Nos tapetes de Vanessa Barragão ninguém quer pôr os pés

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Cresceu no Algarve com as avós a fazer croché, estudou design de moda e fez uma tese sobre fiação. Representa os corais no fundo do mar, com uma certa crueza feita de lã: os coloridos estão vivos, os brancos já morreram. Aos 26 anos, o mundo já a descobriu (e ela nem sabe bem como). Quem é Vanessa Barragão, a portuguesa que pôs a lã a gritar?

Reportagem de Marina Almeida | Fotografias de Artur Machado/Global Imagens

Os bocados de lã feitos história. A simplicidade é desarmante e dela se fazem os tapetes artísticos que saem das mãos de Vanessa Barragão. “As minhas peças são inspiradas nos corais e tento reportar um bocadinho do que o aquecimento global e a poluição estão a fazer. Os [corais] brancos são os mortos”. Estamos no seu atelier no Porto, para onde acaba de se mudar, mais as lãs e as agulhas. Também levou uma roca de fiar, para além da máquina de café para enfrentar as horas de trabalho, com alegria. Na parede está uma enorme tapeçaria de cinco metros de comprimento, que se contempla e volta a contemplar, para sempre descobrir novos detalhes. Começa com uma profusão de cores – verdes, rosa, amarelo, coral – termina monocromático: os corais de lã também morrem.

Vanessa Barragão, 26 anos, vende peças para todo o mundo, já deu entrevistas nas principais publicações de decoração internacionais, e é ainda praticamente desconhecida em Portugal. Nem sabe bem como é que o fenómeno aconteceu, mas a realidade é que não tem muito tempo para pensar nisso nem mãos a medir para as encomendas. «Já tenho peças em todo o mundo, Estados Unidos, Japão, … Eu acho que é foi por causa do Instagram, mas também tenho saído em revistas internacionais”, conta. Há um par de semanas meteu-se numa autocaravana com uma tapeçaria gigante a caminho da Domotex, em Hannover. É uma importante feira do setor da tapeçaria e decoração: «Não sei como chegaram a mim, mas isso abriu-me bastantes portas. Tive oportunidade de mostrar a muita gente da área das tapeçarias o meu trabalho».

Em cima da mesa, que poderia ser de trabalho caso Vanessa lá se sentasse, está um coral verdadeiro. Mas a artista passa os dias sentada num banquinho, numa cadeira ou em pé em frente à tela têxtil – na realidade ela vai seguindo o desenho ditado pela sua cabeça

O seu cartão-de-visita na Alemanha foi a monumental Coral Garden Tapestry, que agora se espreguiça em cinco metros por dois e meio numa parede do atelier. Demorou dois meses a fazer com trabalho de manhã à noite. Tem agora consigo, a aprender, Flávia Freixa, designer, alentejana, natural de Arraiolos. “Esta peça em específico é para mostrar a cronologia, a forma como o aquecimento global acaba por matar os corais. O corais são um dos pilares da vida marinha e sem eles pode vir a desaparecer a vida no mar”, diz. Em cima da mesa, que poderia ser de trabalho caso Vanessa lá se sentasse, está um coral verdadeiro. Mas a artista passa os dias sentada num banquinho, numa cadeira ou em pé em frente à tela têxtil – na realidade ela vai seguindo o desenho ditado pela sua cabeça, nos orifícios da juta que preenche com lãs de diferentes espessuras e cores. “Geralmente nunca faço um desenho, vou inventando”, diz ela.

Vanessa a trabalhar numa tapeçaria com as lãs claras que simbolizam a morte dos corais
(Artur Machado / Global Imagens)

Utiliza o ponto de esmirna – que aplica de forma muito pessoal -, a feltragem de lã e peças de crochet (estas são feitas pela avó e amigas, no Algarve: Vanessa manda-lhes a lã, elas fazem as “cracas e os corais”). A sua matéria-prima é o desperdício das fábricas de tapetes. “Quando fiz um estágio numa fábrica de tapetes artesanal, percebi que havia mesmo muito desperdício. O que para mim era muito bom e para eles era mesmo lixo. Eles deitavam as lãs constantemente fora. Comecei a levar para casa e a fazer as tapeçarias”, conta. Agora carrega o carro ao ritmo dos telefonemas que recebe. Tem uma parte do atelier transformado em armazém, com enormes rolos de lã.

A imaginação surge à medida do desafio das lãs, de diversas cores e tamanhos, e de divulgar uma causa que tanto a emociona. Atualmente está a trabalhar em três telas para o centro de pesquisa de corais, na Florida, EUA. Todas em branco – os corais estão mortos.

Vanessa não tem uma explicação muito elaborada para o dia em que criou a primeira tapeçaria, mas não se cansa de dizer como o mundo submarino a fascina. Algarvia, natural de Albufeira, cresceu perto do mar. Nas férias, viajava com os pais para locais com corais. “Mergulho mergulho, nunca fiz porque tenho um bocado de medo dos peixes, mas eu adoro os corais” – ri-se. Na infância, perto das avós e das agulhas de crochet, Vanessa fazia as roupas para as bonecas. Depois fez o curso de design de moda e para tema da tese escolheu a fiação da lã. “Desde a ovelha até chegar ao fio, à peça. Fiz os tingimentos naturais, de uma forma muito ecológica. Comecei a olhar para as tapeçarias porque esta lã não dava para usar em roupa”. Mudou-se para o Porto em 2016 quando foi estagiar para a Beiriz, fábrica de tapetes artesanais (que tem atualmente dois modelos criados por Vanessa, o Lua e o Oceano, que usam uma técnica de tufado, semi industrial). Não tem duas peças iguais. Os preços rondam os dois mil euros por metro quadrado, o tufado são 600 euros por metro quadrado, mas o valor final «depende sempre do detalhe”.

Nas férias do ano passado venceu o medo dos peixes: “Em setembro fui à Indonésia a um sítio onde os corais estão super preservados. Fiz mergulho, havia tubarões e tudo, mas eu consegui porque isto é mesmo fascinante. Ver isto ao vivo é das coisas mais incríveis para mim”. Com inspiração renovada, mudou-se para o atelier na Rua Duque de Saldanha, para poder ter peças de grandes dimensões – algo que o seu apartamento já não permitia. Um novo passo na vida de Vanessa Barragão, 26 anos, olhos vivos e sorriso de orelha a orelha.


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