora das refeições fala-se de binários, de superdesportivos e das paisagens por onde se passa. Para alguns, este deixou de ser um evento automóvel para ser um encontro de amigos: trocam de carros durante o passeio e fora de estrada vão a casa uns dos outros. Percebe-se o tal bom ambiente de que João tanto fala. E concordamos: sozinho não tem piada.

Web: trans-iberianrally.com
Facebook: Grand Trans-Iberian Rally