Chef Marlene Vieira vai ter o primeiro bar de sobremesas do país

Em fevereiro de 2020 vai nascer o primeiro desert bar português pela mão da chef Marlene Vieira (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Abre em fevereiro de 2020 um novo espaço que junta restaurante de fine dining, loja de produtos portugueses e o primeiro bar de sobremesas do país. A chef Marlene Vieira renova-se, numa zona da cidade em mudança.

 

Texto: Marina Almeida
Fotos: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Chega numa manhã de chuvisco ao terminal de cruzeiros de Santa Apolónia, onde nos encontramos para falar do futuro entre de operários, paredes de tijolo e betão, com um enorme navio de cruzeiro a fazer de parede.

O novo restaurante da chef Marlene Vieira está a nascer, ali junto ao Tejo. Um projeto ambicioso que junta um gastrobar com o primeiro dessert bar do país – alerta, gulosos! -, uma loja de produtos autóctones portugueses e um restaurante de fine dining, mais recolhido, focado sobre a arte de transformar os alimentos em iguarias para o corpo e, essencialmente, para a alma.

Marlene Vieira veste-se de preto de alto a baixo, botas confortáveis e prontas para tudo – e um casaco cor-de-rosa a contrastar. É terra a terra no falar, tem uma presença que até pode ser discreta, mas é intensa (as frases feitas diriam: mulher de armas).

Conta-nos o possível deste novo projeto que vai nascer num edifício envidraçado, ao lado do corpo principal do Terminal de Cruzeiros desenhado por Carrilho da Graça. Do lado da Av. Infante D. Henrique será o gastrobar, com o primeiro bar de sobremesas do país. “O dessert bar tem um espaço dedicado ao menu de degustação das sobremesas, que só vai funcionar entre as seis da tarde e a meia-noite, e ao fim-de-semana até às duas da manhã”, revela.

Está a trabalhar com o chef pasteleiro Luca Arguelles: “Ele idealizou um menu que trabalha sempre com produtos sazonais, mas há uma linha que pensamento que começa com o mais doce e termina com o mais fresco. Porque o menu de sobremesas nem sempre tem de ser doce, e isso está bem presente neste menu que vamos apresentar na abertura do espaço”. Para harmonizar as sobremesas, haverá cocktails com assinatura Black Pepper & Basil.

A chef Marlene em frente ao edifício onde decorrem as obras do novo projeto (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

A ideia de trazer para Lisboa um dessert bar há muito germinava na cabeça de Marlene Vieira. Sabe que tem a imagem dos doces colada a si. Agora surgiu a oportunidade. O trabalho vai ser feito com sabores portugueses, mas acima de tudo com produtos portugueses: “Não podíamos ficar presos à doçaria tradicional de que eu gosto muito, mas nós associamos essa doçaria a momentos festivos, e foi criada nesse sentido. Achamos que são sobremesas muito doces para termos num menu de degustação de sobremesas. Pode ter num momento ou outro, mas não é a nossa base. A nossa base são os produtos e posso-lhe falar do ananás dos Açores, da anona da Madeira ou dos Açores, que não são coisas muito exploradas, mas tornam as sobremesas muito agradáveis. O público não está muito familiarizado com isso, e nós queremos fazer esse trabalho de conhecimento dos produtos. As amêndoas, um produto DOP de Bragança, vamos trazê-las também.”

O restaurante Panorâmico by Marlene Vieira vai mudar-se de armas e bagagens para Santa Apolónia.

Nessa linha de divulgação dos produtos portugueses de excelência, nessa mesma zona vai nascer uma loja. A proximidade do terminal de Cruzeiros não é alheia a esta abordagem: “é uma porta de entrada no país, e foi isso que nos inspirou na verdade. Sentimos esse peso. Quando a pessoa entra[no país], certamente não se vai dirigir aqui, vai conhecer a cidade, mas quando sai, sai com o melhor de Portugal. Com produtos que vamos selecionar como sendo um bom exemplo do nosso país. Sentimos essa obrigação enquanto profissionais”.

No centro deste espaço fica a zona técnica, que vai receber a cozinha de produção do espaço do Time Out – que estava no Tagus Park, no restaurante Panorâmico by Marlene Vieira. Este espaço vai encerrar e mudar-se de armas e bagagens para Santa Apolónia. E na carrinha das mudanças não faltará a horta, que serve de inspiração a muitos pratos. A chef explica-o, também, com a ligação ao campo, de onde é natural. “Eu cresci no campo. Apesar de ter o mar ou o rio à frente, eu tenho sempre uma ligação à terra que são as minhas raízes. Sou do Porto, da Maia, cresci numa terrazinha chamada Silva Escura, Nogueira da Maia, nem deve estar no mapa. Eu sinto a necessidade de sentir o cheiro da terra para me dar serenidade. Há pessoas que precisam de ir sentir o mar, eu preciso deste equilíbrio das minhas raízes, com a evolução da minha vida, do meu trajeto profissional.”

A horta estará paredes-meias com o restaurante. Para já, é obra em curso, carrinhos de mão, cimento, pás, rebarbadoras, lama. Em breve ali nascerá um balcão central, a zona de mesas e um jardim a ladear todo o espaço, criando recolhimento. O projeto de arquitetura é de Ricardo Paulino, que já assinou a loja de Marlene do Mercado da Ribeira. O recanto quase aos pés dos gigantes dos mares vai ser um espaço mais focado, com alguma inspiração japonesa – e a luz a iluminar-se no sítio onde pousa o prato.

Marlene Vieira vai estar à frente de um novo espaço junto ao Tejo, em Santa Apolónia. Junta restaurante, desert bar e loja de produtos portugueses
(Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

“Vai ser um espaço de excelência. Vamos trabalhar o melhor produto que temos no país. Por exemplo, temos o porco preto alentejano, mas há uma altura do ano em que o porco preto alentejano é DOP, por causa da alimentação num determinado período de tempo que vai de setembro outubro e vai até fevereiro março. E esse produto vai ser usado no fine dining”, exemplifica. Mas há mais. Amêndoa DOP de Trás-os-Montes ou um muito especial chocolate feito em Aveiro. O seu braço direito é o chef Mário Cruz – Marlene continua a ter o restaurante do Time Out Market, o restaurante Sála, que gere com o marido (o chef João Sá), e a ser mãe (sim, é possível ser mãe e chef).

Nestes 560 metros quadrados envidraçados vai nascer o novo mundo de Marlene Vieira, no ano em que cumpre 40 anos. Ri-se. Não foi planeado, foi um acaso, mas um acaso feliz que abraçou com alegria e entusiasmo. Receia o primeiro ano, ainda com os hábitos de saída noutros pontos da cidade, como o Chiado ou o Príncipe Real. Mas sabe que está num sítio com estacionamento, transportes e uma relação de excelência com o Tejo. “É um novo começo. Estou muito afastada de fine dining há quatro anos, e é recomeçar num sítio que está todo a lavar a cara. A energia é muito forte. E eu também precisava desta energia.”