Elemento: o restaurante com a receita para criar com fogo

O chef lisboeta Ricardo Dias Ferreira depois de sete anos a viver na Austrália decidiu pegar fogo no Porto. Mais concretamente no seu restaurante “Elemento” especializado em fire dining. O que é isso? Explicamos nas linhas seguintes.

Texto Filipe Gil

Numa rua à beira da Avenida dos Aliados, há um restaurante em que o fogo é o elemento principal. Contudo, e apesar do protagonismo são os ingredientes a que dá aval que sobressaem.

É isso que é o fire dinning. Um restaurante onde a tecnologia não entra. Nem gás, nem eletricidade. Só o fogo em diálogo próximo com os ingredientes escolhidos pelo chef. E é à volta dele que o chef Ricardo Dias Ferreira e a sua equipa trabalham.

Para ver como se desenrola este enredo gastronómico, a sugestão é ficar sentado no balcão e esquecer as mesas que existem no contíguo espaço do restaurante Elemento. No balcão estamos na primeira fila para percebemos como o chef Ricardo trata o fogo. Não há quaisquer malabarismos circenses mas sim muito respeito pelo elemento.

Num pequeno forno junta lenha, caruma, palha, pinhas e brasas que vão influenciar o gosto da comida. Todos os pratos disponíveis, quer na carta ou no menu de degustação – que muda todas as semanas – passam pelo mesmo processo.

O restaurante abriu em fevereiro e foi o realizar de um sonho de Ricardo Dias Ferreira. O chef lisboeta, de 31 anos, passou, no início de carreira, pelos restaurantes Arola e Midori, na Penha Longa, e no Yeatman. Esteve ainda cinco meses em San Sebastian a trabalhar com o chef que atualmente contabiliza 10 estrelas Michelin no seu curriculo, Martin Berasategui.

Depois disso decidiu mudar-se para a Austrália, onde esteve sete anos e trabalhou no restaurante Quay, um dos mais conceituados daquele país. Para além de ter assumido o controlo das oito cozinhas do hotel Shagri-La altura em que começou a trabalhar com fumados e grelhados com fogo, o que despertou esta paixão por esse elemento. O restaurante Altitude, o principal do Shangri La, foi considerado o melhor restaurante de fine dining de hotel da Ásia e Oceania na lista Gault&Millaut.

O sabor a fogo potencia a qualidade dos ingredientes. Nota-se tudo aquilo que os ajudaram a brilhar, das pinhas à caruma.

Mas, há que dar fogo à peça e contarmos o que comemos. As hostes abriram com veado com cogumelos e beterraba. Logo depois, uma cavala de citrinos com cebola em escabeche. E de seguida porco com cherovia e depois lavagante com cherovia e molho de crustáceos. Tudo com paring de vinho branco ou tinto (se o cliente o desejar).

O sabor a fogo potencia a qualidade dos ingredientes. Nota-se tudo aquilo que os ajudaram a brilhar, das pinhas à caruma. Tudo excelentemente confecionado. A surpresa e alguma dúvida que inicialmente existam com o método inovador do chef são desfeitas às primeiras garfadas. E nem é necessário ser-se muito experimentalista para se gostar da experiência.

Sabemos que o fogo, quando controlado, junta pessoas. E as analogias em volta de fogueiras podem ser transportadas para o Elemento. Apesar da estética cuidada, da luminosidade do restaurante, sentados ao balcão ficamos na expectativa, curiosos, focados.

O que vale a pena, porque no Elemento o tempo é vivido através do fogo. E é ele que manda.


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