Os incríveis desenhos que não arderam no incêndio da Escola Politécnica

No século XVIII, as expedições filosóficas avançaram à descoberta das riquezas de África e do Brasil. Dois mil desenhos feitos nessas viagens escaparam ao incêndio da Escola Politécnica e escondem-se nas reservas do Museu Nacional de História Natural. Um tesouro extraordinário.

Reportagem de Marina Almeida
Fotografias de Sara Matos/ Global Imagens

“Prepare-se para ficar deslumbrada de certeza é a coisa mais incrível que vai ver não só hoje, como esta semana, mas este mês!” Marta Lourenço avisou, no seu jeito entusiástico e largo com que nos recebe logo à chegada ao museu – e fique já aqui registado, tinha razão. Mas quando nos diz isso ainda temos os olhos cheios do Laboratório Químico, o primeiro ponto de paragem nesta viagem ao Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC).

É certo que o foco desta incursão no museu da Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, é o que está escondido dos olhos dos visitantes, numa das 17 reservas, e sua majestade, o Laboratorio Chimico está ali destapado à vista de todos. Depois de 150 anos de labor, milhares de reações químicas, alunos e professores em busca de conhecimento, hoje entra-se no Laboratório Químico como quem entra numa igreja, numa basílica. Escapou ao incêndio de 1978 que dizimou grande parte da faculdade de ciências e do museu – tal como a coleção de desenhos do século XVIII resultantes das expedições feitas a mando do Marquês de Pombal – e mostra-se em silenciosa nudez.

Inaugurado em 1857, o Laboratório Chimico do Museu Nacional de História Natural escapou ao incêndio de 1978. (Sara Matos / Global Imagens)

O Laboratório Químico está literalmente destapado, uma vez que todas as peças que cumpriam o seu lugar sobre as bancadas até 1998 (data da última aula) – frascos, frasquinhos, balanças, alambiques e mais uma multidão – estão na reserva visitável, na porta ao lado. “A coleção de química tem mais de três mil peças e não quisemos pôr nada em cima das bancadas por segurança e para as pessoas poderem apreciar o laboratório enquanto um objeto”, explica Marta Lourenço, subdiretora dos museus da Universidade de Lisboa e curadora da reserva visitável. “Aqui levantamos o véu não só sobre os objetos, mas também sobre o trabalho, e é importante divulgar o que fazemos e as pessoas são fascinadas com isso. Porque acham que é a caverna de Ali Babá e que acontecem coisas incríveis, E é verdade, acontecem!”, conta bem disposta, explicando que naquele local é comum haver pessoas da equipa do museu a trabalhar, que acabam por interagir com os visitantes.

É numa das mesas desta sala que se abrem os livros de desenhos das viagens filosóficas do século XVIII. É uma das raras saídas destes exemplares únicos da reserva e das condições excecionais de conservação. Estão longe do olhar do público, com fugazes exceções no dia internacional dos Museus ou na Noite Europeia dos Investigadores, e nunca como hoje, em todo o seu esplendor. “Quero mostrar a coleção de desenhos porque são incríveis e pouquíssima gente sabe, pensam que foi destruído no incêndio. São os desenhos que vieram das primeiras expedições feitas por Alexandre Rodrigues Ferreira e outros, sob comando do Marquês de Pombal, para todos os cantos do mundo do império português, e que depois regressavam à Ajuda e eram todos processados e tratados. Esses livros, esses códices, foram agora recentemente digitalizados, não arderam no incêndio, têm relação com as coleções que arderam, e não podem estar abertos ao público por razões de segurança e valor monetário“, explica Marta Lourenço. A expedição ao Maranhão e Grão-Pará, no Brasil, foi liderada por Alexandre Rodrigues Ferreira (um dos seus códices tem o estudo das várias faces dos Índios do Brasil), o naturalista José Joaquim da Silva encabeçou a exploração de Angola e Manuel Galvão da Silva a viagem a Moçambique.

