Pedro Cabrita Reis: «Não há dificuldades. O que há é um grau sucessivo de aproximação ao estado de perfeição»

Abriu as portas do seu atelier e fez questão de cumprimentar os convidados um a um. Por isso, a apresentação da taça De Natura, a mais recente peça do projeto artistas contemporâneos da Vista Alegre, começaria atrasada. Ninguém pareceu importar-se. O tempo de Pedro Cabrita Reis é outro, o seu.

Entrevista de Marina Almeida

Demorou-se um ano com uma taça branca no atelier de Marvila, antes de perceber que era ali que queria eternizar as suas vinhas. «As minhas plantas», como lhes chamou. Afinal, «nada na vida do artista está fora da vida do artista», dizia Cabrita Reis aos presentes, explicando como começara aquela parceria com a empresa centenária: foi à fábrica de Ílhavo escolher uma forma. «Interessava-me usar o que já existe, não senti necessidade de criar uma taça, um jarro, senti necessidade de ir à fábrica encontrar uma forma. Escolheu aquela taça. Pela «perenidade na forma, a proporção adequada». Criou aquele que será um novo clássico: «este objeto estará sempre bem enquanto forma».

Naquele dia, várias taças de porcelana, agora De Natura, espalhavam-se entre outras obras do artista plástico no atelier. Entre as peças, um protótipo em cartão da peça de porcelana com datas apontadas, a reprodução de um livrinho inicialmente batizado «O livro dos projetos para a Vista Alegre», depois alterado para «O caderno da Vista Alegre». Aqui detalha o processo criativo. Uma ponta solta para a conversa com a DN Ócio – que também atrasou um bocadinho o início da apresentação.

Estive a espreitar o seu «Caderno da Vista Alegre», em que detalha o início do projeto. Lembra-se quando acaba?
Naquela primeira mesa há três caixas de acrílico, numa delas estão dois modelos em cartão e o que está mais alto e se percebe que deu origem a esta peça final tem escrito uma data qualquer de outubro de 2017 [03/10/2017].

E é quando termina?
É quando eu fiz aquele desenho, não há outros desenhos que não aquele. O meu processo de criação é sobretudo mental. Eu vou desenhando na cabeça e quando tenho a certeza que está no sítio em que eu quero, materializo e faço um apontamento. Habitualmente sai praticamente igual aquilo que eu pensava querer fazer e igual aquilo que virá a ser feito. Aquela maquete é o único que existe, e foi feito naquele dia, um dia qualquer de outubro de 2017, acho que dia 3, e dali foi para a fábrica.

E essa marcação do tempo que faz nestes diários, é algo costuma fazer? É importante para si?
Eu tenho vários tipos de diário. Quando há temas que são suficientemente relevantes para iniciar um caderno específico, faço-o. Neste caso, a Vista Alegre pela novidade da experiência, posto que eu nunca tinha trabalhado com a Vista Alegre, e pelo interesse que aquilo em mim produziu e desenvolveu, fiz um pequeníssimo caderno que tem alguns apontamentos e que serviu de apoio. Tenho cadernos para tudo. Desde cadernos da vida do dia-a-dia, a cadernos de exposições que estou a montar, cadernos da produção de vinho ou das coisas que eu tenho a tratar no campo, na agricultura, e isso tudo junto um dia dará seguramente uma second life. Portanto, eu faço as coisas e escrevo sobre essas coisas. Não só escrevo para relatá-las, como escrevo para projetar, para tomar notas, pondo pensamentos que quero pôr em prática.

No caso desta peça, o Pedro intervém numa peça em porcelana, com uma forma diferente daquelas em que já interveio. Teve algum desafio diferente, alguma dificuldade?
Não. Não há dificuldades. O que há é um grau sucessivo de aproximação ao estado de perfeição. E quando se chega à ideia de que se chegou ao estado de perfeição verificamos mais tarde que nunca é um estado de perfeição, que é um processo em aberto. Picasso costumava dizer uma coisa muito engraçada, que é muito fácil começar uma pintura, já é muito mais difícil saber quando é que ela está pronta. Desde que fazes o primeiro risco numa tela, a partir daí a pintura está sempre a estar pronta enquanto quiseres voltar a trabalhar sobre ela.
No caso deste desenho para a Vista Alegre, fazendo então jus ao que lhe disse, eu trabalho conceptualmente antes de fazer o primeiro risco. Às vezes faço um segundo e um terceiro. Às vezes faço apenas um. E esse é. É o caso desta peça. Houve uma primeira fase em que fiz um primeiro tipo de projeto, que é um modelo que tem uma grelha geométrica, ainda que orgânica, que não me interessou porque estava demasiado próximo de coisas que eu já tinha abandonado na minha trajetória. Não é a primeira vez que abordo temas de ordem vegetal ou natural, mas aqui achei que era justíssimo e adequado porque era bastante simples, porque era bastante meu, e porque podia ser feito de uma forma muito imediata. Tenho eu de conferir ao que faço uma espécie de depuração e essa depuração se é conceptual e é formal, é depois balanceada pela qualidade dos materiais utilizados. A porcelana é um material rico e se intervimos na porcelana a ouro é uma mais valia que se dá ao objeto. A mim apetecia-me fazer isso, até porque, como todos sabemos, há na história da Vista Alegre uma presença continuada do ouro.

Com De Natura entra naquilo que chama de «corrente de criatividade» que a Vista Alegre está a alimentar com a coleção Artistas Contemporâneos. Como é que vê a intervenção dos artistas na porcelana?
Vejo da melhor forma possível. E vejo de uma forma entusiasmada porque sinalizar a trajetória das relações da Vista Alegre com a produção contemporânea ou com a produção artística é uma linha continuada. Antes de mim, muitos outros artistas o fizeram. A seguir a mim é desejável que artistas cada vez mais jovens e em diversas áreas – não apenas na área específica dos designers ou das pessoas que estão muito dentro deste processo produtivo – o façam. O interessante é alargar a todas as áreas do pensamento e da produção, nomeadamente na arte contemporânea, nos artistas mais jovens, eu acho que seria um trunfo bastante grande no portfolio da Vista Alegre e na sua interação com os criadores portugueses, e eu imagino que isso acontecerá. Há uma história em processo e essa história tem de ser permanentemente revitalizada por tudo o que há de mais jovem e mais ativo e mais criador e mais energético. Não vamos pensar que uma empresa com a história e a importância da Vista Alegre no panorama cultural e económico português possa continuar apenas a reproduzir modelos que já em casa dos nossos pais havia. É preciso criar coisas deste tempo para o tempo futuro. E eu acho que isso vai acontecer.