A noite de gala de Sá Pessoa: «Ele agora é uma pop star»

Henrique Sá Pessoa do Alma (Lisboa) recebeu a segunda estrela Michelin na gala que decorreu em Lisboa em 2018. (Orlando Almeida / Global Imagens)

O chef português conquistou duas estrelas na gala de ontem, que premiava os restaurantes com direito ao reconhecimento Michelin. Entre o auditório onde foi feito o anúncio e a zona do Pavilhão Carlos Lopes onde estava montado o espaço do restaurante Alma, deu dezenas de abraços, de beijos, respondeu a mensagens e telefonemas. Demorou mais de hora e meia a fazer poucos metros, numa noite em que a gastronomia portuguesa brilhou. Nenhum chef chegou à terceira estrela. Mas Portugal conquistou mais de 30.

Reportagem de Marina Almeida | Fotografias de Orlando Almeida/Global Imagens

Eram 21.30 quando – achava ele – estavam a acabar as entrevistas. Perdeu a conta aos jornalistas, às televisões, aos diretos. Quantos espanhóis? «Pffff» Dava aquele suspiro de quem se perdeu em dados muito concretos na hora seguinte a passar a contar com duas estrelas Michelin no curriculum. Henrique Sá Pessoa trazia-as no corpo. Vestiu a jaleca duas estrelas Michelin por cima da jaleca de uma estrela só, que vestia desde o ano passado.

O anúncio das estrelas Michelin fechou ainda não eram 20.30 mas já antes da gala ibérica começar, no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, se sabia quem eram os vencedores – 26 restaurantes, no total, quatro estrelas mais do que em 2017. Abraços nas equipas do chef Sá Pessoa, as câmaras a perseguir o chef, outra fotografia. Quando o nome foi finalmente chamado, Sá Pessoa percorreu uma boa parte da sala, perseguido com uma câmara que o projetava no ecrã gigante, qual noite dos Óscares. Os aplausos encheram o auditório – e de certeza não foram só de portugueses, apesar da hegemonia de espanhóis presentes.

Henrique Sá Pessoa vestiu a segunda jaleca. «Vamos continuar a fazer o nosso trabalho, temos casa cheia há um ano. Desde que ganhámos a primeira estrela e desde que Lisboa está, como dizem os espanhóis, de moda, temos mês e meio de reservas para o jantar no Alma. Mais cheios que isso é impossível. Vamos se calhar estar com outro tipo de cliente, mas encaramos isso como um novo desafio e uma nova fase do Alma», dizia-nos.

Preparava-se para a viagem de poucos metros até ao espaço do Alma, um dos restaurantes estrela Michelin que preparou o jantar da noite. Mas, como preconizava uma amiga, ele agora é uma pop star. O caminho vai ser longo.

Parou no átrio do Pavilhão Carlos Lopes. Bem perto estava Martin Berasategui, o super chef espanhol, que sai da gala com dez estrelas Michelin. Acabou de inaugurar um restaurante em Lisboa – o Fifty Seconds, na Torre Vasco da Gama – e está feliz da vida. É um dos chefs premiados mais procurados pela imprensa, e por toda a gente – afinal ele continua a ser o espanhol com mais estrelas.

Lado a lado, os dois protagonistas da noite: Sá Pessoa e Berasategui. Não se falam, cada um está com o seu grupo de amigos. Mais de 20 minutos depois, o português segue o seu caminho. Já leva um copo de vinho verde quase vazio – Soalheiro primeiras vinhas 2017 – mas ainda não jantou. Abraça Gil Fernandes. Troca umas palavras ao ouvido do sous-chef da Fortaleza do Guincho. Segue para outros abraços.

Gil Fernandes era o anfitrião de quem passava. Bem disposto e irrequieto, dava a provar os mexilhões de escabeche ou a massada de peixe – tudo em versão mini, mas sem penalizar o sabor.

«É um statement na gala Michelin em Lisboa, não ter vieiras, não ter foie gras, e ter ingredientes não associados à alta cozinha. Sabe a cozinha portuguesa feita com o rigor da alta cozinha», diz João Mestre, editor executivo da revista Evasões, especializada em gastronomia e escapadas, que «esperava mais estrelas, mais novas estrelas, mais um ou dois a chegar à segunda estrela e pelo menos um a chegar à terceira».

Não foi assim. Portugal conquistou uma segunda estrela e três novas estrelas – para o A Cozinha, do chef António Loureiro, de Guimarães, G em Bragança, dos irmãos António e Óscar Gonçalves, e o Midori, do chef Pedro Almeida, na Penha Longa – o primeiro de alta cozinha japonesa em Portugal distinguido.

Sá Pessoa não prova os mexilhões e segue viagem. Veste calças cinzentas, ténis adidas pretos de camurça – e as duas jalecas Michelin, já se sabe. Chegará à zona do pavilhão Carlos Lopes onde está o balcão do Alma perto das 22h00. Mas antes de fazer um discreto V de Vitória aos elementos da equipa que ali serviam mini pratos Michelin, ainda recebeu mais abraços, «Parabéns!», «Enhorabuena!».

Vinha de lá Cristina, a chef do Elxato, em Alicante. Acabara de degustar os pratinhos Michelin que o Alma trouxe à gala, deu os parabéns ao chef e à comida – bueníssima. De onde és? Olham-se na estrela, na lapela da jaleca (ela só tem uma). Está tão brilhante, a chef. Foi uma das três mulheres – diz ela – a sair da gala Michelin de jaleca branca e estrela. Conta-nos que o restaurante que acaba de entrar na galáxia do guia vermelho está há 103 anos na família do marido, Francisco. São a quarta geração – mas a chef é ela. Francisco, que parece Fernando Pessoa, sem faltar o chapéu e os óculos, distribui cartões-de-visita e diz, atrevido, que o segredo é… saber escolher as mulheres. «O nosso restaurante não é só trabalho, é a nossa vida».

Depois encontramos António Loureiro, o chef do A Cozinha, a comer um carabineiro no Alma. Cansado, com fome, mas satisfeito. Leva uma estrela para Guimarães.

E sim, depois disto tudo, Sá Pessoa ainda não tinha chegado à banca do Alma.

Quando chegou eram quase 22.00. Fez um V de Vitória, deu um abraço. Outro. Atendeu o telefone. Olhou o corrupio de mensagens. Ainda não sabia o que ia ser o seu jantar.

Veja AQUI a lista completa dos restaurantes premiados ontem.

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