Courmayeur: destino de esqui de elite

A Vila Alpina de Courmayeur é um destino de esqui da elite italiana e internacional, mas oferece opções acessíveis a todos os orçamentos. Além disso, há muito para viver nesta estância situada no vale de aosta, para lá dos desportos de neve. Gastronomia, bem-estar, compras e história para quem não dispensa o après-ski.

Texto de Rita Machado/ Revista Volta ao Mundo

Entre o vale de Aosta, em Itália (onde está localizada Courmayeur) e a Savoia, em França, o imponente monte Branco, com os seus 5808 metros, tem uma presença forte na história e na atualidade desta estância.

Toda a vila cresceu porque estas montanhas existem e porque o alpinista tem como sonho último chegar ao seu topo. O primeiro registo oficial de subida ao Monte Branco foi a 8 de agosto de 1786, data que marca o início do alpinismo como o conhecemos, por Jacques Balmat e Michel Paccard, respondendo ao repto do aristocrata, físico, geólogo e viajante Horace-Bénédict de Saussure, que, em 1760, ofereceu uma recompensa a quem o conseguisse.

Para perceber melhor a origem da vila nada como visitar o Museo Duca degli Abruzzi, onde a Associação de Guias Alpinistas nos leva numa viagem pela história do alpinismo e, no fundo, do nascimento de Courmayeur. Inaugurado em 1929, foi idealizado e fundado por Luigi Amedeo di Savoia, duque de Abruzzi, ele próprio alpinista. São dois pisos para perceber como a profissão de guia – muitas vezes pouco valorizada por quem apenas visita a montanha uma vez por ano – foi e é vital no surgimento de muitas das vilas que hoje são reconhecidas estâncias. Muito antes de o esqui ser um desporto de elite, o alpinismo levou aventureiros, munidos de meios rudimentares e em condições bastante inóspitas, a percorrer as montanhas para chegar o mais perto do cume possível.

O primeiro registo de uma sociedade de guias de montanha em Itália data de 1850, tinha 56 membros e foi a segunda em todo o mundo. Ao percorrer ambos os pisos deste museu entendemos como eram rudimentares os meios com que os primeiros homens escalaram montanhas.

Talvez por isso a profissão de guia alpino é aqui muito valorizada. Muitas vezes, ao referirem-se aos professores de esqui ou a outras pessoas que trabalham na estância, dizem «é guia alpino», como quem reforça que o conhecimento da montanha advém de algo maior do que apenas saber esquiar.

Outra formação rochosa que ocupa a paisagem em Courmayeur, até porque o monte Branco não está sempre visível, graças às nuvens, é o Dente do Gigante. Diz a lenta que o gigante Gargântua deixou partes suas espalhadas pelo mundo e aqui teria ficado um dente, do qual a gengiva é a base em neve. É engraçado ver como muda a perspetiva deste cume, consoante a hora o dia ou a luminosidade, ou consoante a pista ou o meio mecânico de onde a vemos.

Pistas fora

Courmayeur não é uma estância gigante, mas tem uma organização de pistas muito interessante. Partindo de Plan Checrouit (1704 metros de altitude) conseguimos subir até aos 2755 e fazer todo o domínio Checrouit, com vermelhas para todos os níveis médios e algumas pretas para mais arrojados. Já na zona Val Veny há azuis para todos se divertirem.

Há alguns traçados sugeridos para fora de pista, mas Teseo Bazzana, diretor da Scuola Ski & Snowboard Courmayeur, recomenda que a primeira vez sejam feitas sempre acompanhadas por um guia e em dias que as previsões de avalanche estejam abaixo do vermelho. Estes traçados incluem opções por entre vegetação, partindo de Toula (2624 metros) e descendo até Zerotta (1525 metros).

E outros que partem do Rifugio Torino (3375 metros), ao qual se acede através de SkyWay e, se existir neve, terminam na base, já na vila a 1205 metros. São 24 quilómetros de descida no que é chamado o «mar do gelo» – recomenda-se levar um pequeno snack para descansar um pouco na salle a manger, miradouro onde pode apanhar sol antes de continuar a descida. Como já deve ter percebido, há algo que vai notar nesta estância: há nomes tanto em italiano como em francês. Por aqui, o sotaque italiano é bastante cerrado e com erres fortes, tal é a proximidade com a fronteira.

Para os mais aventureiros, esta escola é especializada em cursos freeride, sempre na companhia de um instrutor alpino. De registar também que Courmayeur é a única estação do monte Branco onde o heli-ski é permitido – a atividade começa num helicóptero que leva o praticante até a um cume de neve virgem, depois é só descer em freeride. Como bons conhecedores das coisas boas da vida, só mesmo em Itália esperaríamos encontrar um wine ski tour – de manhã esquiar com os instrutores e à tarde visitar os melhores produtores de vinho do vale de Aosta (por 116 euros) – ou um gourmet ski tour – que inclui o programa anterior e ainda paragem em vários locais para saborear especialidades gastronómicas –, tudo por 126 euros.

