Attla: o restaurante que traz o mundo para o prato

Sabe o que são pil pil de cabeças, katsuobushi, morugem, sabayon? Pode prová-los todos no novo restaurante Attla, em Alcântara. E vai gostar. A audácia e dos sabores é o resultado de muitas viagens e quase 15 anos de experiência do chef André Fernandes.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Rita Chantre

Com 16 anos (hoje tem 31), em vez de pensar em futebol ou um curso universitário, André rumou a França decidido a ser cozinheiro. “Naquela altura, as melhores cozinhas estavam nesse país. Os grandes saíram de lá. Hoje já não é assim. Os que foram formados na cozinha francesa espalharam-se pelo mundo e foram fazer a sua cozinha”.

O jovem aspirante ainda apanhou a fase em que os cozinheiros não gozavam do prestígio de hoje e as cozinhas eram bem diferentes. “Era pior se fosses português. Éramos vistos como burros ou inferiores. Há 15 anos era assim. Foi muito duro”.

Paris era o destino final e já tinha dado o passo mais importante, não ia desistir. Bateu portas, pediu trabalho e acabou a trabalhar no Plaza Athenée, com o chef Alain Ducasse, referência maior em todo o mundo. Esta experiência no currículo iria abrir-lhe muitas portas, inclusive, além-fronteiras. Bora Bora, Martinica ou Rio de Janeiro são alguns dos locais onde trabalhou.

O primeiro destino do casal foi a Tailândia. Rita foi fotografar as tribos e André conseguiu trabalho num restaurante em Krabi, no Hotel Ritz-Carlton.

Há seis anos, numa das vindas a Portugal, conheceu Rita Chantre, fotógrafa freelancer. Pegou-lhe o bicho das viagens e fizeram as malas. O primeiro destino do casal foi a Tailândia. Rita foi fotografar as tribos e André conseguiu trabalho num restaurante em Krabi, no Hotel Ritz-Carlton. Haveriam de explorar outros países, tornaram-se viajantes inveterados. Assentaram arrais na Costa Rica, a experiência mais enriquecedora até agora, dizem.

Começaram a fazer piqueniques da selva da Costa Rica para grupos. Consegue imaginar cenário mais envolvente? É difícil. Faziam também o Private Chef em casa dos clientes.

Fizeram bom dinheiro, viajaram pelos países vizinhos. Mas nessa altura começa a surgir o chamamento para voltar a casa. Pela família e por mais uma aventura. Estava na altura de arriscar novamente. Desta vez, num espaço próprio. Remodelaram uma antiga padaria e nasce o Attla, a 15 de dezembro, em jeito de presente de Natal.

O que os distingue? “É preciso cada vez mais que as pessoas que trabalham neste meio decidam ir por um caminho que tenha mais a ver com elas e não com o que está preestabelecido que deve ser a cozinha em Portugal. Todos trabalharam em altas cozinhas e isso é importante, essas bases são a origem de tudo. Mas comecem a fazer coisas mais cool, com mais personalidade, que seja acessível a mais pessoas”, responde André.

O chef dispensa rótulos. “É comida, no final. Não gosto quando falam exclusivamente de fine dinning ou qualquer definição. Fazemos uma cozinha fixe, diferente e, sobretudo, sem pretensões”.

O ATTLA

Para se ir ao Attla é preciso manter a mente aberta. O nome vem de Atlas e Atlântico. Não vai reconhecer todos os alimentos da carta e será surpreendido pela mescla de sabores. Mas vai ser difícil sair de lá sem a vontade de voltar.

A ementa muda a cada 15 dias e utilizam alimentos biológicos, sazonais e a maioria são produtos nacionais. Entre eles, estão o gin dos Açores, o topimunbur (tubérculo) do Alentejo, o pombo ou o gelado de eucalipto. Mas a influência dos sabores é mundial. Uma alheira caseira Thai ou uma cinza de chili estão lá para relembrar as viagens.

A primeira carta que criou para o Attla foi pensada dois dias antes da abertura e André colocou os pratos na lista sem os provar. Afinal, são 15 anos de experiência.

As entradas são pratos mais pequenos que podem valer um principal. O conglioni de alheira caseira Thai, chalotas, puré de verdes, crumble de broa (10 euros) vai fazer o cliente questionar se alguma vez comeu uma alheira a sério. A lula, caril de tinta, cabelo de anjo, agrião (11) é uma boa opção para quem gosta de um pouco de picante e o cogumelo amanita grelhado, sabayon de jerez (molho), espigos, katsuobushi (folhado de peixe bonito seco) supera as expectativas.

Entre os principais, é difícil escolher. O polvo grelhado, batata fumada, cinza de chili, alho francês assado (19) está entre os favoritos. Não vai deixar nada no prato. Há outras opções como o pombo grelhado, a abóbora ou peixe de Peniche. Mas, como dito antes, daqui a duas semanas, poderá ser surpreendido com novos sabores.