A cervejaria Pinóquio foi até à Baixa e a peregrinação continua

Esplanada da cervejaria Pinóquio na Rua de Santa Justa, em Lisboa

É um daqueles (raros) casos em que muda a decoração, muda o lugar e mantém-se a oferta de qualidade, o serviço cronometrado e a alegria de ali estar a servir os clientes de sempre. A cervejaria Pinóquio saiu temporariamente dos Restauradores.
Mas não parece.

Texto de Marina Almeida | Fotografia Gonçalo Villaverde/Global Imagens

No dia 25 de março de 2018 o Pinóquio fechou as portas no Restauradores, três dias depois abria na Rua de Santa Justa 54, na Baixa de Lisboa. Foi uma mudança em tempo recorde, com o empenho de todos os funcionários a mudar um restaurante inteiro de um lado para o outro. Alguns deles estão ali naquela tarde de sábado e sorriem-nos enquanto desfiam as histórias de anos de casa e de como nada mudou quando tudo mudou. Na rádio toca What a Feeling, hit lançado tinha a casa um ano, em 1983. A sala está quase vazia, a esplanada está cheia. “A nossa história é só uma. É servir bem”, diz o senhor Barbosa, passando as despesas da conversa para o Zé, que rapidamente salta da copa para a sala. Ali vem ele, sorriso de orelha a orelha, embrulhando entre as mãos a touca de cozinha branca. Todos os pratos que chegam às mesas dos clientes passam por ele.

Quando regressarem aos Restauradores, serão um restaurante aos pés de um novo hotel – o que, aliás, acontece já neste estágio na Rua de Santa Justa. O novo Pinóquio terá uma maior capacidade – 240 lugares.

José Figueiredo tem 36 anos e está há nove na casa. Está sempre de atalaia atrás do balcão, quer a preparar as doses de amêijoa ou camarão quer a ver o que se segue em cada mesa, ou se falta alguma coisa. Pode ser uma cerveja, ou um reforço de pão torrado. A cervejaria está temporariamente na Baixa, enquanto decorrem as obras no espaço dos Restauradores, onde sempre funcionou.

O Pinóquio foi vendido pelos anteriores donos, os irmãos Filipe e João Costa, a um grupo empresarial que detém vários hotéis na cidade. Quando regressarem aos Restauradores, serão um restaurante aos pés de um novo hotel – o que, aliás, acontece já neste estágio na Rua de Santa Justa. O novo Pinóquio terá uma maior capacidade – 240 lugares.

Mais tarde, começaria a chegar à mesa a tríade divina que fez a casa local de peregrinação ao longo destes anos: as “ameijoazinhas” abertas na máquina a vapor, o “camarãozinho da costa” com igual tratamento e o ex-líbris do Pinóquio, o pica-pau – suculentos nacos do lombo na frigideira, com batata frita caseira às rodelas e arroz a levar-nos para casa da avó.

“Foram estes três pratos que deram fama à casa”, diz com orgulho o garde manger José. E são feitos da mesma forma, fez 37 anos no dia 13 de maio. Altura para apresentar a máquina de café transformada em máquina de vapor, um monumento de inox com quatro tubinhos (semelhantes aos que aquecem o galão nas máquinas de café normais, mas mais compridos). É ali que são feitas as amêijoas na cafeteira, e é “o único sítio do mundo onde se fazem amêijoas assim”, anuncia Barbosa. A invenção vem dos primórdios da casa, em que um funcionário ligado ao mundo dos cafés deu a ideia. Funciona assim: José coloca a dose de ameijoas no fundo da cafeteira de ferro, cobre-as com coentros, alho e um pouco de mostarda. Depois, introduz um dos tubinhos de vapor na cafeteira, segurando um pano por cima. O tempo, é aquele que ele já sabe, anos de experiência, consoante o tamanho do pedido. Daqueles segundos mágicos, nasce a dose de ameijoas, cheia de molho, vertida à frente do cliente da caneca para a tigela. Para os camarões, chega uma passagem rápida no vapor, com um punhado de sal – e chegam fumegantes à mesa. Não é preciso mais nada – embora haja, por exemplo, a cabeça de garoupa assada no forno, nas brasas ou cozida, também capaz de produzir grandes discursos.

O Pinóquio foi inaugurado a 13 de maio de 1982. O senhor Barbosa garante que foi abençoado pelo Papa João Paulo II, que nesse ano fez a sua primeira visita a Portugal. Sempre de sorriso aberto, veste calça preta e camisa verde-água e divide-se entre o telefone que vai tocando tarde fora – “Pinóquio, faz favor”, diz com a voz em bicos de pés – e a vontade irresistível de conversar.

Conta que muitos dos empregados da casa vieram da Solmar, então a grande cervejaria de Lisboa – “da Europa”, diria José – e uma grande escola. “Fizeram um Mini com o motor de um Ferrari, essa é que foi essa.” Não tardaria a memória a começar a andar para trás. Barbosa lembra-se da casa cheia em dias de futebol. De quando os jogadores suecos do Benfica – Stromberg, Maniche e Magnussen – saíam dos jogos, paravam o Porsche e “nem abriam a porta, alçavam a perna e saíam para a esplanada”. Ou de quando preparava um “frapé com água e limão e toalhinhas quentes” para o Figo ir lavando as mãos depois de dar autógrafos.

José, o garde manger do Pinóquio: todos os pratos que chegam à sala passam por ele (FOTO: Gonçalo Villaverde/Global Imagens)

É assim que se faz uma casa de culto. “E com sorrisos e boa disposição, e passar aqui muito tempo, a cuidar. Uma casa destas não se faz sem estar perto”, diz. José concorda, logo dizendo que os clientes da nova morada são “os do Pinóquio, não são os da rua”. Nem de propósito, alguns minutos depois espreitam para a sala José e Ermelinda, de passagem por Lisboa. “Sou cliente ainda o Pinóquio não era um restaurante, era uma loja de brinquedos e eu ficava deslumbrada com aquelas montras”, conta Ermelinda.

Ainda haverá na família bonecas compradas na casa que nos anos 1980 se desfez dos brinquedos para deixar entrar o marisco – mantendo o nome e o letreiro. Mais tarde, o casal ficou cliente. Não falha o camarão da costa e o pica-pau. E a cabeça de peixe? “Um algarvio não come peixe fora do Algarve”, brinca ele. Naquela tarde não ficaram para o petisco.