Chutnify: street food indiana com bagagem cheia de mundo

Dez países depois, a indiana Aparna Aurora chegou a Lisboa para abrir o seu restaurante Chutnify. Cozinha inspirada na comida de rua do sul da Índia. Com mais dois restaurantes com o mesmo nome em Berlim, Aparna prepara-se para abrir, por cá, um novo espaço: Chutnify Cantine. E com esplanada.

Texto de Filipe Gil | Fotografia: Gonçalo Villaverde / Global Media

Nascida na Índia nas montanhas dos Himalaias, Aparna Aurora viveu em dez países até chegar com a família a Lisboa, há quase dois anos. A razão foi abrir o seu restaurante Chutnify de comida indiana “autêntica”, como gosta de dizer. E prepara-se agora para abrir o segundo, ali para os lados do El Corte Inglés. E com esplanada. Porque “não volta a abrir nenhum espaço em Lisboa que não a tenha”.

A história de Aparna, apesar de longa, é simples e inclui uma volta ao mundo em vários anos. Antes de começar a contar reforça, a sorrir: “somos como ciganos na minha família, gostamos de viajar e de estar pouco tempo no mesmo sítio”. O avô foi diretor da companhia aérea indiana e isso deu-lhe a oportunidade de viajar pelo mundo, desde muito nova.

Da Índia natal, com os pais divorciados e a estudar num colégio interno – à boa maneira britânica – foi viver para Hong Kong com os avós. Voltou anos mais tarde, a Bombaim e lá, enquanto estudava na universidade, descobriu a Dosa, um dos pratos de street food indianos mais famosos daquela região, e que hoje é um dos destaques do seu restaurante de Lisboa e nos dois que tem em Berlim – mas já lá iremos.

Depois, talvez fazendo jus ao “espírito cigano”, vendeu tudo o que tinha e aventurou-se em Nova Iorque, sem nada programado

De Hong Kong vai para Londres e daí para Sydney onde esteve seis anos – tem passaporte australiano –, sempre ligada ao mundo da moda (a sua formação académica). Depois, talvez fazendo jus ao “espírito cigano”, vendeu tudo o que tinha e aventurou-se em Nova Iorque, sem nada programado. “Os primeiros três meses foram muito difíceis, estive desempregada. Mas acabei por ir trabalhar para uma grande empresa de moda – uma das maiores dos Estados Unidos. E durante algum tempo tive uma vida fantástica”.

Continuou a fazer viagens regulares para Hong Kong, para visitar a família, e uma delas colocou-lhe um alemão na sua vida. Num bar conheceu o engenheiro Guido, com quem casou e por quem voltou para Hong Kong. Daí para Singapura e depois para a Alemanha natal do marido. Em Estugarda, e apesar do bom emprego (na altura, a trabalhar para a marca Hugo Boss), só descansaram, ela e o marido (nenhum gostou da experiência) quando fizeram novamente as malas para um novo destino: o México. Aí constituíram família. Duas filhas e uma boa adaptação à cultura mexicana e ainda a criação da sua marca de design “Mila Tara” – o nome das filhas.

Da moda para a cozinha

No entanto, conta, a situação no México, muito devido ao narcotráfico, começou a ficar difícil e a insegurança aumentou. A decisão não foi fácil – o sorriso desaparece-lhe por momentos do rosto -, mas decidiram ir viver para o Brasil. “Dez meses em São Paulo e três meses em Belo Horizonte. Por lá também havia insegurança, mas não a guerra que exista nas ruas mexicanas”.

Entretanto, veio uma proposta de trabalho para Guido que implicava a mudança para Madrid. Ficaram quatro anos, naquele que foi o nono país onde Aparna viveu. Apesar da fácil adaptação à capital espanhola, decidiram, novamente por razões profissionais, voltar à Alemanha e a cidade de Berlim foi a escolha. Na capital alemã, depois de quatro anos num trabalho das “nove às cinco” como head hunter, Aparna Aurora decide abrir o seu primeiro restaurante. O nome Chutnify, que mantém em todos os que já abriu.

Ainda em Berlim, Aparna e Guido começam a desenhar planos para abrir outro Chutnify em Madrid (ideia que ainda mantêm). Mas quase por acidente falaram-lhes de Lisboa.

Sempre tive uma relação próxima com a cozinha. Frequentemente fazia festas para mais de 40 pessoas, e diziam sempre que devia abrir um restaurante”. Foi o que fez. Localizado no bairro de Prinzenlau Berg (uma espécie de Principe Real), as coisas começaram a correr bem, “na primeira semana de abertura havia fila à porta”, lembra. Era Aparna que cozinhava, mas teve de contratar um chef e dedicar-se a outras áreas, embora a ligação com a cozinha se mantenha. “Sou uma control freak e todos os dias provo a comida”. Dois anos depois abre um segundo Chutnify no bairro de Kreuzberg.

Ainda em Berlim, Aparna e Guido começam a desenhar planos para abrir outro Chutnify em Madrid (ideia que ainda mantêm). Mas quase por acidente falaram-lhes de Lisboa. Vieram várias vezes para conhecer melhor a cidade. “Já tinhamos visitado a cidade como turistas, uns anos antes, mas neste regresso percebemos que a cidade tem algo de especial”. Uma sensação parecida com o que se passou há uns anos em Berlim, diz. Escolheram a área do Princípe Real para o primeiro Chutnify português e na calha está já o Chutinify Cantine. E esse terá esplanada.

O que comer?

Aparna diz que os portugueses gostam de comida indiana, da autêntica, e não adaptada, como muitos restaurantes indianos fazem em vários países. “Erradamente”, critica. “O conceito do Chutnify é ter um restaurante indiano autêntico, sem ser cozinha de fusão, num local bonito”. Os pratos são confecionados no local com produtos comprados ora em Portugal ora vindos do Reino Unido.

No menu, pequeno, ao contrário do que normalmente acontece nos restaurantes indianos, o destaque vai para as Dosa que podem comer-se de várias maneiras e com vários ingredientes (de batatas massala a pato em caril ou queijo). Mas há mais, desde pratos tandoor, biryani, arroz ou de caril – e todos assinalados com o respetivo nível de picante. A cada três meses o menu é reavaliado, não só porque os produtos são sazonais, mas para ter em consideração as preferências dos clientes.

No Chutnify os almoços são servidos nos típicos tabuleiros de alumínio, tal como acontece na Índia. “Há pessoas que adoram e outras que odeiam. Mas é a forma típica de comermos. Uso-os apenas ao almoço porque os portugueses são mais formais ao jantar”.

Depois de tantas voltas, a vida de Aparna e da sua família tem agora base em Lisboa, com idas regulares a Berlim para seguir os dois restaurantes naquela cidade. Até quando? Não se sabe. “As minhas filhas insistiram para virmos viver em Lisboa. E o meu marido adora a cidade. Passa o tempo a tirar fotos, tenho que o relembrar que agora vivemos cá. E acho que vamos continuar por cá… uns anos”.

Chutnify
Travessa da Palmeira 44 – Lisboa
www.chutnify.com