Recomendamos que guarde dois dias da sua semana para ir esquiar a dois domínios muito próximos: La Thuile e Aosta Pila. Fáceis de aceder, a cerca de meia hora de carro, oferecem um dia de pistas alternativas. Poderá comprar um forfait que inclua também estes domínios.

Da neve… para a água!

Parece ridículo sugerir que gaste uma tarde das suas férias de neve para ir para as termas Prè-Saint-Didier, mas na verdade não é. Pode até ir apenas depois de esquiar, numa sexta ou num sábado (quando fecha mais tarde, às 23h00), mas não deixe de visitar este local, com o seu emblemático edifício do século XIX e todos os tratamentos que possa sonhar. A sauna e as piscinas de água quente no exterior são imperdíveis: com a neve e a vista para as montanhas em redor, deixe-se submergir em água quente e borbulhante.

Outra piscina integrada na neve que poderá querer visitar fica no Hotel Royal & Golf. Pode marcar o SPA e terá acesso à piscina (informações no guia de viagem), aproveitando depois para uma bebida no bar ou para ficar a jantar.

Algumas têm jacuzzis, outras jatos de diferentes pressões e até há uma redonda na qual, quando se põe a cabeça dentro de água – e só nesse caso –, se ouve música. Na zona de SPA e massagens terapêuticas, faça um tratamento, por exemplo, para recuperar do esforço do esqui – há um menu extenso. Jody foi o nosso terapeuta numa massagem personalizada que misturou relaxamento desportivo e anticelulite (70 euros, uma hora) e está recomendado. No final do dia – ou no meio, se de facto lá passar a jornada – há uma sala de buffet com snacks saudáveis, fruta, chocolate quente, grissinos de cacau, pão com passas e nozes, entre outras delícias. Reserve umas três a quatro horas para aproveitar bem o momento.

Outra piscina integrada na neve que poderá querer visitar fica no Hotel Royal & Golf. Pode marcar o SPA e terá acesso à piscina (informações no guia de viagem), aproveitando depois para uma bebida no bar ou para ficar a jantar.

Pela zona pedestre

Sendo uma estância onde glamour e luxo estão como peixe no gelo, Courmayeur tem inúmeras marcas com loja própria e multimarca. Não deixe de visitar a Gucci, afinal a marca é italiana e aqui encontra peças que não verá em Portugal. Claro que há muitas outras possibilidades, menos exorbitantes, acessíveis e marcas originais. Basta passear pela rua pedestre Via Roma para descobrir o italian style. Esta via sem carros é perfeita para andar ao final da tarde ou a seguir ao jantar. Para compras, escolha a Black Friday de 3 e 4 março, em parceria com a American Express, onde muitas marcas vão fazer superdescontos.

No Dia de Pasquetta, que acontece sempre após a Páscoa – neste ano será a 2 de abril –, as ruas centrais enchem-se de artesãos (cerca de trezentos) que vendem pequenos tesouros locais como esculturas de madeira, peças de pele e até antiguidades.

O pecado da gula

Apreenda o conceito do aperitivo: a partir das 17h00, o objetivo é abrir o apetite para o jantar, bebendo algo como um vermute, que pode vir em forma de cocktail ou spritz, numa combinação tendencialmente mais amarga (um gin tónico também funciona bem) para jogar bem com a oferta (sim, leu bem, os bares regra geral oferecem) de snacks salgados. Acontece em praticamente todos os locais e nem precisa de pedir, e apesar de o conceito não ser substituir a refeição da noite, a verdade é que em alguns locais a oferta é tanta e tão elaborada que inclui pizas, queijos, carnes secas, massas, e pode acontecer ficar sem apetite para o jantar.

Há ótimos restaurantes nas pistas, com opções variadas e apetecíveis, e sobretudo nada caras (uma lasanha ou uma pasta podem ficar por dez euros). Mas se quiser almoçar em plano luxuoso, Courmayeur tem todas as possibilidades, basta abrir a carteira.

Antes do regresso a casa, poderá visitar as pastelarias locais e trazer um panettone, bolo com frutos secos ou, típico na zona, com pera e chocolate. Queijos, enchidos, pastas e azeites de trufa também são boas opções. Quase todos os espaços os vão embalar de forma segura para transportar na mala. Isto para além das memórias suplementares e do barulho dos esquis a descer uma pista que nos persegue nos dias após uma ida à neve. Até para o ano.

 


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