Peças cuidadas e personalizadas para vestir bebés

São peças de algodão orgânico pensadas para bebés com pele sensível. As técnicas são artesanais. Joana Andrade Nunes transformou uma necessidade num negócio.

Texto de Patrícia Tadeia | Fotografias de João Silva / Global Imagens

Com um enxoval escolhido ao pormenor, nascia Francisco há quatro anos. Mas a surpresa de uma pele sensível fez com que Joana tivesse de repensar tudo. Era o primeiro filho e, sem hesitar, esta mãe – na altura advogada – pôs as mãos à obra. Contou com a ajuda da mãe e da avó, e nasciam as primeiras peças de algodão orgânico que, sem saber, viriam a dar forma à marca.

A Tierno, marca de roupa de algodão orgânico, acabaria por nascer só em abril de 2017, quase na mesma altura de Carminho, a segunda filha desta empreendedora. «Quando engravidei novamente já estava a vislumbrar o que podia acontecer em termos de pele sensível e aí fui desafiada a pensar que isto até podia ser uma ideia que se transformaria num negócio», recorda Joana Andrade Nunes.

«Se eu sentia esta dificuldade, havia com certeza outros pais que seguramente também as sentiam. Por outro lado, era uma forma de preservar técnicas de benfazer quer do bordado, tricô e costura, que em Portugal se vão perdendo porque há poucas pessoas que o valorizem e que deem oportunidade aos artesãos de as ensinar a outras gerações», acrescenta.

Convidada a olhar para o passado, Joana recorda a primeira peça que a mãe e a avó fizeram. «Foi um coeiro, a minha mãe bordou e a minha avó costurou. As botinhas, em tricô, foi a minha avó, o casaco e a touca a minha mãe. Faziam tudo em conjunto.» Tal como o fazem os artesãos com quem trabalha hoje em dia.

«Era uma forma de preservar técnicas de benfazer quer do bordado, tricô e costura, que em Portugal se vão perdendo porque há poucas pessoas que o valorizem e que deem oportunidade aos artesãos de as ensinar a outras gerações.»

«Estão na Grande Lisboa e muitos no norte. Tenho muita confiança no trabalho deles. Todas as peças passam no menino por dois processos de produção manual. Se for em tecido, está nas costureiras e segue para as bordadeiras colocarem o ‘T’ manualmente em todas as peças, por exemplo. Quando a peça é personalizada tem ainda uma terceira fase de produção que é a personalização das iniciais», explica Joana que entretanto deixou a advocacia para se dedicar à marca e à maternidade.

A maioria dos artesãos da Tierno tem acima dos 50 e 55 anos. «Durante muitos anos em Portugal, acreditou-se que só vingaria quem tivesse um diploma, e os cursos profissionais foram menosprezados pela sociedade. O que fez com que uma ou duas gerações não pegassem na arte dos avós ou tias. Hoje em dia já acho que está a mudar muito, o que é feito à mão é valorizado, os defeitos perfeitamente imperfeitos. Não há duas peças únicas com o mesmo molde, e é isso que é valorizado. A caixa onde enviamos as encomendas é feita à mão, o artesão que fez o logótipo com folha de ouro tem mais de 60 anos», avança.

A marca está à venda apenas online e o sucesso lá fora é enorme. Depois do destaque que teve na Vogue do Reino Unido, choveram encomendas. «Reconhecerem-nos lá fora transmitiu um selo de qualidade. Temos muitos clientes dos EUA, é um publico com uma mente muito aberta, que quando vê algo diferente, experimenta. Também tem o poder económico para o fazer. Temos também clientes do Japão, Arábia Saudita, México, Austrália e da União Europeia», enumera.

«Hoje em dia já acho que está a mudar muito, o que é feito à mão é valorizado, os defeitos perfeitamente imperfeitos.»

Com um custo de produção muito elevado, já que o algodão orgânico custa três vezes mais, o preço médio de cada peça é de 150 euros. Recentemente, a Tierno lançou também uma edição limitada de 20 unidades de uma boneca personalizada, com um número bordado a ouro e cujo preço ronda os 500 euros. O cuidado com o pormenor é, sem dúvida, uma das apostas da marca.

«Fazemos um acompanhamento antes, durante e após o envio de todas as encomendas. Há um atendimento proativo, para perceber se está tudo bem. Quando sabemos que o bebé nasceu, enviamos flores, mimos», conta, recordando o primeiro cliente homem da marca. «Foi um pai mexicano que estava em Singapura no aeroporto e viu a Vogue. A mulher estava grávida, e ele não tinha jeito nenhum para oferecer ou escolher, leu sobre o serviço de personalização e contactou-nos. Escolheu a cor, as iniciais da bebé foram bordadas, e a mulher adorou, pelo significado», conclui Joana lembrando que este serviço vai «muito além de uma transação económica».