Aspeto da vila de Borba a Nova, num dos códices do século XVIII (Sara Matos / Global Imagens)

Ana Pascoal, historiadora e curadora desta coleção, calça luvas brancas antes de manusear estas preciosidades. É a primeira vez que o MUHNAC tem uma historiadora de arte a fazer curadoria. Começa com o livro onde se explicava aos exploradores do novo mundo como deviam ser recolhidos e preparados os espécimes que eram recolhidos nestas viagens filosóficas. “Porque o objetivo das viagens era um objetivo imperialista de tentar saber o que existia neste vasto império que incluía colónias no Brasil e em África”, diz Ana Pascoal, “…e o que é que se pode tornar economicamente interessante”, acrescenta a subdiretora dos museus da Universidade de Lisboa. O livro data de 1781, as primeiras viagens começaram em 1782/83.

Tudo interessava aos enviados do Marquês de Pombal ao serviço da coroa portuguesa, desde os espécimes botânicos aos espécimes zoológicos, passando pelos minerais, as paisagens, recursos hídricos, e as populações locais (há tribos documentadas pelos exploradores portugueses no século XVIII que já estão extintas, diz Marta Lourenço). Estes livros são, por isso, um documento único e valioso da sociedade ultramarina. Já foram digitalizados para poderem ser mais facilmente acedidos por investigadores. Só se for muito relevante para os trabalhos serem manuseados, é que tal possibilidade é avaliada pela equipa do museu. “É evidente que uma coisa destas não pode estar sempre em exposição e as reservas fazem sentido”, frisa Marta Lourenço.

Observamos o desenho numa das páginas de outro volume, onde se vê uma perspetiva geral daquelas viagens. “Foi um dos primeiros desenhos da Casa do Risco e foi feito antes das expedições. Este é interessante porque ajudava a perceber como é que se processava uma expedição destas”, diz a curadora. Vemos os panos de uma tenda montada junto a um curso de água, caixas vazias, um homem que estará a relatar informação a outro, que escreve. Mais ao longe, homens nus de volta de um animal – seguramente os escravos que acompanhavam a comitiva. Estas expedições duravam mais de um ano e nela seguiam dezenas de elementos. “Imagine a dificuldade. Já hoje é um horror para chegar a Manaus, imagine na altura. Recolhiam as cobras, recolhiam os corais, recolhiam as plantas… e agora?”. Havia que mandar esses espécimes animais e vegetais para a metrópole, em Lisboa.

“Já viu o ouriço?” interrompe Marta Lourenço. Deixara Ana Pascoal connosco e dividia-se em múltiplos afazeres no dia de encerramento do museu ao público. Não, ainda não tínhamos chegado ao ouriço, perdidos que estávamos entre búzios, índios, paisagens e a desvendar as poucas palavras escritas na caligrafia oitocentista. E também a apercebermo-nos que aqueles códices foram, tal como naquele momento, folheados por el rei D. José no Palácio da Ajuda, onde habitava a corte. “Também serviam para a educação dos príncipes”. O frontispício de cada volume continha sempre uma ilustração alusiva à missão com a coroa portuguesa em destaque e uma dedicatória ao rei.

Ana Pascoal, a curadora da coleção, e Marta Lourenço, subdiretora dos museus da Universidade de Lisboa junto a um dos códices oitocentistas. (Sara Matos / Global Imagens)

O livro que Ana Pascoal folheia agora em câmara lenta diz exatamente como preparar os animais e plantas para a longa epopeia até Lisboa: “qual era a perspetiva para desenhar e para guardar, como é que os animais deviam ser mortos para não ficarem danificados e poderem ser montados”, diz. Ali está a garça posta numa tábua, presa pelas pernas, embrulhada em faixas a dar o exemplo para a conservação dos exemplares recolhidos. “Muitos dos desenhos eram feitos in loco mas muitos eram feitos com os espécimes cá e aqui em Lisboa na Casa do Risco é que eram feitos os desenhos e posteriormente até foram coligidos nestes volumes. Alguns foram posteriormente encadernados para não se perderem.”

Mas nem todos os desenhos foram feitos nos recantos mais recônditos do reino, diz a curadora, que contou com a colaboração de Pedro Salgado, ilustrador científico, na interpretação dos desenhos. Por exemplo, o pássaro de aspeto inanimado colocado num galho. Ou a preguiça com rosto humano que parece ter caído de uma espécie de Monte Fuji. “Se formos a olhar para paisagens, não são propriamente de origem africana”, aponta num determinado volume. “Os animais vinham para Lisboa já sem vida, serviam de modelo à vista, e depois os riscadores acabavam por efabular um bocado as paisagens, sendo que muitos deles nunca saíram de Lisboa, nem participaram na expedição”, explica.

