Quimera: Vhils imortaliza os trabalhadores da Bordallo Pinheiro num prato de parede

Prato tem 61 centímetros de diâmetro e custa 3900 euros. É o resultado de ano e meio de trabalho de VHILS com as equipas da Bordallo Pinheiro (DR)

O artista recuperou uma técnica de sobreposição de vidrados usada por Bordallo Pinheiro para criar Quimera, um enorme prato de parede com uma figura feminina em perfil. Representa todos os operários da fábrica de cerâmica das Caldas da Rainha e custa 3900 euros.

Texto de Marina Almeida

Um prato de parede em cerâmica, com 61 centímetros de diâmetro cuja superfície foi desbastada, várias camadas de vidrado, até chegar à forma de um rosto. A assinatura é de Alexandre Farto aka VHILS, que aplica a sua busca do que está para lá da(s) superfície(s) nesta peça da Bordallo Pinheiro. Com Quimera, quis humanizar a peça e as gerações que há 135 anos fazem a Fábrica das Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro.

A peça, que hoje foi apresentada na fábrica das Caldas da Rainha, é o resultado de ano e meio de trabalho. “Houve necessidade de desenvolver vários processos experimentais de modo a conseguir encontrar a melhor forma de a traduzir para este novo suporte. No final decidimos avançar com o uso de um jacto de areia que permitiu conferir um elevado grau de detalhe à figura”, explica ao DN. “Estive envolvido em todas as fases do processo, desde os primeiros desenhos, passando pelas diferentes fases de superação de questões técnicas – que surgem sempre quando se lida com este tipo de saber fazer manual, cruzamento de técnicas e altas temperaturas – e, finalmente, foi muito bom ter nas mãos este prato de grandes dimensões e ver um resultado final de que muito me orgulho”, refere num depoimento escrito, que não adotou o acordo ortográfico em vigor.

Quimera representa um rosto feminino. O rosto de quem faz a fábrica, fundada em 1884 com o propósito de revitalizar as artes tradicionais da cerâmica. “Para mim, dar rostos às superfícies é um acto simbólico que levanta questões de identidade e pertença. Sem ser possível representar aqui todas as pessoas que passaram pela fábrica e continuam a trabalhar nela e a construir sobre o legado de Bordallo Pinheiro, o rosto anónimo permite humanizar a peça e pôr o foco sobre a contribuição individual, o esforço de gerações, em prol de uma causa comum, de uma fábrica que também é uma experiência comunitária”, refere o VHILS.

O artista português, que imprime rostos anónimos em grandes superfícies nos espaços públicos das nossas cidades, vilas e aldeias, é o terceiro autor da coleção WorldWide Bordallianos, uma das linhas de diálogo com a contemporaneidade da fábrica que cruza a produção em série com a manufatura. “Tenho uma grande admiração pela obra e pela multidisciplinaridade do Bordalo Pinheiro enquanto artista. Acho muito interessante não só a forma como ele uniu a arte e a manufactura mas também tudo o que daí adveio. Ele teve um grande impacto na acessibilidade e democratização da arte popular, não só em Portugal mas também no mundo. Esse princípio da democratização do acesso à arte já é algo que me diz muito”, acentua.

Visceral, uma das intervenções de VHILS, nas margens da albufeira da barragem da Caniçada, no Rio Cávado
(Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens)

Quimera é uma edição limitada de 135 peças e custa 3900 euros. Está disponível por subscrição nas lojas Bordallo Pinheiro e Vista Alegre. A coleção WorldWide Bordallianos começou em 2017 com Figo de Paula Rego, seguindo-se, em 2018, Banana Prata Madeira, da autoria de Nini Andrade Silva.

Tal como as obras de arte pública que VHILS cria, esta é uma peça que transporta fragilidade, efemeridade. Algo que aceita e o incentiva a produzir mais. “Nada dura para sempre, nem sequer o trabalho de galeria, nem mesmo uma peça frágil, e o que importa é aquilo que ela pode dar às pessoas enquanto existir.”

Alexandre Farto fotografado no seu atelier em Lisboa
(Paulo Spranger/Global Imagens)