Um dos espécimen recolhidos na expedição que foi desenhado em Lisboa (Sara Matos / Global Imagens)

Os riscadores, in loco ou em Lisboa, tinham como missão documentar o reino distante de Portugal. Delineavam os desenhos a tinta-da-china, pintava a aguarela ou aguada (em alguns é possível ver as linhas traçadas a lápis, onde delimitavam as zonas da folha a preencher, como um catálogo de especímenes de terras distantes). A maior parte das ilustrações estão impecáveis, o que leva a crer que mesmo na selva seriam feitos em boas condições de trabalho – e não sentados no chão ou numa pedra, como muitos modernos Urban Sketchers hoje fazem. Ana Pascoal ri-se e acede: “levavam todo o aparato para terem o mínimo de conforto.”

Os desenhos destes códices do século XVIII são tratados de biologia, botânica e antropologia. As espécies vegetais são documentadas da raiz à flor ou fruto, as espécies animais com todos os pormenores. Estas ilustrações científicas têm o exato número de escamas de um peixe ou de espinhos de um ouriço, e são verdadeiras maravilhas. Muitos têm um volume complementar de texto, com os relatos dos locais, que se destinavam também a ser transmitidos aos riscadores. “O tempo de execução de cada desenho, pelo que estimou o Pedro Salgado, podia chegar a meses. Até pelo número de pessoas envolvidas, em que o mestre fazia o esboço, os aprendizes terminavam”, explica. Entre os mestres da Casa do Risco, Joaquim José Codina, que assina alguns dos minuciosos trabalhos.

Marta Lourenço volta a assomar à porta: “Já viu o ouriço?”. Ainda não chegáramos ao famoso ouriço. Estaríamos, ainda, na curiosidade contabilística: quantos desenhos estão aqui, como se salvaram das chamas? São cerca de dois mil desenhos das várias viagens. Estes desenhos salvaram-se do incêndio de 1978 e salvaram-se porque estavam dentro de um cofre, no departamento de Zoologia. “Esta coleção de desenhos teve origem na Ajuda, quando estava lá a família real, e depois acabou por ser dispersa, foi para a Academia das Ciências e depois houve coisas que desapareceram, que estão nas mãos de privados. Uns foram para o Brasil e não voltaram. Estes, sobretudo os do Alexandre Rodrigues Ferreira sobreviveram porque acabaram por não ir por alguma razão nessa remessa. Se calhar já não os teríamos se eles tivessem ido nessa altura. Foi assim um acaso feliz”, diz a investigadora.

Algumas das tribos documentadas no século XVIII já foram extintas (Sara Matos / Global Imagens)

Muita gente julgava que se tinham perdido para sempre, acrescenta a subdiretora. Marta Lourenço chegou ali já depois ao incêndio para estudar Física e ficou até hoje. “Entrei em 86 e na realidade tirando um ano ou dois, nunca saí daqui. Um professor que eu tive que era o Fernando Bragança Gil motivou-me imenso e porque eu era despachada e gostava de História, gostava de outras coisas para além da Física, e desafiou-me a ajudá-lo a inventariar os objetos e os instrumentos. Adorei. Nunca mais fiz Física. Fiz formação em museologia e fiz doutoramento em História da Ciência”.

E chegamos ao ouriço. Com e sem espinhos, desenhado à escala. Com uma lupa, desvenda-se a maravilha: os milhares de espinhos desenhados na sua exata posição, mesmo os partidos. “Dá para contar os espinhos! Isto é tal e qual. Estão lá os espinhos todos, é incrível”, aponta a subdiretora. Conta que nos peixes estão as escamas todas, que variam de acordo com a espécie, e que as borboletas de um outro códice, são desenhadas usando o pó (escamas) da borboleta. “É incrível, é quase como se fosse um kalkitos.” Mas é o ouriço que mais a encanta. “Quando eu morrer quero este ouriço no meu epitáfio.”

O ouriço é um dos exemplares desenhados com detalhe e à escala dos códices centenários preservados nas reservas do Museu Nacional de História Natural, em Lisboa (Sara Matos / Global Imagens)